Folha de S. Paulo
Perigo do autoritarismo ainda é subestimado
Minha gratidão a todos os que fazem a luta
gloriosa, sempre insatisfeitos, de coração nas mãos, com medo pela democracia
Tem já mais de uma década o debate entre
aqueles que alertam para o perigo de uma deriva
autoritária nas nossas democracias e quem considera que esse perigo está
sendo exagerado. A minha posição nesse debate é clara: acho que o perigo do
autoritarismo ainda é subestimado.
Uma coisa é o debate (interessante, mas em boa medida acadêmico) sobre se o novo autoritarismo pode ser comparado com o fascismo do século passado. Alguns puristas consideram que, enquanto não estiverem preenchidas todas as características do fascismo original, não se pode usar a palavra para a sua variante.
Trata-se de uma exigência impossível de
atingir: nem no fascismo original todas as suas versões foram idênticas. Mais
importante, porém, é entender: o que fariam os tiranos de cem anos atrás com as
possibilidades de hoje?
É aí que chegamos à conclusão de que não
estamos ainda suficientemente assustados. Os tiranos de cem anos atrás não
tinham armas nucleares. Hoje vivemos esperando que Donald Trump
e Vladimir
Putin não sejam tão loucos quanto aparentam ser.
Os tiranos de cem anos atrás não tinham uma
ferramenta de vigilância e controle tão completa quanto são as redes sociais e
a internet nos dias de hoje. E a verdade é que nada se consegue fazer
atualmente, incluindo lutar contra os autoritários, sem usar as redes sociais e
nos expormos aos seus donos, que são eles próprios autoritários ou aliados de
autoritários.
Os tiranos de cem anos atrás não dispunham
ainda da possibilidade de dominar a inteligência
artificial. Hoje veem essa possibilidade ao virar da esquina.
Restou-nos, enfim, quando mais nada dava
certo, esperar que os tiranos morressem de morte natural. Há uns anos, contudo,
um microfone apanhou uma conversa entre Putin e Xi Jinping
sobre a possibilidade de prolongar drasticamente a vida humana. Se lá chegarmos
podemos ter a certeza de que os primeiros beneficiários não vão ser os pobres
nem os cidadãos comuns, mas os
autoproclamados "homens fortes" (e, de fato, quase todos homens)
das oligarquias, da alta finança e do poder.
Finalmente, temos de encarar uma realidade:
os nossos autoritários estão bem mais unidos do que os tiranos de cem anos
atrás. Não interessa qual a ideologia, a nação ou o credo, a cola que os une é
a sua profunda e total corrupção.
De Trump a Putin, passando por Binyamin
Netanyahu e por todos os seus imitadores pelo mundo fora, com destaque para
a América
Latina, não há um que não esteja impregnado de um total despudor na hora da
roubalheira.
Mais ainda, essa obsessão comum leva-os a
coordenarem-se e apoiarem-se mutuamente. Por isso os democratas estão divididos
em muitas correntes —sociais-democratas, liberais, ecologistas, progressistas
vários— mas os autoritários fazem todos parte da mesma Internacional, mesmo que
ela não seja assumida.
Por isso a luta contra a Internacional
Autoritária é a luta das nossas vidas, em cada país onde ela se trava. Ela
obriga-nos a votar pelo mal menor, a sair para a rua com quem não concordamos e
a improvisar para resistir nas redes. Sempre insatisfeitos, de coração nas
mãos, com medo pela democracia.
Mas é uma luta gloriosa. A minha gratidão a
todos os que a fazem, aí também onde me leem.

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