domingo, 18 de outubro de 2026

Fascismo, crise climática e desinformação: os sinais de um mundo em colapso, por Martha Medeiros

O Globo

'Sobreviverá quem estiver no lucro de ter vivido cercado por livros, informação e consciência do momento presente'

O livro é “A paixão pela mentira — A família e as tiranias”, do psicanalista Paulo Schiller. Lançado em 2025, discute as angústias e traumas infantis que resultam no adulto que nos tornamos. Como o título e o subtítulo indicam, o livro denuncia as narrativas estrambólicas que sustentam o fascismo desde sua origem, no âmbito familiar. A leitura é atrativa a leitores de qualquer espectro político, mas abri o livro justo neste frenético outubro de 2026, e ele me ajudou a entender a razão de estarmos tão assustados com a possibilidade de sermos governados por uma família que se encaixa exemplarmente na análise profissional e isenta do autor.

Faltavam apenas 50 páginas para eu terminar a leitura quando minha filha mais nova saiu do quarto determinada a me convencer a assistir a “Digger”, em cartaz apenas nos cinemas. Sério? Logo esse filme que, dizem, é um fracasso de bilheteria? “Sério, mãe”. Você escuta isso de uma garota que nasceu de seu ventre e, se tiver juízo, vai conferir a razão de ela ter deixado o celular de lado para conversar com você sobre uma obra de arte. Dois nomes da ficha técnica bastariam para credibilizar o filme: Tom Cruise está assombroso, candidatíssimo ao Oscar de 2027, e o diretor Alejandro Iñárritu, mais uma vez, não passa despercebido pela telona. São motivo suficiente para sair de casa.

“Digger” é uma experiência cinematográfica. Reúne comédia, tragédia, farsa, cinema, teatro, realidade, fantasia, tecnologia, tudo sacudido na mesma coqueteleira. Extravagante, aborda nossa dependência do petróleo, “o leite materno da Terra” (como define um personagem), e as insanidades feitas em seu nome. Ao mesmo tempo, dá palco ao aquecimento global, que acabará por afogar a ânsia inconsequente pelo poder. Batemos no teto? Chegamos ao fim da linha? Irá tudo por água abaixo?

E aí entra a vida. Entre a leitura do livro e a ida ao cinema, fui surpreendida pelas imagens da lama invadindo o bairro de Las Condes, em Santiago do Chile, cidade em que morei. Lembro bem do arroio que corta suas vias. Foi chocante ver o transbordamento arrastando carros, os transeuntes em pânico. Cortesia da chuva intensa e do derretimento da Cordilheira dos Andes, da mesma forma que se deu no Himalaia, no Nepal, poucos meses atrás, assim como tem acontecido com geleiras e calotas polares — afundaremos todos, é isso mesmo?

Sobreviverá quem estiver no lucro. E não falo de dinheiro, e sim do lucro de ter vivido bastante, cercado por livros, informação e consciência do momento presente.

Agora imagina quem não lê, quem não vai ao cinema, nem respeita a ciência e o conhecimento. Desfocado da realidade, só lhe resta acreditar em miragens.

 

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