Valor Econômico
Grupo liderado pelo decano Gilmar Mendes, que
reúne Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Dias Toffoli mostrou
domínio de cena
Um dos saldos do julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF), que acabou adiado, foi a confirmação de que a maior crise da história da Corte, realmente, contaminou a campanha eleitoral. O outro foi o domínio da cena pelo grupo liderado pelo decano Gilmar Mendes, que reúne Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Dias Toffoli, o qual desviou a atenção da pauta central - a relação de Moraes com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro - para os atos do presidente Edson Fachin e de André Mendonça. O adiamento contrariou a cúpula da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, principal prejudicado pelo escândalo, e que redobrou os esforços para se descolar da crise e de Moraes.
No voto em que pediu desculpas aos brasileiros pela situação constrangedora da Corte Constitucional, a ministra Cármen Lúcia mencionou a proximidade do pleito. Ela disse se sentir envergonhada de “20 dias antes das eleições, estarem todos voltados a questões do Supremo”. Ponderou que os ministros gostariam de ter resolvido as questões em pauta, as quais sem a solução esperada pela sociedade, “foram crescendo demais”.
Por sua vez, o pedido de vista do ministro
Flávio Dino, em um gesto aparentemente intempestivo, contribuiu para prolongar
o desgaste da Corte e reforçar a artilharia da campanha do candidato do PL,
Flávio Bolsonaro, que transformou a crise do Judiciário na principal arma
contra Lula.
No discurso que vem se convertendo em votos e
impulsionando o candidato nas pesquisas, Flávio tem convencido o eleitor de que
seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi enviado à prisão “por um juiz
ladrão” - Moraes foi relator do processo sobre a tentativa de golpe de Estado
em 2022 -, o qual teria feito negócios com o dono do Banco Master, segundo
relatório da Polícia Federal (PF), e era próximo de Lula.
Em um tom cuja ênfase depois foi criticada
por alguns de seus pares, Dino pediu vista do processo ao intervir para conter
a escalada do embate acalorado entre Gilmar Mendes e André Mendonça. Ao citar
que o STF está vivendo “tempos degradantes”, Dino ressaltou que “a 15 dias de
uma eleição”, o Tribunal não poderia continuar se expondo a tal situação, com
ministros se enfrentando diante das câmeras, e aos olhos da sociedade.
Nos bastidores, um interlocutor do ministro
ponderou que ele não pretendia pedir vista, mas agiu dessa forma ao constatar
que não havia clima para o julgamento, e as discussões entre os ministros
tendiam a se agravar. Ele não confirmou, mas não se descarta que devolva os
autos à pauta somente após a eleição.
Além do nítido ambiente de tensão, também
ficou evidente a hegemonia do grupo de Gilmar, Moraes, Dino e Zanin na condução
da estratégia para adiar o julgamento, em defesa da análise conjunta dos dois
casos: a conduta supostamente ilícita de Moraes, e o pretenso abuso de
autoridade de Mendonça, na condução do caso Master. A intervenção de Dino
postergou o desfecho, mas tudo se encaminhava para uma situação de empate, que
poderia favorecer Moraes.
Em paralelo, com o prolongamento da crise
beneficiando seu principal adversário, Lula buscou uma postura mais incisiva ao
ser perguntado sobre a crise no STF em entrevista à TV Record, na noite dessa
terça-feira, logo após o julgamento. Pressionado pelos ataques de Flávio, que
tenta associá-lo a Moraes, Lula insistiu que a crise é um problema do
Judiciário, e que cabe ao presidente da Corte resolvê-la. “O Fachin tem a faca
e o queijo na mão” para julgar quem tem que ser julgado, para punir quem tem
que ser punido, para resgatar a credibilidade do Tribunal, afirmou. Lula ainda
voltou a defender a abertura completa do sigilo, acusando Mendonça de ter dado
publicidade apenas ao que era de seu interesse, e se comprometeu com uma
reforma do Judiciário se for reeleito, revendo critérios de escolha e tempo de
mandatos dos ministros do STF.
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