O Globo
Pego na mentira mais uma vez, candidato conta
com tolerância de seguidores do pai
Aconteceu em 1993, na CPI dos Anões do Orçamento.
Acusado de chefiar um esquema de pilhagem do Tesouro, o deputado João Alves
disse ter vencido 200 vezes na loteria. “Deus me ajudou e eu ganhei dinheiro”,
garantiu, para gargalhada geral.
Trinta e três anos depois, o empresário
Antonio Carlos Freixo Júnior se mostrou ainda mais afortunado. Alvo da Operação
Carbono Oculto, ele apareceu 570 vezes como “ganhador” em comunicações de
prêmios e apostas. Usou a sorte como pretexto para movimentar R$ 176,4 milhões.
Conhecido como o homem da mala de Daniel Vorcaro, Freixo Júnior também está envolvido na trama do ‘Dark Horse”. Figura como financiador do que seria o filme mais caro da história do cinema brasileiro. A se acreditar nas palavras de Flávio Bolsonaro, que não devem ser compradas pelo valor de face.
O candidato do PL acaba de ser pego na
mentira mais uma vez. Em 1º de julho, num encontro com “mulheres
conservadoras”, ele assegurou: “Nunca entrei em avião de Vorcaro”. A revista
Piauí desmontou a cascata. Flávio embarcou com mulher e filhas no jato Legacy
650 prefixo PP-NLR. Era janeiro de 2025, e ele voltava de uma temporada na
Flórida, refúgio preferido do clã.
Desde que o escândalo veio à tona, o senador
empilha lorotas sobre suas relações com o dono do Master. Primeiro disse que
nunca havia tido contato com Vorcaro. A PF descobriu que os dois se tratavam
como “irmão” e “irmãozão”. Depois negou ter pedido dinheiro ao banqueiro. Havia
encomendado a bagatela de R$ 134 milhões. Em seguida, disse que o filme não
teria consumido verba pública. Omitiu o assalto a fundos de previdência e as
emendas suspeitas do aliado Mario Frias.
Em mais uma ironia da história, Flávio voou
no mesmo jatinho que transportou Alexandre de Moraes. Aliados do senador
cobram, com razão, que o ministro seja investigado pela proximidade com
Vorcaro. Não mostram o mesmo furor apuratório em relação ao presidenciável.
A julgar pelas pesquisas, metade do
eleitorado também parece não se importar com as mentiras do filho de Bolsonaro.
Ele ainda não apelou ao truque da loteria, mas já pode se considerar um sujeito
de sorte.

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