quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Saldo de julgamento confirma contaminação da campanha, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Grupo liderado pelo decano Gilmar Mendes, que reúne Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Dias Toffoli mostrou domínio de cena

Um dos saldos do julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF), que acabou adiado, foi a confirmação de que a maior crise da história da Corte, realmente, contaminou a campanha eleitoral. O outro foi o domínio da cena pelo grupo liderado pelo decano Gilmar Mendes, que reúne Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Dias Toffoli, o qual desviou a atenção da pauta central - a relação de Moraes com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro - para os atos do presidente Edson Fachin e de André Mendonça. O adiamento contrariou a cúpula da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, principal prejudicado pelo escândalo, e que redobrou os esforços para se descolar da crise e de Moraes.

No voto em que pediu desculpas aos brasileiros pela situação constrangedora da Corte Constitucional, a ministra Cármen Lúcia mencionou a proximidade do pleito. Ela disse se sentir envergonhada de “20 dias antes das eleições, estarem todos voltados a questões do Supremo”. Ponderou que os ministros gostariam de ter resolvido as questões em pauta, as quais sem a solução esperada pela sociedade, “foram crescendo demais”.

Por sua vez, o pedido de vista do ministro Flávio Dino, em um gesto aparentemente intempestivo, contribuiu para prolongar o desgaste da Corte e reforçar a artilharia da campanha do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que transformou a crise do Judiciário na principal arma contra Lula.

No discurso que vem se convertendo em votos e impulsionando o candidato nas pesquisas, Flávio tem convencido o eleitor de que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi enviado à prisão “por um juiz ladrão” - Moraes foi relator do processo sobre a tentativa de golpe de Estado em 2022 -, o qual teria feito negócios com o dono do Banco Master, segundo relatório da Polícia Federal (PF), e era próximo de Lula.

Em um tom cuja ênfase depois foi criticada por alguns de seus pares, Dino pediu vista do processo ao intervir para conter a escalada do embate acalorado entre Gilmar Mendes e André Mendonça. Ao citar que o STF está vivendo “tempos degradantes”, Dino ressaltou que “a 15 dias de uma eleição”, o Tribunal não poderia continuar se expondo a tal situação, com ministros se enfrentando diante das câmeras, e aos olhos da sociedade.

Nos bastidores, um interlocutor do ministro ponderou que ele não pretendia pedir vista, mas agiu dessa forma ao constatar que não havia clima para o julgamento, e as discussões entre os ministros tendiam a se agravar. Ele não confirmou, mas não se descarta que devolva os autos à pauta somente após a eleição.

Além do nítido ambiente de tensão, também ficou evidente a hegemonia do grupo de Gilmar, Moraes, Dino e Zanin na condução da estratégia para adiar o julgamento, em defesa da análise conjunta dos dois casos: a conduta supostamente ilícita de Moraes, e o pretenso abuso de autoridade de Mendonça, na condução do caso Master. A intervenção de Dino postergou o desfecho, mas tudo se encaminhava para uma situação de empate, que poderia favorecer Moraes.

Em paralelo, com o prolongamento da crise beneficiando seu principal adversário, Lula buscou uma postura mais incisiva ao ser perguntado sobre a crise no STF em entrevista à TV Record, na noite dessa terça-feira, logo após o julgamento. Pressionado pelos ataques de Flávio, que tenta associá-lo a Moraes, Lula insistiu que a crise é um problema do Judiciário, e que cabe ao presidente da Corte resolvê-la. “O Fachin tem a faca e o queijo na mão” para julgar quem tem que ser julgado, para punir quem tem que ser punido, para resgatar a credibilidade do Tribunal, afirmou. Lula ainda voltou a defender a abertura completa do sigilo, acusando Mendonça de ter dado publicidade apenas ao que era de seu interesse, e se comprometeu com uma reforma do Judiciário se for reeleito, revendo critérios de escolha e tempo de mandatos dos ministros do STF.

 

 

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