sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Mundo capitulará diante do neofascismo? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Protestos na França beneficiam partido de Marine Le Pen

Centro político tem perdido espaço para legendas radicais

A onda de protestos na França tem dois beneficiários eleitorais: o ultradireitista Reunião Nacional, de Marine Le Pen e Jordan Bardella, e, em menor escala, o França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical. O grande perdedor é o centro político do qual Emmanuel Macron era o grande representante. As eleições presidenciais francesas ocorrem em abril e maio próximos.

Não é só na França que o centro passa por apuros. Na vizinha Alemanha, o extremista Alternative für Deutschland (AfD) vem obtendo formidáveis ganhos eleitorais em cima principalmente da democracia cristã, enquanto Die Linke, uma esquerda mais vocal, vem tirando cadeiras dos social-democratas e dos verdes. Em diferentes graus, o fenômeno se repete em vários outros países europeus e fora da Europa.

Nos EUA não surgiu um partido de ultradireita para roubar espaço dos moderados. Foi o próprio Partido Republicano que abraçou o radicalismo na forma do Maga trumpiano. Até no Brasil o sólido centrão, que é mais argentário do que propriamente centrista, embora siga forte, perdeu alguns assentos parlamentares para candidatos bolsonaristas mais retoricamente tonitruantes.

O mundo soçobrará diante do neofascismo? Prevejo anos ruins pela frente, mas não acho que reviveremos os dias de Hitler e Mussolini. O remédio que a Europa vinha usando para lidar com a direita radical, que era isolá-la —o "cordon sanitaire"—, está deixando de funcionar. É grande a chance de Le Pen vencer no ano que vem. A segunda linha de defesa, penso, será o próprio exercício do poder. Da mesma forma que o centro se desgastou governando, a direita radical terá de lidar com as frustrações a que submeterá seus eleitores, com a agravante de que ela vende "soluções" tão ilusórias que a conta chegará a galope. É só ver o naufrágio da popularidade de Trump nos EUA.

Desde que os extremistas não destruam inteiramente o sistema de freios e contrapesos da democracia, o que não é tão fácil, acabarão se enforcando em suas próprias ideias.

Nenhum comentário:

Postar um comentário