Folha de S. Paulo
Sofisticado sistema de discriminação racial
separa a população em grupos e perpetua tratamento desigual de cidadãos
Até quando vamos insistir em negar que o
racismo é um problema institucionalizado?
O Brasil é um país dividido. Não, eu não
estou falando das próximas eleições, da
polarização política, da ascensão da extrema direita ou do perfil de candidato
que reputo merecedor da confiança que será expressa pelo voto dos cerca de 158
milhões de cidadãos aptos a ir às urnas em alguns dias.
Estou falando do sofisticado sistema de discriminação e preconceito racial que separa a população em grupos e perpetua o tratamento desigual dos cidadãos brasileiros. É claro que não há uma divisão formal, mas ela está presente em mecanismos institucionalizados. Só não vê quem não quer.
O Brasil é um país dividido entre os poucos
que têm tudo e os milhões que não têm sequer acesso a direitos básicos. Me
refiro a coisas que deveriam ser triviais, como alimentação
saudável, moradia digna, saneamento
básico, trabalho decente e educação de
qualidade.
A face econômica é a mais explícita desse
"apartheid".
Afinal, a renda do 1% mais rico é quase 32 vezes maior que a renda dos
50% mais pobres (Observatório Brasileiro das Desigualdades). Em meio a essa
multidão de desvalidos (106,4 milhões) há gente de todas as raças, de todas as
cores.
Mas não dá para ignorar o fato de que a
maioria é preta e parda (mulheres negras em especial) e enfrenta barreiras
sistêmicas que dificultam (quando não impedem) o acesso a oportunidades. Salários
inferiores aos pagos a não negros nas mesmas funções servem de exemplo do
que estou falando.
Além disso, a ínfima presença
de pessoas negras em postos de comando, direção, gerência e nas carreiras
de maior prestígio é um eficiente limitador da mobilidade social. A divisão
étnico-racial do Brasil é tão óbvia que deveria ser motivo de constrangimento e
vergonha nacional por explicitar a histórica e escandalosa desigualdade
alicerçada no racismo.
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Até quando a sociedade brasileira vai
insistir em negar que o racismo é um problema institucionalizado, que divide o
país e mantém a população negra apartada de direitos?

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