O Estado de S. Paulo
A crise entre Supremo e Polícia Federal – entre André Mendonça e Andrei Rodrigues – só existe porque investigado vai Lulinha. Daí o festival reativo de plantações sobre desconfianças da corporação contra o ministro. Não tardaria até que Lula ordenasse a negociação de um cessar-fogo. A um presidente candidato à reeleição – cujos governos anteriores são marcados por corrupções – pegará malíssimo a prosperidade da hipótese de que apurações policiais sobre traficâncias do filho não avancem.
Mendonça comunica que não avançam, insatisfeito com o que seriam manobras da PF para fatiar e redistribuir no STF investigações que, a partir da base de dados da Operação Sem Desconto – que relata – e tratando dos mesmos personagens, não obviamente lhe escapariam à prevenção.
Fatiado o bicho, foi cair com Flávio Dino –
ministro do Supremo e líder da bancada governista no tribunal – a porção
concernente ao ex-chefe de gabinete de Lula, gestor da porta de acesso ao
presidente, aquele que tomou empréstimo com a lobista parceira de Lulinha
representante do “Careca do INSS”; empréstimo somente quitado depois de haver
chegado ao Planalto a informação de que o sigilo da lobista fora quebrado.
(Era empréstimo? Quem terá vazado a
informação sigilosa, deflagradora do que podem ser sido soluções de fachada
para tentar explicar o talvez inexplicável?)
Na matéria “roubo bilionário a aposentados e
pensionistas”, esticando a corda do controle externo da PF, Mendonça ordenou
que a corporação submetesse a seu gabinete qualquer nova mudança na equipe de
investigadores e lhe remetesse a cópia da matéria bruta produzida pelas
investigações.
(Colaborará à desconfiança – sendo o ministro
também relator do caso Master – a presença de Rodrigues, com Alexandre de
Moraes e Dias Toffoli, no clube do uísque
londrino de Vorcaro.)
A Polícia Federal reagiu, difundida a versão
de que a atividade de Mendonça seria partidária: tão rápido para autorizar
busca e apreensão contra Jaques Wagner, de repente menos rigoroso para tomar
providências sobre o ex-governador do Rio Claudio Castro.
O cronista não se lembra – não sob a
intensidade de um protesto conjunto das 27 superintendências da PF – de tamanha
expressão de incômodo relativamente à segurança da cadeia de custódia de
provas, quando Dias Toffoli, então relator do caso Master no STF, deitou
medidas centralizadoras sobre quem poderia ter acesso a conjunto probatório
que, descobriríamos depois, tratava de seus ex-sócios no hotel Tayayá.
Outra das queixas da PF consiste em que o
interferente Mendonça pretenderia atuar como investigador. Não pode. Poderia
Xandão? Talvez a Moraes, confrade de scotch, se tenha permitido a condição
excepcional de delegadão porque, afinal, o objeto era o capeta golpista e a
defesa da democracia – ameaçada pelo “8 de janeiro permanente” – autorizara a
vigência do Direito Xandônico.
O presidente do Tribunal de Justiça de São
Paulo, desembargador Francisco Eduardo Loureiro, disse ontem que “quanto maior
a independência dos juízes, maior deve ser o compromisso com a ética”. Durante
solenidade de vitaliciamento de 122 magistrados, ele recomendou que a carreira
deve ser exercida com discrição, prudência e dedicação. E fez um alerta. “Nós,
juízes, não somos eleitos, de modo que nossas ações não recebem o escrutínio da
aprovação popular pelo voto.”
Loureiro declarou aos magistrados em início
de carreira que, “em todas as democracias, é a confiança do público na
independência das Cortes, na integridade de seus juízes e na imparcialidade e
eficiência de seus processos que sustenta o sistema judiciário”. E chamou
atenção para “tempos de polarização e de comunicação de massa em redes
sociais”.
F.M. e F.P.
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