segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Erros em sequência e onda bolsonarista emparedam Lula, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Ultrapassagem de Flávio e desempenho de seus aliados projetam dificuldades enormes para o presidente

PT sofre derrota nacional maiúscula e, mesmo que retenha o Planalto, viverá cenário de pressão contínua

A cavalgada dos bolsonaristas no primeiro turno das eleições gerais neste domingo (4) é um evento político de ampla repercussão. Pelo avanço das forças de Flávio Bolsonaro (PL) e por seus próprios erros, o presidente Lula (PT) vai para a segunda rodada emparedado.

Se havia o temor entre petistas de que um empate ou uma superioridade mais leve do filho de Jair Bolsonaro no primeiro turno tornaria o tira-teima difícil, a situação do presidente tornou-se dramática, ainda que não irreversível.

Em seu favor, há a possibilidade de que a migração dos nanicos à direita que desidrataram no dia do pleito tenha chegado ao limite. Mas é incerto de onde Lula poderá tirar votos, salvo intercorrências imprevisíveis. A aposta sugerida em sua primeira fala é a comparação de biografias, algo insondável.

O resultado é surpreendente quando se observa a curva das intenções de voto da campanha anódina, marcada pela contaminação do caso Banco Master no Judiciário —e não, como seria racional supor, na candidatura de Flávio, enrolado com Daniel Vorcaro.

Mas o movimento bolsonarista já se insinuava no ocaso da corrida, como o Datafolha da véspera indicava. Ele engoliu não só boa parte da esquerda, mas a própria direita mais moderada.

E Lula, acima de tudo, perdeu a liderança para si mesmo. Sua campanha foi pontuada por três defesas:

1 - Democracia. Lula aproveitou a balbúrdia bolsonarista do 8 de Janeiro para tomar a bandeira democrática para si. Deu certo por um tempo, mas a partir de meados de 2023 o petista só contava com a bancada de Alexandre de Moraes do Supremo. O preço foi conhecido neste ano.

2 - Soberania. Donald Trump deu ao presidente um presente com seu tarifaço e punições de 2025. Ele pôde assumir a defesa do interesse nacional, faturou em avaliação e ainda dobrou o americano. Embora não tenha havido um ataque frontal como o Planalto temia, a tática não colou eleitoralmente.

3 - Números frios. O lulismo reclama da falta de reconhecimento acerca de bons indicadores da economia, mas esqueceu do contexto. Se o desemprego está em baixa, basta andar por uma grande cidade para ver onde estão os postos de trabalho. A inflação pode estar sob controle, mas o endividamento de famílias tolheu qualquer sensação de bem-estar.

Talvez entorpecido pela segurança que a aliança com o Supremo lhe dava junto ao Congresso à direita, o governo passou quatro anos vendo o PL, o centrão e o PSD construírem máquinas eleitorais visando o controle de emendas parlamentares.

Lula ficou com palanques e bancadas potenciais fracos. Tudo isso trouxe uma capilaridade de discurso antipetista que nem mesmo o carisma do presidente teve como conter, mesmo com um arsenal de emergência com proibição de bets, fim da escala 6x1 e reajuste do Bolsa Família.

De seu lado, Flávio adotou o figurino teflon. Candidato com o maior passivo judicial na disputa, ele passou meses quase sem ter de se expor —a ausência do debate, uma opção também de Lula, só ajudou.

Quando os questionamentos vieram, era tarde, e a dissolução da realidade na vida digital facilitou sua vida: qualquer investigação da PF vira perseguição, dúvida sobre medalha para miliciano, detalhe.

Não é diferente do que ocorreu com o maior ícone do bolsonarismo, Trump, eleito apesar de uma condenação criminal. Para ficar no exemplo americano, Lula acabou encarnando o Joe Biden que todos os petistas menos deslumbrados temiam: um candidato gasto.

Agora, o político brasileiro mais importante do século 21 no país terá de encarar o risco de acabar a carreira em derrota. Ou uma vitória de Pirro, com a estrutura política do país dominada por adversários, para não falar nas eventuais pressões vindas dos EUA.

Já Flávio contará com o sentimento de virada, que muitas vezes define eleições. Isso irá atrair apoios antes inauditos. Ele nunca foi a escolha do condomínio da centro-direita sequestrado pela vanguarda bolsonarista, mas isso tenderá a mudar.

Se vencer ao fim, contudo, terá de conviver com um ecossistema de aliados com intenções bastante próprias, como o governador reeleito com folga em São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Um eventual triunfo será apenas o começo.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário