sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Debate pode tirar a eleição do escuro, por Vera Magalhães

O Globo

Primeiro e único confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro pode ocorrer dois dias antes do pleito e lançar luz sobre propostas e comparações de governos que ficaram em segundo plano diante de escândalos

O debate da TV Globo, na próxima quinta-feira, é a última chance de a eleição presidencial sair do absoluto breu em que é disputada, com o enorme risco que isso representa para o dia seguinte ao segundo turno. Ao que tudo indica, Lula e Flávio Bolsonaro sairão da retranca em que se colocaram e ficarão frente a frente pela primeira vez. O empate rigoroso entre ambos impede que um deles decida faltar a um programa tradicional, que tende a registrar audiência maciça.

O histórico irregular de performances de um e de outro em eventos do tipo e a quantidade de lama jogada no ventilador, sobretudo nas duas últimas semanas, desde que veio a público o conteúdo do celular de Daniel Vorcaro, não permitem prever favoritismo ou que rumo a discussão tomará. Mas é possível cravar que será o primeiro momento em que um eleitor entre apático e enojado parará diante da TV para prestar atenção ao que os candidatos a presidir o Brasil pelos próximos quatro anos têm a lhe propor.

Lula terá a chance de confrontar seu governo com o de Jair Bolsonaro — que, a julgar pelo crescimento paulatino do filho, o eleitor vem pouco a pouco redimindo. Mas estará o presidente em condições de fazer isso de forma compreensível para a maioria do eleitorado e de superar um oponente mais jovem, com imagem menos “cansada” que a sua? Essa parece ser a dúvida a assolar o frouxo comando político e de comunicação do petista. Ninguém demonstra ter pulso suficiente para definir uma estratégia e garantir que não só Lula comparecerá, como suplantará Flávio nesse encontro em tudo decisivo para o rumo das eleições.

Nos últimos dias, Lula tem atirado para tudo quanto é lado, sem conseguir emplacar algo que seja percebido claramente como um “gol”, um tema ou uma ideia capaz de reverter o desgaste que acumulou até em segmentos do eleitorado em que precisa ter desempenho extraordinário, como o Nordeste, os beneficiários de programas sociais e as mulheres.

O combo de aumento do Bolsa Família e declaração de guerra às bets veio como catadão de última hora para tentar atingir esses públicos, que começavam a se dispersar, de acordo com as pesquisas. Até aqui, o resultado desse bem-bolado ainda não é perceptível.

Ao longo de toda a campanha, Lula tem falhado em oferecer na propaganda eleitoral uma narrativa clara em que se comparem programas, ideias de futuro, compromisso democrático ou legado econômico entre ele e o bolsonarismo (matriz ou filial).

Na falta de algo substancioso, deu para especular no palanque, de forma até constrangedora, sobre o possível aparecimento de vídeos comprometedores da presença de Flávio em festinhas ou eventos menos republicanos. Se essa é a tal “bala de prata” com que conta um político com três mandatos nas costas, vê-se que a hesitação em comparecer a debates tem razão de ser.

Como Flávio passou a fazer forte blitz pelo voto útil nos últimos dias, com assédio direto sobre os eleitores dos candidatos do pelotão dos nanicos, passou a ser mais arriscado evitar o debate que comparecer. O risco não é exclusivo do incumbente. O filho Zero Um de Jair Bolsonaro protagonizou um episódio notório de piripaque num debate para a prefeitura do Rio em 2016.

A fragilidade do vidro de que é feito seu telhado, com histórico que começa nas rachadinhas em seu gabinete na Assembleia do Rio e termina na irmandade irrigada a milhões de dólares com Vorcaro, também não é algo para deixar ninguém confortável quando exposto em horário nobre na TV aberta.

Dados a confluência de escândalos para todo lado e esse cenário de empate absoluto e falta de um favorito claro, o confronto na Globo tende a ser um evento definidor do resultado do primeiro turno e das estratégias para a provável segunda etapa de uma campanha que, até aqui, se deu mais no escurinho dos bastidores. Que bom que chegou a hora de acender os holofotes.

 

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