Folha de S. Paulo
Protestos na França beneficiam partido de
Marine Le Pen
Centro político tem perdido espaço para
legendas radicais
A onda de
protestos na França
tem dois beneficiários eleitorais: o ultradireitista Reunião Nacional, de Marine Le Pen
e Jordan
Bardella, e, em menor escala, o França Insubmissa, de Jean-Luc
Mélenchon, da esquerda radical. O grande perdedor é o centro
político do qual Emmanuel
Macron era o grande representante. As eleições presidenciais
francesas ocorrem em abril e maio próximos.
Não é só na França que o centro passa por apuros. Na vizinha Alemanha, o extremista Alternative für Deutschland (AfD) vem obtendo formidáveis ganhos eleitorais em cima principalmente da democracia cristã, enquanto Die Linke, uma esquerda mais vocal, vem tirando cadeiras dos social-democratas e dos verdes. Em diferentes graus, o fenômeno se repete em vários outros países europeus e fora da Europa.
Nos EUA não surgiu um partido de ultradireita
para roubar espaço dos moderados. Foi o próprio Partido Republicano que abraçou
o radicalismo na forma do Maga
trumpiano. Até no Brasil o sólido centrão, que é mais argentário do
que propriamente centrista, embora siga forte, perdeu alguns assentos
parlamentares para candidatos bolsonaristas mais retoricamente tonitruantes.
O mundo soçobrará diante do neofascismo?
Prevejo anos ruins pela frente, mas não acho que reviveremos os dias de Hitler
e Mussolini. O remédio que a Europa vinha usando para lidar com a direita
radical, que era isolá-la —o "cordon sanitaire"—, está deixando de
funcionar. É grande a chance de Le Pen vencer no ano que vem. A segunda linha
de defesa, penso, será o próprio exercício do poder. Da mesma forma que o
centro se desgastou governando, a direita radical terá de lidar com as
frustrações a que submeterá seus eleitores, com a agravante de que ela vende
"soluções" tão ilusórias que a conta chegará a galope. É só ver o naufrágio
da popularidade de Trump nos EUA.
Desde que os extremistas não destruam inteiramente o sistema de freios e contrapesos da democracia, o que não é tão fácil, acabarão se enforcando em suas próprias ideias.

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