sexta-feira, 25 de setembro de 2026

A sorte de Flávio Bolsonaro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Pego na mentira mais uma vez, candidato conta com tolerância de seguidores do pai

Aconteceu em 1993, na CPI dos Anões do Orçamento. Acusado de chefiar um esquema de pilhagem do Tesouro, o deputado João Alves disse ter vencido 200 vezes na loteria. “Deus me ajudou e eu ganhei dinheiro”, garantiu, para gargalhada geral.

Trinta e três anos depois, o empresário Antonio Carlos Freixo Júnior se mostrou ainda mais afortunado. Alvo da Operação Carbono Oculto, ele apareceu 570 vezes como “ganhador” em comunicações de prêmios e apostas. Usou a sorte como pretexto para movimentar R$ 176,4 milhões.

Conhecido como o homem da mala de Daniel Vorcaro, Freixo Júnior também está envolvido na trama do ‘Dark Horse”. Figura como financiador do que seria o filme mais caro da história do cinema brasileiro. A se acreditar nas palavras de Flávio Bolsonaro, que não devem ser compradas pelo valor de face.

O candidato do PL acaba de ser pego na mentira mais uma vez. Em 1º de julho, num encontro com “mulheres conservadoras”, ele assegurou: “Nunca entrei em avião de Vorcaro”. A revista Piauí desmontou a cascata. Flávio embarcou com mulher e filhas no jato Legacy 650 prefixo PP-NLR. Era janeiro de 2025, e ele voltava de uma temporada na Flórida, refúgio preferido do clã.

Desde que o escândalo veio à tona, o senador empilha lorotas sobre suas relações com o dono do Master. Primeiro disse que nunca havia tido contato com Vorcaro. A PF descobriu que os dois se tratavam como “irmão” e “irmãozão”. Depois negou ter pedido dinheiro ao banqueiro. Havia encomendado a bagatela de R$ 134 milhões. Em seguida, disse que o filme não teria consumido verba pública. Omitiu o assalto a fundos de previdência e as emendas suspeitas do aliado Mario Frias.

Em mais uma ironia da história, Flávio voou no mesmo jatinho que transportou Alexandre de Moraes. Aliados do senador cobram, com razão, que o ministro seja investigado pela proximidade com Vorcaro. Não mostram o mesmo furor apuratório em relação ao presidenciável.

A julgar pelas pesquisas, metade do eleitorado também parece não se importar com as mentiras do filho de Bolsonaro. Ele ainda não apelou ao truque da loteria, mas já pode se considerar um sujeito de sorte.

 

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