domingo, 18 de outubro de 2026

Vale tudo? Por Merval Pereira

O Globo

Numa eleição presidencial que pode definir o futuro do país nas próximas décadas, não vemos os candidatos apresentarem programas compatíveis com nossas necessidades urgentes

O país vive nossa mais intensa e grave crise moral em meio a uma acirrada disputa eleitoral que se desenvolve sem que o ponto crucial de nossa tragédia social como Nação seja discutido, nosso descuido da mais essencial das nossas necessidades, a ética nas relações da sociedade. A desigualdade social, talvez a nossa maior chaga, é considerada por parte relevante da nossa sociedade uma questão menor, que se resolve através da meritocracia. Usei e abusei dos pronomes possessivos “nossa” e “nosso” porque é como sociedade que deveríamos enfrentar esse nosso problema.

No dia em que todos nos convencermos de que uma sociedade egoísta como a nossa não produzirá um país verdadeiramente desenvolvido e progressista, estaremos no caminho certo para reformar nossa sociedade. Pobre tem em todo lugar, dizem. Concordo, mas a razão da existência de uma classe desamparada é que está em discussão. Como falar em mérito se não é dada a mesma educação desde a primeira infância para todos?

Acostumamo-nos a nos satisfazer com remendos sociais compensatórios, como se fossem suficientes para resolver os problemas dos que não tiveram chances de se desenvolver física e mentalmente durante a vida. Os programas sociais, implantados há mais de 30 anos pelo governo de Fernando Henrique Cardoso e incrementados como marca principal das gestões petistas, resolvem o básico, mas se tornarão permanentes e eternos caso não façamos mudanças estruturantes que permitam a inclusão social real.

Numa eleição presidencial que pode definir o futuro do país nas próximas décadas, não vemos os candidatos apresentarem programas compatíveis com nossas necessidades urgentes, o país se divide, multidões saem às ruas de um lado e de outro para marcar territórios, não para defender projetos ou planos de desenvolvimento. Será que vale tudo para ganhar uma eleição? Não é à toa que os dois candidatos em disputa têm rejeição altíssima e semelhante. Quando se vence com métodos ilegais, ou se avança sobre a legalidade para obter vantagens, a vitória não será honrosa, mas esta afirmação parece deslocada no tempo. Honra é uma qualidade que já não tem grande valia no nosso mercado político, substituída entre nós, brasileiros, pela vitória a qualquer custo.

A tese de que “os fins justificam os meios” é antiga. Pode ter sua origem no poeta romano Ovídio, que disse : “o sucesso valida o ato”, ou a Maquiavel que em O Príncipe, no século XVI, defendeu a ideia de que o governante, para defender seus objetivos, possa agir de forma fria e objetiva. O sociólogo alemão Max Weber colocou a questão da ética em dois aspectos: a ética da Convicção e a da Responsabilidade. A primeira baseia-se em princípios absolutos, sem se importar com os resultados práticos da ação. Já a da Responsabilidade leva em conta as consequências previsíveis das próprias atitudes no mundo real.

O escritor e advogado José Roberto Castro Neves, membro da Academia Brasileira de Letras, está lançando um livro que se torna fundamental neste momento que vivemos no Brasil: “A pergunta difícil: por que precisamos falar de ética”, da Editora Nova Fronteira. Nele, os temas ligados à ética são analisados a partir da história e dos grandes autores que tratam do assunto, desde os primórdios da civilização ao dias de hoje. O tema será também abordado sob diversos ângulos no segundo seminário “Ética imortal”, organizado pela Instituto Não Aceito Corrupção, dirigido pelo promotor de Justiça de São Paulo Roberto Livianu em parceria com a Academia Brasileira de Letras.

O “vale tudo” em que se transformou nossa campanha presidencial obriga a que se debata a questão da ética, embora nossos Supremos ministros não aceitem a proposta do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, de elaborar um código de ética para orientar o colegiado. Quando os “Supremos” temem compromissos éticos, e trabalham com partidarismo, é sinal de que a sociedade está doente.

 

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