sábado, 8 de agosto de 2026

Tráficos de influências, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A crise entre Supremo e Polícia Federal – entre André Mendonça e Andrei Rodrigues – só existe porque investigado vai Lulinha. Daí o festival reativo de plantações sobre desconfianças da corporação contra o ministro. Não tardaria até que Lula ordenasse a negociação de um cessar-fogo. A um presidente candidato à reeleição – cujos governos anteriores são marcados por corrupções – pegará malíssimo a prosperidade da hipótese de que apurações policiais sobre traficâncias do filho não avancem.

Mendonça comunica que não avançam, insatisfeito com o que seriam manobras da PF para fatiar e redistribuir no STF investigações que, a partir da base de dados da Operação Sem Desconto – que relata – e tratando dos mesmos personagens, não obviamente lhe escapariam à prevenção.

Fatiado o bicho, foi cair com Flávio Dino – ministro do Supremo e líder da bancada governista no tribunal – a porção concernente ao ex-chefe de gabinete de Lula, gestor da porta de acesso ao presidente, aquele que tomou empréstimo com a lobista parceira de Lulinha representante do “Careca do INSS”; empréstimo somente quitado depois de haver chegado ao Planalto a informação de que o sigilo da lobista fora quebrado.

(Era empréstimo? Quem terá vazado a informação sigilosa, deflagradora do que podem ser sido soluções de fachada para tentar explicar o talvez inexplicável?)

Na matéria “roubo bilionário a aposentados e pensionistas”, esticando a corda do controle externo da PF, Mendonça ordenou que a corporação submetesse a seu gabinete qualquer nova mudança na equipe de investigadores e lhe remetesse a cópia da matéria bruta produzida pelas investigações.

(Colaborará à desconfiança – sendo o ministro também relator do caso Master – a presença de Rodrigues, com Alexandre de

Moraes e Dias Toffoli, no clube do uísque londrino de Vorcaro.)

A Polícia Federal reagiu, difundida a versão de que a atividade de Mendonça seria partidária: tão rápido para autorizar busca e apreensão contra Jaques Wagner, de repente menos rigoroso para tomar providências sobre o ex-governador do Rio Claudio Castro.

O cronista não se lembra – não sob a intensidade de um protesto conjunto das 27 superintendências da PF – de tamanha expressão de incômodo relativamente à segurança da cadeia de custódia de provas, quando Dias Toffoli, então relator do caso Master no STF, deitou medidas centralizadoras sobre quem poderia ter acesso a conjunto probatório que, descobriríamos depois, tratava de seus ex-sócios no hotel Tayayá.

Outra das queixas da PF consiste em que o interferente Mendonça pretenderia atuar como investigador. Não pode. Poderia Xandão? Talvez a Moraes, confrade de scotch, se tenha permitido a condição excepcional de delegadão porque, afinal, o objeto era o capeta golpista e a defesa da democracia – ameaçada pelo “8 de janeiro permanente” – autorizara a vigência do Direito Xandônico.

O presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Francisco Eduardo Loureiro, disse ontem que “quanto maior a independência dos juízes, maior deve ser o compromisso com a ética”. Durante solenidade de vitaliciamento de 122 magistrados, ele recomendou que a carreira deve ser exercida com discrição, prudência e dedicação. E fez um alerta. “Nós, juízes, não somos eleitos, de modo que nossas ações não recebem o escrutínio da aprovação popular pelo voto.”

Loureiro declarou aos magistrados em início de carreira que, “em todas as democracias, é a confiança do público na independência das Cortes, na integridade de seus juízes e na imparcialidade e eficiência de seus processos que sustenta o sistema judiciário”. E chamou atenção para “tempos de polarização e de comunicação de massa em redes sociais”.

F.M. e F.P.

 

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