O Estado de S. Paulo
Desafio é preservar dignidade humana enquanto
recuperamos nossa capacidade de ambição heroica
As nações ocidentais nos séculos 19 e 20
foram, em sua época, as sociedades mais liberais da história
Finalmente fui assistir ao novo filme de Christopher Nolan, A Odisseia, para curtir um grande sucesso de bilheteria – e ele superou todas as expectativas. Não tinha a intenção de comentar as várias polêmicas em torno do filme, desde as críticas de que ele é “woke” até as alegações de que é historicamente impreciso (pelo amor de Deus, trata-se de uma história de quase 3 mil anos repleta de deuses e deusas, gigantes caolhos e magia!). Mas o comentário de Ezra Klein sobre o filme me levou a refletir sobre as questões mais amplas que ele levanta, as quais me parecem interessantes e importantes.
Klein argumenta que, embora a crítica à
Odisséia de Nolan como sendo “woke” – por ter escalado uma atriz negra para o
papel de Helena – seja trivial e superficial, o filme é liberal em um sentido
mais profundo. Nolan substitui fundamentalmente a moralidade do mundo antigo –
em que a conquista e a vitória eram celebradas sem pudor – por uma moralidade
mais matizada. Enquanto o Odisseu de Homero era constantemente elogiado por
suas artimanhas inteligentes e astutas, o Odisseu de Nolan é assombrado pelas devastações
da guerra e por seu próprio ardil, que esteve no centro da vitória: o cavalo de
Troia.
A partir do cristianismo, o Ocidente
substituiu gradualmente a ética pagã da conquista e dominação descaradas por
uma centrada na dignidade humana universal, na compaixão e na empatia.
“Bemaventurados os mansos, porque herdarão a terra”, diz o Evangelho segundo
Mateus – palavras que nenhum herói homérico jamais proferiria.
HUMANIDADE. Os valores précristãos estão voltando à tona atualmente, à medida que a direita populista, muitas vezes acompanhada por um novo grupo de bilionários do setor de tecnologia, olha para trás com admiração para um mundo antigo em que força, dominação e vitória eram mais importantes do que empatia e igualdade.
Para Donald Trump, “vencer” é tudo o que
importa, justificando todos os meios. Ele usa essa palavra incessantemente. Em
entrevista ao programa 60 Minutes, em 2018, quando questionado sobre seus
comentários depreciativos a Christine Blasey Ford, a mulher que acusou Brett
Kavanaugh de agressão sexual, Trump disse simplesmente: “Não importa. Nós
vencemos.” Em seu livro Suicidal Empathy, Gad Saad – um dos escritores
favoritos de Elon Musk – argumenta que o Ocidente está em declínio porque se
preocupa demais com muitas pessoas: os marginalizados, as minorias e até mesmo
seus inimigos.
De fato, a maior conquista moral do Ocidente
nos últimos dois milênios, e especialmente desde o Iluminismo, tem sido a
ampliação do círculo de pessoas consideradas plenamente humanas, com igual
dignidade e direitos iguais. Passamos a reconhecer a humanidade de pessoas
antes rejeitadas como escravos, servos e cidadãos de segunda classe –
estrangeiros, mulheres, minorias raciais, pessoas com orientações sexuais
diferentes. Essas ideias se espalharam pelo mundo porque são, nas palavras da
Declaração da Independência dos EUA, “evidentes por si mesmas”. Essa é uma das
maiores conquistas do Ocidente, não uma doença decadente.
Mas há uma crítica séria enterrada por trás
dos ataques grosseiros do movimento trumpista. É uma crítica que o filósofo
alemão Friedrich Nietzsche formulou e está sendo retomada por alguns dos “tech
bros” de hoje.
Nietzsche temia que as ideias igualitárias do
cristianismo nos tornassem menos propensos a ser extremamente ambiciosos,
ávidos por riscos e temerários. Será que nos tornamos tão humanos a ponto de
termos perdido os impulsos primitivos que nos tornavam heroicos?
Não devemos romantizar civilizações
construídas sobre sangue, violência e conquista simplesmente porque geraram
heróis. Mas elas construíram mais do que isso. As pirâmides, as catedrais
góticas, as viagens de descoberta, a Revolução Industrial – tudo isso surgiu de
sociedades movidas pela ambição, pela confiança e pela disposição para o
sacrifício.
Muitas vezes, elas vinham acompanhadas de
hierarquia e de um foco obstinado na grandeza. Parte do apelo do populismo hoje
reside menos em políticas específicas do que na promessa de restaurar a
grandeza nacional – de construir, de alcançar, de vencer.
Mas será que precisamos escolher entre
grandeza e bondade? Afinal, as nações ocidentais nos séculos 19 e 20 foram, em
sua época, as sociedades mais liberais da história da humanidade. E elas não
eram nada tímidas. Construíram ferrovias atravessando continentes, aboliram a
escravidão, industrializaram o mundo, criaram a bomba atômica, reconstruíram a
Europa e o Japão, levaram o homem à Lua e criaram a internet.
Pense nos EUA de meados do século 20, o país
que criou o moderno Estado de bem-estar social, derrotou o fascismo, construiu
rodovias e aeroportos, combateu o comunismo e começou a desmantelar o legado da
escravidão. Essas foram civilizações de imensa ambição.
ROOSEVELT. Os liberais não devem se desculpar por acreditarem que todo ser humano possui igual dignidade. As grandes democracias liberais do mundo conseguiram ampliar nosso universo moral ao mesmo tempo que expandiram nosso universo físico. O desafio é recuperar essa tradição liberal mais antiga.
Esse espírito será extremamente necessário à
medida que desenvolvemos o que talvez seja a tecnologia mais transformadora de
todos os tempos, a inteligência artificial, pois precisaremos garantir que seu
incrível poder esteja enraizado em um sistema de ética e valores que valorize a
dignidade humana e a igualdade – exatamente os valores que o cristianismo foi
pioneiro em defender e o Ocidente fortaleceu de forma tão poderosa. Não
precisamos voltar a Homero. Recuperar o espírito de Franklin Roosevelt já seria
suficiente.
*É colunista do ‘Washington Post’

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