sábado, 22 de agosto de 2026

O que Odisseu pode ensinar ao liberalismo, por Fareed Zakaria*

O Estado de S. Paulo

Desafio é preservar dignidade humana enquanto recuperamos nossa capacidade de ambição heroica

As nações ocidentais nos séculos 19 e 20 foram, em sua época, as sociedades mais liberais da história

Finalmente fui assistir ao novo filme de Christopher Nolan, A Odisseia, para curtir um grande sucesso de bilheteria – e ele superou todas as expectativas. Não tinha a intenção de comentar as várias polêmicas em torno do filme, desde as críticas de que ele é “woke” até as alegações de que é historicamente impreciso (pelo amor de Deus, trata-se de uma história de quase 3 mil anos repleta de deuses e deusas, gigantes caolhos e magia!). Mas o comentário de Ezra Klein sobre o filme me levou a refletir sobre as questões mais amplas que ele levanta, as quais me parecem interessantes e importantes.

Klein argumenta que, embora a crítica à Odisséia de Nolan como sendo “woke” – por ter escalado uma atriz negra para o papel de Helena – seja trivial e superficial, o filme é liberal em um sentido mais profundo. Nolan substitui fundamentalmente a moralidade do mundo antigo – em que a conquista e a vitória eram celebradas sem pudor – por uma moralidade mais matizada. Enquanto o Odisseu de Homero era constantemente elogiado por suas artimanhas inteligentes e astutas, o Odisseu de Nolan é assombrado pelas devastações da guerra e por seu próprio ardil, que esteve no centro da vitória: o cavalo de Troia.

A partir do cristianismo, o Ocidente substituiu gradualmente a ética pagã da conquista e dominação descaradas por uma centrada na dignidade humana universal, na compaixão e na empatia. “Bemaventurados os mansos, porque herdarão a terra”, diz o Evangelho segundo Mateus – palavras que nenhum herói homérico jamais proferiria.

HUMANIDADE. Os valores précristãos estão voltando à tona atualmente, à medida que a direita populista, muitas vezes acompanhada por um novo grupo de bilionários do setor de tecnologia, olha para trás com admiração para um mundo antigo em que força, dominação e vitória eram mais importantes do que empatia e igualdade.

Para Donald Trump, “vencer” é tudo o que importa, justificando todos os meios. Ele usa essa palavra incessantemente. Em entrevista ao programa 60 Minutes, em 2018, quando questionado sobre seus comentários depreciativos a Christine Blasey Ford, a mulher que acusou Brett Kavanaugh de agressão sexual, Trump disse simplesmente: “Não importa. Nós vencemos.” Em seu livro Suicidal Empathy, Gad Saad – um dos escritores favoritos de Elon Musk – argumenta que o Ocidente está em declínio porque se preocupa demais com muitas pessoas: os marginalizados, as minorias e até mesmo seus inimigos.

De fato, a maior conquista moral do Ocidente nos últimos dois milênios, e especialmente desde o Iluminismo, tem sido a ampliação do círculo de pessoas consideradas plenamente humanas, com igual dignidade e direitos iguais. Passamos a reconhecer a humanidade de pessoas antes rejeitadas como escravos, servos e cidadãos de segunda classe – estrangeiros, mulheres, minorias raciais, pessoas com orientações sexuais diferentes. Essas ideias se espalharam pelo mundo porque são, nas palavras da Declaração da Independência dos EUA, “evidentes por si mesmas”. Essa é uma das maiores conquistas do Ocidente, não uma doença decadente.

Mas há uma crítica séria enterrada por trás dos ataques grosseiros do movimento trumpista. É uma crítica que o filósofo alemão Friedrich Nietzsche formulou e está sendo retomada por alguns dos “tech bros” de hoje.

Nietzsche temia que as ideias igualitárias do cristianismo nos tornassem menos propensos a ser extremamente ambiciosos, ávidos por riscos e temerários. Será que nos tornamos tão humanos a ponto de termos perdido os impulsos primitivos que nos tornavam heroicos?

Não devemos romantizar civilizações construídas sobre sangue, violência e conquista simplesmente porque geraram heróis. Mas elas construíram mais do que isso. As pirâmides, as catedrais góticas, as viagens de descoberta, a Revolução Industrial – tudo isso surgiu de sociedades movidas pela ambição, pela confiança e pela disposição para o sacrifício.

Muitas vezes, elas vinham acompanhadas de hierarquia e de um foco obstinado na grandeza. Parte do apelo do populismo hoje reside menos em políticas específicas do que na promessa de restaurar a grandeza nacional – de construir, de alcançar, de vencer.

Mas será que precisamos escolher entre grandeza e bondade? Afinal, as nações ocidentais nos séculos 19 e 20 foram, em sua época, as sociedades mais liberais da história da humanidade. E elas não eram nada tímidas. Construíram ferrovias atravessando continentes, aboliram a escravidão, industrializaram o mundo, criaram a bomba atômica, reconstruíram a Europa e o Japão, levaram o homem à Lua e criaram a internet.

Pense nos EUA de meados do século 20, o país que criou o moderno Estado de bem-estar social, derrotou o fascismo, construiu rodovias e aeroportos, combateu o comunismo e começou a desmantelar o legado da escravidão. Essas foram civilizações de imensa ambição.

ROOSEVELT. Os liberais não devem se desculpar por acreditarem que todo ser humano possui igual dignidade. As grandes democracias liberais do mundo conseguiram ampliar nosso universo moral ao mesmo tempo que expandiram nosso universo físico. O desafio é recuperar essa tradição liberal mais antiga.

Esse espírito será extremamente necessário à medida que desenvolvemos o que talvez seja a tecnologia mais transformadora de todos os tempos, a inteligência artificial, pois precisaremos garantir que seu incrível poder esteja enraizado em um sistema de ética e valores que valorize a dignidade humana e a igualdade – exatamente os valores que o cristianismo foi pioneiro em defender e o Ocidente fortaleceu de forma tão poderosa. Não precisamos voltar a Homero. Recuperar o espírito de Franklin Roosevelt já seria suficiente.

*É colunista do ‘Washington Post’

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