O Povo (CE)
Vivemos em um estado laico, mas isso não
significa dizer que Deus está totalmente aposentado da política. Uma pesquisa
interessante conduzida pelo Laboratório de Estudos Socioantropológicos em
Política, Arte e Religião (LePar), da Universidade Federal Fluminense, revelou
que, para 81% dos eleitores, é fundamental que um candidato acredite em Deus. O
número sobe para 89% na faixa de quem ganha até um salário mínimo.
Para 74% dos eleitores, acreditar em Deus torna as pessoas melhores, e mais de 80% acreditam que as escolas devem ensinar crianças e jovens a ter fé. Os números são reveladores de um país profundamente crente, que não aceita a tese de uma separação entre assuntos religiosos e questões de estado.
A centralidade da religião para o senso de
moralidade compartilhada desafia as teses mais tradicionais da sociologia. Para
autores como Hannah Arendt, uma das características do mundo moderno é um
processo profundo de separação entre o espaço público e o espaço privado, com a
privatização da religião. Dizendo de modo mais simples, nós seríamos, em tese,
herdeiros de uma concepção de mundo em que as questões de fé são particulares e
as questões públicas devem ser tocadas sem necessária referência a uma
religião. Só assim, dizem os teóricos, um mundo de pluralismo religioso
tornou-se possível: foi preciso privatizar o credo para todos pudessem escolher
o seu.
Há uma distância maior entre as teses e a
realidade do que gostaríamos de imaginar. Embora o estado de direito
democrático fundado pela nossa constituição seja laico, a verdade é que a
maioria das pessoas conduz suas vidas e decide politicamente com uma dependência
profunda de sua fé. Filósofos contemporâneos atentos ao fenômeno já chamaram
atenção da importância de levarmos a religião em conta em nossas explicações
sobre as dinâmicas políticas do presente, especialmente sobre o quão difícil é,
para o cidadão religioso, essa "separação estrita entre argumentos
religiosos e não religiosos", como explicou Manfredo Oliveira em seu livro
A religião na sociedade urbana e pluralista.
O desafio não tem solução fácil, porque abrir
mão da laicidade do estado nos fará retroceder para um mundo de fanatismo,
negação das liberdades e misticismo religioso. Sem pretender apontar caminhos
ou soluções, me parece urgente executarmos um cuidado que é, hoje, factível:
evitar a instrumentalização da religião e dos espaços de credo para a promoção
de candidaturas. É preciso controlar, com menos pudor, o uso mal-intencionado
da fé para convencer eleitores de que o interesse pessoal de alguns é o desejo
do seu deus. Quando Deus se partidiariza e entra no embate, até ele precisa cumprir,
e com rigor, a lei eleitoral
*Doutora em Direito (USP) e professora da Universidade
Federal do Ceará.

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