sábado, 26 de setembro de 2026

O governo Lula acerta ao proibir as bets no Brasil? Sim, por Ione Amorim

Folha de S. Paulo

Rentabilidade se alimenta do risco, e apenas a regulação não acompanharia a escalada de danos

Jogo fica disponível 24 horas por dia e praticamente elimina barreiras físicas entre consumidor e produto

Até a proibição anunciada nesta sexta-feira (25) pelo governo Lula (PT), por meio de medida provisória, foram anos de operação de apostas online sem regras suficientes, seguidos por uma regulamentação que ainda estava em construção. Era como trocar a roda de um carro em movimento—e em alta velocidade.

Nesse período, os jogos e as apostas, as chamadas bets, se transformaram em um desafio socioeconômico, de proteção do consumidor e de saúde pública. Até que ponto é possível separar a rentabilidade desse mercado do comportamento que expõe permanentemente seus consumidores ao risco que a própria regulação pretende evitar?

Diferentemente do álcool e do tabaco, cujos graves danos levaram a sucessivas restrições à comercialização e à publicidade, o jogo online é imaterial, está disponível 24 horas por dia e praticamente elimina as barreiras físicas entre consumidor e produto. No mesmo celular estão a plataforma, o meio de pagamento, a publicidade e a possibilidade de realizar e repetir apostas em poucos segundos. Não há deslocamento, horário de fechamento ou necessidade de adquirir fisicamente um produto; a tecnologia suprimiu boa parte das barreiras que poderiam limitar seu consumo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que a digitalização e a comercialização estão normalizando os jogos de azar e que o acesso facilitado amplia os riscos. Um dado é revelador: as perdas geradas por jogadores em níveis considerados prejudiciais respondem por cerca de 60% da receita do setor. Quanto desse mercado continuaria economicamente sustentável se conseguíssemos retirar de sua receita justamente as apostas associadas aos comportamentos que queremos prevenir?

A experiência do Reino Unido ajuda a dimensionar esse desafio. O país estabeleceu seu marco regulatório em 2005 e, duas décadas depois, continua aperfeiçoando mecanismos de proteção. Em 2026, decidiu implantar novas avaliações para identificar apostadores de alto gasto ou em dificuldades financeiras, recorrendo inclusive a informações oriundas do sistema de crédito. O país também substituiu as contribuições voluntárias da indústria por uma cobrança obrigatória para financiar pesquisa, prevenção e tratamento dos danos associados ao jogo.

A mudança revela outra dimensão do problema: regulamentar não significa apenas fiscalizar empresas. Significa construir e financiar estruturas capazes de identificar vulnerabilidades, acompanhar transformações tecnológicas, prevenir danos e tratar suas consequências permanentemente. A OMS também vem deslocando a discussão da responsabilidade individual para uma abordagem de saúde pública. Considera insuficientes as medidas voluntárias relacionadas ao "jogo responsável" e recomenda intervenções sobre o próprio mercado: restrições à disponibilidade, limites de perdas e número de apostas e o fim da publicidade, da promoção e do patrocínio esportivo e cultural.

É nesse ponto que a experiência internacional deve servir como alerta: se um país com duas décadas de experiência regulatória continua sofisticando seus instrumentos para acompanhar um mercado digital em transformação, qual estrutura institucional, tecnológica e fiscalizatória seria necessária para oferecer proteção equivalente em países com capacidades regulatórias tão distintas?

O Brasil encontra-se diante de uma escolha que ultrapassa a engenharia regulatória e o enfrentamento do superendividamento. Um mercado digital disponível 24 horas por dia, cuja rentabilidade mantém relação relevante com comportamentos que produzem dano, exige do Estado vigilância contínua e cada vez mais sofisticada.

Talvez seja necessário inverter a pergunta: em vez de discutir até onde a regulação consegue acompanhar esse mercado, precisamos discutir até onde estamos dispostos a permitir que ele avance.

*Economista, é consultora em serviços financeiros e endividamento do consumidor do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor)

2 comentários:

  1. Ninguém fala do consumo da cerveja,conheço cada desastre,gente tendo que vender a própria casa e etc.

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