O Globo
'Sobreviverá quem estiver no lucro de ter
vivido cercado por livros, informação e consciência do momento presente'
O livro é “A paixão pela mentira — A família e as tiranias”, do psicanalista Paulo Schiller. Lançado em 2025, discute as angústias e traumas infantis que resultam no adulto que nos tornamos. Como o título e o subtítulo indicam, o livro denuncia as narrativas estrambólicas que sustentam o fascismo desde sua origem, no âmbito familiar. A leitura é atrativa a leitores de qualquer espectro político, mas abri o livro justo neste frenético outubro de 2026, e ele me ajudou a entender a razão de estarmos tão assustados com a possibilidade de sermos governados por uma família que se encaixa exemplarmente na análise profissional e isenta do autor.
Faltavam apenas 50 páginas para eu terminar a
leitura quando minha filha mais nova saiu do quarto determinada a me convencer
a assistir a “Digger”, em cartaz apenas nos cinemas. Sério? Logo esse filme
que, dizem, é um fracasso de bilheteria? “Sério, mãe”. Você escuta isso de uma
garota que nasceu de seu ventre e, se tiver juízo, vai conferir a razão de ela
ter deixado o celular de lado para conversar com você sobre uma obra de arte.
Dois nomes da ficha técnica bastariam para credibilizar o filme: Tom Cruise
está assombroso, candidatíssimo ao Oscar de 2027, e o diretor Alejandro
Iñárritu, mais uma vez, não passa despercebido pela telona. São motivo
suficiente para sair de casa.
“Digger” é uma experiência cinematográfica.
Reúne comédia, tragédia, farsa, cinema, teatro, realidade, fantasia,
tecnologia, tudo sacudido na mesma coqueteleira. Extravagante, aborda nossa
dependência do petróleo, “o leite materno da Terra” (como define um
personagem), e as insanidades feitas em seu nome. Ao mesmo tempo, dá palco ao
aquecimento global, que acabará por afogar a ânsia inconsequente pelo poder.
Batemos no teto? Chegamos ao fim da linha? Irá tudo por água abaixo?
E aí entra a vida. Entre a leitura do livro e
a ida ao cinema, fui surpreendida pelas imagens da lama invadindo o bairro de
Las Condes, em Santiago do Chile, cidade em que morei. Lembro bem do arroio que
corta suas vias. Foi chocante ver o transbordamento arrastando carros, os
transeuntes em pânico. Cortesia da chuva intensa e do derretimento da
Cordilheira dos Andes, da mesma forma que se deu no Himalaia, no Nepal, poucos
meses atrás, assim como tem acontecido com geleiras e calotas polares —
afundaremos todos, é isso mesmo?
Sobreviverá quem estiver no lucro. E não falo
de dinheiro, e sim do lucro de ter vivido bastante, cercado por livros,
informação e consciência do momento presente.
Agora imagina quem não lê, quem não vai ao
cinema, nem respeita a ciência e o conhecimento. Desfocado da realidade, só lhe
resta acreditar em miragens.

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