segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A direita ocupa os estados, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Fim da fragmentação concentra disputas estaduais e amplia o espaço de PL, PSD, PP e Republicanos

Número de partidos competitivos encolhe; em 2018, 13 legendas elegeram governadores; agora, 9 lideram apuração

Esta coluna foi fechada com a apuração das eleições em andamento, com base nos dados parciais do TSE das 20h50 (de Brasília) e nos resultados de pleitos anteriores. Os números indicam que a lógica da disputa presidencial, organizada em dois polos, desceu para os estados.

A medida mais simples é somar os votos válidos dos dois primeiros colocados em cada unidade da Federação. Na apuração parcial, a mediana dessa soma era de 89%. Foi de 76% em 2018 e de 81% em 2022. Em 12 estados os dois líderes concentravam 90% ou mais dos votos válidos; eram dois em 2018 e sete em 2022.

Quanto mais os votos se concentram em dois candidatos, maior a chance de alguém passar de 50%. Em 20 estados o líder tinha mais da metade dos votos válidos, e havia chances de a disputa terminar neste domingo (4), contra 13 em 2018 e 15 em 2022. Não é exatamente novidade, em 2014 a mediana era de 86%; em 2006, de 89%. A exceção foram justamente as duas últimas eleições, quando o colapso das siglas tradicionais pulverizou as disputas estaduais.

O número de partidos competitivos também encolheu. Em 2018, 13 legendas elegeram governadores; em 2022, 11. Agora, nove lideravam a apuração em algum estado, um a mais que os que elegeram governadores em 2002 e 2006. Os partidos de um governador só, que foram cinco em 2018, podiam ser três: Podemos, no Pará, MDB, em Goiás, e PSDB, em Alagoas, onde JHC tinha 50,6%, e Renan Filho, 49%.

Quem ocupa o espaço são os partidos de direita e centro-direita. PSD, PL, PP e Republicanos estavam à frente em 19 dos 27 estados; em 2022, lideravam em oito.

O PL, que elegeu dois governadores em 2022, garantiu Paraná, Santa Catarina, Roraima, Rondônia e o Rio Grande do Sul, onde Luciano Zucco tinha 58%. A surpresa foi o Rio de Janeiro: com 91% das seções, Douglas Ruas registrava 49,7%, à frente de Eduardo Paes, e deve haver segundo turno, como no Amazonas. Pode chegar a sete governos.

O Republicanos, também com dois eleitos em 2022, confirmou São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso. Governará os dois maiores colégios eleitorais do país. No segundo turno, disputará o Espírito Santo, onde Lorenzo Pazolini aparecia com 49,6%, e o Acre, mas perde o Tocantins, onde não está entre os dois primeiros.

Em 2020, esta colunista apontou que a capilaridade do partido nas eleições municipais sugeria crescimento orgânico; os resultados de 2026 reforçam aquele diagnóstico.

Se Flávio Bolsonaro for derrotado na disputa presidencial, o desempenho nos estados dará ao Republicanos uma posição privilegiada na disputa pela liderança da direita em 2030. Tarcísio de Freitas, reeleito governador em São Paulo, já é o preferido de muitos apoiadores desse campo que prefeririam não ver um candidato de sobrenome Bolsonaro na urna.

Mas a nacionalização das disputas estaduais é assimétrica. O PL, de Flávio Bolsonaro, converte a polarização nacional em governos. O PT, de Lula, pode no máximo repetir os quatro estados de 2022: reelegeu Rafael Fonteles no Piauí, lidera na Bahia e no Ceará, com mais de 80% das seções, e vai ao segundo turno no Rio Grande do Norte, com poucas chances de vitória.

A apuração não terminou, mas a direção é clara. Se os números se confirmarem, 2026 encerra o ciclo de fragmentação aberto em 2018 e devolve os estados a um sistema de poucos atores, agora com o centro de gravidade à direita.

*Professora na Escola de Economia de São Paulo (FGV-EESP) e pesquisadora do Cepesp. Doutora em ciência política pelo IESP-UERJ

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