O Globo
Primeiro e único confronto entre Lula e
Flávio Bolsonaro pode ocorrer dois dias antes do pleito e lançar luz sobre
propostas e comparações de governos que ficaram em segundo plano diante de
escândalos
O debate da TV Globo, na próxima
quinta-feira, é a última chance de a eleição presidencial sair do absoluto breu
em que é disputada, com o enorme risco que isso representa para o dia seguinte
ao segundo turno. Ao que tudo indica, Lula e Flávio Bolsonaro sairão da
retranca em que se colocaram e ficarão frente a frente pela primeira vez. O
empate rigoroso entre ambos impede que um deles decida faltar a um programa
tradicional, que tende a registrar audiência maciça.
O histórico irregular de performances de um e de outro em eventos do tipo e a quantidade de lama jogada no ventilador, sobretudo nas duas últimas semanas, desde que veio a público o conteúdo do celular de Daniel Vorcaro, não permitem prever favoritismo ou que rumo a discussão tomará. Mas é possível cravar que será o primeiro momento em que um eleitor entre apático e enojado parará diante da TV para prestar atenção ao que os candidatos a presidir o Brasil pelos próximos quatro anos têm a lhe propor.
Lula terá a chance de confrontar seu governo
com o de Jair Bolsonaro — que, a julgar pelo crescimento paulatino do filho, o
eleitor vem pouco a pouco redimindo. Mas estará o presidente em condições de
fazer isso de forma compreensível para a maioria do eleitorado e de superar um
oponente mais jovem, com imagem menos “cansada” que a sua? Essa parece ser a
dúvida a assolar o frouxo comando político e de comunicação do petista. Ninguém
demonstra ter pulso suficiente para definir uma estratégia e garantir que não
só Lula comparecerá, como suplantará Flávio nesse encontro em tudo decisivo
para o rumo das eleições.
Nos últimos dias, Lula tem atirado para tudo
quanto é lado, sem conseguir emplacar algo que seja percebido claramente como
um “gol”, um tema ou uma ideia capaz de reverter o desgaste que acumulou até em
segmentos do eleitorado em que precisa ter desempenho extraordinário, como o
Nordeste, os beneficiários de programas sociais e as mulheres.
O combo de aumento do Bolsa Família e
declaração de guerra às bets veio como catadão de última hora para tentar atingir
esses públicos, que começavam a se dispersar, de acordo com as pesquisas. Até
aqui, o resultado desse bem-bolado ainda não é perceptível.
Ao longo de toda a campanha, Lula tem falhado
em oferecer na propaganda eleitoral uma narrativa clara em que se comparem
programas, ideias de futuro, compromisso democrático ou legado econômico entre
ele e o bolsonarismo (matriz ou filial).
Na falta de algo substancioso, deu para
especular no palanque, de forma até constrangedora, sobre o possível
aparecimento de vídeos comprometedores da presença de Flávio em festinhas ou
eventos menos republicanos. Se essa é a tal “bala de prata” com que conta um
político com três mandatos nas costas, vê-se que a hesitação em comparecer a
debates tem razão de ser.
Como Flávio passou a fazer forte blitz pelo
voto útil nos últimos dias, com assédio direto sobre os eleitores dos
candidatos do pelotão dos nanicos, passou a ser mais arriscado evitar o debate
que comparecer. O risco não é exclusivo do incumbente. O filho Zero Um de Jair
Bolsonaro protagonizou um episódio notório de piripaque num debate para a
prefeitura do Rio em 2016.
A fragilidade do vidro de que é feito seu telhado,
com histórico que começa nas rachadinhas em seu gabinete na Assembleia do Rio e
termina na irmandade irrigada a milhões de dólares com Vorcaro, também não é
algo para deixar ninguém confortável quando exposto em horário nobre na TV
aberta.
Dados a confluência de escândalos para todo
lado e esse cenário de empate absoluto e falta de um favorito claro, o
confronto na Globo tende a ser um evento definidor do resultado do primeiro
turno e das estratégias para a provável segunda etapa de uma campanha que, até
aqui, se deu mais no escurinho dos bastidores. Que bom que chegou a hora de
acender os holofotes.

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