segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Brasil, um país dividido, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Sofisticado sistema de discriminação racial separa a população em grupos e perpetua tratamento desigual de cidadãos

Até quando vamos insistir em negar que o racismo é um problema institucionalizado?

O Brasil é um país dividido. Não, eu não estou falando das próximas eleições, da polarização política, da ascensão da extrema direita ou do perfil de candidato que reputo merecedor da confiança que será expressa pelo voto dos cerca de 158 milhões de cidadãos aptos a ir às urnas em alguns dias.

Estou falando do sofisticado sistema de discriminação e preconceito racial que separa a população em grupos e perpetua o tratamento desigual dos cidadãos brasileiros. É claro que não há uma divisão formal, mas ela está presente em mecanismos institucionalizados. Só não vê quem não quer.

O Brasil é um país dividido entre os poucos que têm tudo e os milhões que não têm sequer acesso a direitos básicos. Me refiro a coisas que deveriam ser triviais, como alimentação saudável, moradia digna, saneamento básico, trabalho decente e educação de qualidade.

A face econômica é a mais explícita desse "apartheid". Afinal, a renda do 1% mais rico é quase 32 vezes maior que a renda dos 50% mais pobres (Observatório Brasileiro das Desigualdades). Em meio a essa multidão de desvalidos (106,4 milhões) há gente de todas as raças, de todas as cores.

Mas não dá para ignorar o fato de que a maioria é preta e parda (mulheres negras em especial) e enfrenta barreiras sistêmicas que dificultam (quando não impedem) o acesso a oportunidades. Salários inferiores aos pagos a não negros nas mesmas funções servem de exemplo do que estou falando.

Além disso, a ínfima presença de pessoas negras em postos de comando, direção, gerência e nas carreiras de maior prestígio é um eficiente limitador da mobilidade social. A divisão étnico-racial do Brasil é tão óbvia que deveria ser motivo de constrangimento e vergonha nacional por explicitar a histórica e escandalosa desigualdade alicerçada no racismo.

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Até quando a sociedade brasileira vai insistir em negar que o racismo é um problema institucionalizado, que divide o país e mantém a população negra apartada de direitos?

 

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