segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Eleição de 2026 contará história de desastre político-institucional, por Carlos Melo

O Globo

Há um potencial de confusão que virá do Congresso. Com a nova composição do Senado, a crise com o STF está contratada

Cada eleição conta uma história. A de 2026 contará a história de um desastre político-institucional. Seu legado pesará sobre a vida nacional. A esperança não compareceu ao debate, e o desejo de mudança se escorou na antipolítica. Atarantada, a opinião pública fracassou em influenciar políticos a olhar o horizonte e indicar as saídas do labirinto. Com a crise, os três Poderes estão prostrados. Não bastasse isso, o sagrado e as paixões religiosas foram arrastados para o conflito.

Estratégia de comunicação dos partidos, uma vitória no primeiro turno era improvável. A disputa ficará mais tensa e agressiva: o segundo turno não se presta à construção de unidade, mas à guerra de rejeições. Vota-se contra. Mais que fazer crer em Deus, o objetivo é aguçar o medo do diabo. Independentemente de quem será eleito, dividido o país entrou na eleição e dividido permanecerá.

As relações de Daniel Vorcaro e o escândalo do Banco Master falam por si. Seu efeito mais nocivo foi o abraço de afogado do banqueiro nas instituições do país.

Pior que esperar pouco do Congresso é constatar o potencial da confusão que virá dali. Com a nova composição do Senado, a crise com o STF está contratada. O fisiologismo apequenou o Legislativo, a imoderação e a imaturidade continuarão a caracterizar sua cenografia, tornando-o incapaz de mediar a crise, pois é parte dela. Do Centrão, não virão senão mais exigências de espaços de poder e recursos. Em aliança com a oposição — qualquer que seja —, suas lideranças seguirão a buscar os próprios interesses.

Seja quem for o presidente, ele terá dificuldades para chegar ao equilíbrio fiscal — pelo menos, em termos ortodoxos. Cortar dos pobres traz custos políticos junto a quem decide eleições. E o corporativismo (público e privado) atuará contra quem afete seus privilégios. De impasses e sobressaltos viverá o governo, a não ser que entregue, contrariado ou não, seu controle aos magnatas do Parlamento — o que tampouco garante o ajuste.

Na Suprema Corte, a disputa eleitoral invadiu gabinetes, turmas e plenário. Conexões entre ministros, candidatos e empresários fragilizam o tribunal como freio e contrapeso do sistema. Sem liderança, não haverá acordo entre ministros. A anistia a condenados pelo 8 de Janeiro será o aditivo explosivo do conflito. Depois, CPIs e processos de impeachment à mancheia. Reformar o STF é fundamental, mas o ruim pode piorar.

Um princípio de conflito religioso se espalhou pela atmosfera. Pequena, mas atuante, parcela do neopentecostalismo rejeita a laicidade estatal e revela pretensão hegemônica sobre outras denominações. A desconfiança inter-religiosa está no ar. A liberdade de culto é inegociável, mas a instrumentalização da fé e o oportunismo eleitoral já são fatos consumados.

No front internacional, com ajuda interna, interesses externos ficaram explícitos. Diante da complexidade geopolítica, o simplismo faz o país e o mundo retroagirem aos anos 1950. Em um clima de Guerra Fria ressuscitada, um novo tipo de imperialismo se expande. Navegar nesse mar é preciso. Mas não será renunciando à soberania que se atravessará a tempestade. A distensão (ou não) parece, porém, depender mais da eleição de meio de mandato, nos Estados Unidos, que da disputa no Brasil.

Na essência, as propostas agora colocadas se opõem radicalmente. Mas se equivalem na dificuldade de diálogo para além de suas bolhas e na incapacidade de elaborar projetos que incidam sobre a realidade nacional, no contexto mundial. Construir muros e derrubar pontes é buscar a vertigem e alimentar os minotauros do labirinto. Ao final, seja quem for o vencedor no segundo turno, o desastre de 2026 requer esforço de concertação. Isso só será possível com democracia.

*Carlos Melo, cientista político, é professor e coordenador do Observatório da Política do Insper

 

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