Correio Braziliense
A Amazônia brasileira surgiu de maneira
inesperada para o Império e mais ainda para a República. O governo federal
ignorou as populações do Norte ao longo de várias décadas
A Amazônia esconde mistérios. Em fevereiro de 1500, Vicente Yanes Pinzón, que havia comandado a caravela Nina na expedição de Cristovam Colombo, navegou pelo litoral do território que seria depois chamado de Brasil. Singrou as águas do rio gigante que batizou de MarDulce. Em agosto de 1542, Francisco Orellana, acompanhado de soldados e índios, iniciou a descida do Rio Napo, no atual Equador, após fundar a cidade de Guayaquil. Ele navegou toda a extensão do Rio Amazonas. O frei Gastar de Carvajal foi o escrivão da improvisada aventura.
O religioso fez o relato da formidável viagem
pelo imenso rio que deságua do Oceano Atlântico. Obteve enorme sucesso na
Europa. A expedição enfrentou pesadas dificuldades, desceu das montanhas dos
Andes até alcançar o litoral. Segundo o relato, foram atacados por diversas
tribos, uma delas, porém, era constituída apenas de mulheres que viviam
isoladas. Elas foram chamadas de amazonas, nome que acabou identificando toda a
região. A lenda batizou aquela enorme área.
A Amazônia foi descoberta pelos espanhóis,
mas colonizada por portugueses. O irmão do Marquês de Pombal, Francisco Xavier
de Mendonça Furtado, foi governador da província do Grão Pará no século 18. Ele
deu nomes portugueses às cidades situadas ao longo do Rio Amazonas. Até hoje
sua escolha prevalece. A Independência do Brasil no norte do país só ocorreu em
agosto de 1823, porque a população da região preferia permanecer ligada à
Lisboa. Emissários do almirante Cochrane, oficial inglês a serviço do
imperador, ameaçaram bombardear Belém. Os revoltosos depuseram as armas e foram
obrigados a se juntar ao Brasil Independente.
A Amazônia brasileira surgiu de maneira
inesperada para o Império e mais ainda para a República. O governo federal
ignorou as populações do Norte ao longo de várias décadas. Somente no governo
Getúlio Vargas, nos anos 1940, os brasileiros começaram a perceber a existência
do Norte, por meio da política oficial chamada de Marcha para o Oeste, que
resultou na fundação das cidades de Rialma e Ceres, em Goiás, por Bernardo
Sayão. Em tempos recentes, o governo abriu estradas que ligam o Norte ao resto
do país, depois de construir Brasília.
A Amazônia passou por fases importantes.
Ocorreu a época da borracha, no final do século 19. As elites locais enriqueceram.
Mas os ingleses levaram a seringueira para a Ásia. E o comércio do Norte
brasileiro faliu. Ocorreu a enorme fantasia de Henry Ford, que criou uma cidade
— Fordlândia — com características norte-americanas nas margens do Rio Tapajós.
Não deu certo. Grandes empreendimentos ocorreram no Amapá. Alguns funcionam até
hoje. Outros fecharam as portas. Agora surge petróleo na chamada Margem
Equatorial, descoberto pela Petrobras. O petróleo apareceu em poço, denominado
Morpho, cavado abaixo de 3 mil metros de lâmina de água, a 175 quilômetros da
costa e a 500 da foz do Rio Amazonas.
O petróleo do Amapá se integra ao formidável
lençol descoberto na Guiana, antiga Guiana Inglesa, e no Suriname. Os dois
pequenos países constituem as economias que mais crescem no mundo, por causa da
recente descoberta. Essa nova área de produção de petróleo, na costa norte do
Brasil, abrange a região que vai do Amapá até o Rio Grande do Norte.
Precisamente, os estados mais pobres do Brasil, que poderão começar a receber
os royalties produzidos pela exploração do ouro negro dentro de alguns anos. É
perspectiva nova para a região que não possuía nenhuma esperança à vista.
O petróleo da Guiana foi descoberto pela
norte-americana Exxon Mobil a 200 quilômetros do litoral. A empresa estima que
existam mais de 10 bilhões de barris no bloco, chamado de Stabroek. Para
efeito de comparação, a Guiana tem crescido nos últimos anos a média de 30% ao
ano, enquanto o Brasil deverá crescer neste 2026 menos de 2%. O país vizinho
está vivendo transformação impressionante. Pobre, com 900 mil habitantes, de
repente se encontrou com enormes possibilidades financeiras. Obras por todos os
lados. A estrada que liga a capital, Georgetown, à fronteira com Roraima, que
estava abandonada, está recebendo asfalto. Grandes investidores já estão lá. O
governo financia também a agricultura. Esse mesmo espantoso crescimento poderá
ocorrer no norte do Brasil.
A produção da Margem Equatorial deverá entrar
no mercado dentro de alguns anos. Os cálculos dos técnicos brasileiros indicam
que em torno de 2030 a produção de petróleo do pré-sal atingirá seu ponto mais
elevado. A partir daí tenderá a se reduzir. É nessa janela de oportunidade que
deverá entrar a produção do norte brasileiro. Até lá, as energias originárias
do vento e da luz do Sol já deverão ser majoritárias no Brasil, que poderá
fazer a transição para a energia limpa sem maiores problemas. Isto é, se
trabalhar bem.

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