Folha de S. Paulo
Ultrapassagem de Flávio e desempenho de seus
aliados projetam dificuldades enormes para o presidente
PT sofre derrota nacional maiúscula e, mesmo
que retenha o Planalto, viverá cenário de pressão contínua
A cavalgada dos bolsonaristas no primeiro
turno das eleições
gerais neste domingo (4) é um evento político de ampla repercussão. Pelo avanço
das forças de Flávio
Bolsonaro (PL)
e por seus próprios erros, o presidente Lula
(PT)
vai para a
segunda rodada emparedado.
Se havia o temor entre petistas de que um
empate ou uma superioridade mais leve do filho de Jair Bolsonaro no primeiro
turno tornaria o tira-teima difícil, a situação do presidente tornou-se
dramática, ainda que não irreversível.
Em seu favor, há a possibilidade de que a migração dos nanicos à direita que desidrataram no dia do pleito tenha chegado ao limite. Mas é incerto de onde Lula poderá tirar votos, salvo intercorrências imprevisíveis. A aposta sugerida em sua primeira fala é a comparação de biografias, algo insondável.
O resultado é surpreendente quando se observa
a curva das intenções de voto da campanha anódina, marcada pela contaminação do
caso Banco Master
no Judiciário —e não, como seria racional supor, na candidatura de Flávio,
enrolado com Daniel
Vorcaro.
Mas o movimento bolsonarista já se insinuava
no ocaso da corrida, como o Datafolha da véspera indicava. Ele engoliu não só
boa parte da esquerda, mas a própria direita mais moderada.
E Lula, acima de tudo, perdeu a liderança
para si mesmo. Sua campanha foi pontuada por três defesas:
1 - Democracia. Lula aproveitou a
balbúrdia bolsonarista do 8 de Janeiro para tomar a bandeira
democrática para si. Deu certo por um tempo, mas a partir de meados de 2023 o
petista só contava com a bancada de Alexandre de
Moraes do Supremo. O preço foi conhecido neste ano.
2 - Soberania. Donald Trump deu ao presidente
um presente com seu tarifaço e punições de 2025. Ele pôde assumir a defesa do
interesse nacional, faturou em avaliação e ainda dobrou o americano. Embora não
tenha havido um ataque frontal como o Planalto temia, a tática não colou
eleitoralmente.
3 - Números frios. O lulismo reclama da falta
de reconhecimento acerca de bons indicadores da economia, mas esqueceu do
contexto. Se o desemprego está em baixa, basta andar por uma grande cidade para
ver onde estão os postos de trabalho. A inflação pode estar sob controle, mas o
endividamento de famílias tolheu
qualquer sensação de bem-estar.
Talvez entorpecido pela segurança que a
aliança com o Supremo lhe dava junto ao Congresso à direita, o governo passou
quatro anos vendo o PL, o centrão e o PSD construírem máquinas eleitorais
visando o controle de emendas parlamentares.
Lula ficou com palanques e bancadas potenciais
fracos. Tudo isso trouxe uma capilaridade de discurso antipetista que nem mesmo
o carisma do presidente teve como conter, mesmo com um arsenal de emergência
com proibição de bets, fim da escala 6x1 e reajuste do Bolsa Família.
De seu lado, Flávio adotou o figurino teflon.
Candidato com o maior
passivo judicial na disputa, ele passou meses quase sem ter de se
expor —a ausência do debate, uma opção também de Lula, só ajudou.
Quando os questionamentos vieram, era tarde,
e a dissolução da realidade na vida digital facilitou sua vida: qualquer
investigação da PF vira perseguição, dúvida sobre medalha
para miliciano, detalhe.
Não é diferente do que ocorreu com o maior
ícone do bolsonarismo, Trump, eleito apesar de uma condenação criminal. Para
ficar no exemplo americano, Lula acabou encarnando o
Joe Biden que todos os petistas menos deslumbrados temiam: um
candidato gasto.
Agora, o político brasileiro mais importante
do século 21 no país terá de encarar o risco de acabar a carreira em derrota.
Ou uma vitória de Pirro, com a estrutura política do país dominada por
adversários, para não falar nas eventuais pressões vindas dos EUA.
Já Flávio contará com o sentimento de virada,
que muitas vezes define eleições. Isso irá atrair apoios antes inauditos. Ele
nunca foi a escolha do condomínio da centro-direita sequestrado pela vanguarda
bolsonarista, mas isso tenderá a mudar.
Se vencer ao fim, contudo, terá de conviver
com um ecossistema de aliados com intenções bastante próprias, como o
governador reeleito com folga em São Paulo,
Tarcísio de
Freitas (Republicanos). Um eventual triunfo será apenas o começo.

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