Folha de S. Paulo
Fim da fragmentação concentra disputas
estaduais e amplia o espaço de PL, PSD, PP e Republicanos
Número de partidos competitivos encolhe; em
2018, 13 legendas elegeram governadores; agora, 9 lideram apuração
Esta coluna foi fechada com a apuração
das eleições em andamento, com base nos dados parciais do TSE das 20h50 (de
Brasília) e nos resultados de pleitos anteriores.
Os números indicam que a lógica da disputa presidencial, organizada em dois
polos, desceu para os estados.
A medida mais simples é somar os votos válidos dos dois primeiros colocados em cada unidade da Federação. Na apuração parcial, a mediana dessa soma era de 89%. Foi de 76% em 2018 e de 81% em 2022. Em 12 estados os dois líderes concentravam 90% ou mais dos votos válidos; eram dois em 2018 e sete em 2022.
Quanto mais os votos se concentram em dois
candidatos, maior a chance de alguém passar de 50%. Em 20 estados o líder tinha
mais da metade dos votos válidos, e havia chances de a disputa terminar neste
domingo (4), contra 13 em 2018 e 15 em 2022. Não é exatamente novidade, em 2014
a mediana era de 86%; em 2006, de 89%. A exceção foram justamente as duas
últimas eleições, quando o colapso das siglas tradicionais pulverizou as
disputas estaduais.
O número de partidos competitivos também
encolheu. Em 2018, 13 legendas elegeram governadores; em 2022, 11. Agora, nove
lideravam a apuração em algum estado, um a mais que os que elegeram
governadores em 2002 e 2006. Os partidos de um governador só, que foram cinco
em 2018, podiam ser três: Podemos, no Pará,
MDB, em Goiás, e PSDB, em Alagoas, onde JHC tinha 50,6%, e Renan Filho, 49%.
Quem ocupa o espaço são os partidos de
direita e centro-direita. PSD, PL, PP e Republicanos
estavam à frente em 19 dos 27 estados; em 2022, lideravam em oito.
O PL, que elegeu dois governadores em 2022,
garantiu Paraná, Santa Catarina, Roraima, Rondônia e o Rio Grande do Sul, onde Luciano Zucco
tinha 58%. A surpresa foi o Rio de Janeiro: com 91% das seções, Douglas
Ruas registrava 49,7%, à frente de Eduardo
Paes, e deve haver segundo turno, como no Amazonas. Pode chegar a sete
governos.
O Republicanos, também com dois eleitos em
2022, confirmou
São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso. Governará os dois maiores colégios
eleitorais do país. No segundo turno, disputará o Espírito Santo, onde Lorenzo
Pazolini aparecia com 49,6%, e o Acre, mas perde o Tocantins, onde não está
entre os dois primeiros.
Em 2020, esta colunista apontou que a
capilaridade do partido nas eleições municipais sugeria crescimento orgânico;
os resultados de 2026 reforçam aquele diagnóstico.
Se Flávio
Bolsonaro for derrotado na disputa presidencial, o desempenho nos estados
dará ao Republicanos uma posição privilegiada na disputa pela liderança da direita
em 2030. Tarcísio
de Freitas, reeleito governador em São Paulo, já é o preferido de muitos
apoiadores desse campo que prefeririam não ver um candidato de sobrenome
Bolsonaro na urna.
Mas a nacionalização das disputas estaduais é
assimétrica. O PL, de Flávio Bolsonaro, converte a polarização nacional em
governos. O PT, de Lula, pode no máximo repetir os quatro estados de 2022:
reelegeu Rafael Fonteles no Piauí, lidera na Bahia e no Ceará, com mais de 80%
das seções, e vai ao segundo turno no Rio Grande do Norte, com poucas chances
de vitória.
A apuração não terminou, mas a direção é
clara. Se os números se confirmarem, 2026 encerra o ciclo de fragmentação
aberto em 2018 e devolve os estados a um sistema de poucos atores, agora com o
centro de gravidade à direita.
*Professora na Escola de Economia de São
Paulo (FGV-EESP) e pesquisadora do Cepesp. Doutora em ciência política pelo
IESP-UERJ

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