O Globo
Deputado dá ideia de que só é possível vencer
eleições com centralização, obediência e uma moral flexível
A surpreendente vitória de Lula, revertendo a derrota no primeiro turno, tem sido atribuída à estratégia digital de André Janones. Mas uma análise do canal de WhatsApp “Exército do Lula” sugere que a centralização da campanha pode ter limitado sua eficácia e, sobretudo, deixado um legado preocupante para a política brasileira.
Janones conseguiu um feito de expressão
mundial: reuniu mais de 10 milhões de pessoas (6% de todos os eleitores!) num
canal de WhatsApp, a partir do qual coordenou uma campanha de atuação nas redes
sociais — principalmente no Instagram. A estratégia é um desdobramento de um
plano que ele havia parcialmente executado em 2022 e que analisou no livro
“Janonismo cultural” (Civilização Brasileira, 2023). No livro, conta que em
2022 tentou copiar a estratégia dual da campanha de Jair
Bolsonaro:
— Jair Bolsonaro tem um grupo com mais de 3
milhões de membros no Telegram. E a diferença entre fazer parte dessa
comunidade e segui-lo no Facebook é brutal. Quem faz parte de um grupo como
esse está alistado para uma guerra. É um fanático. Vai espalhar fake news todos
os dias, horas, minutos e segundos.
Em 2022, Janones montou o “André Janones
Telegram” e em 2026 o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, com o propósito de
coordenar a ação de militantes para amplificar mensagens, segmentar conteúdos
(para diferentes plataformas e diferentes tipos de público) e controlar a
atenção — atraindo o foco do público para temas da campanha ou o desviando para
longe dos ataques do campo adversário.
O exército de Janones conseguiu engajar quem
buscava contribuir com a campanha, porém amplificou o erro de juízo que
considera a centralização mais eficaz que a descentralização na comunicação
digital. No livro, ele apresenta assim a ideia:
— A centralização funciona como uma teia em
que um ponto central distribui uma orientação única, para que seja repassada
até as extremidades. Analisando o primeiro turno [de 2022], percebi que cada
perfil [que apoiava Lula] publicava uma coisa diferente. Um falava da
importância do Samu, outro do Bolsa Família,
um terceiro do Luz Para Todos. Com tanta dispersão, nada ganhava relevância
para despertar o interesse do algoritmo.
Janones identificou corretamente o problema
da dispersão temática, mas, ao tentar resolvê-lo, acabou centralizando também a
escolha das abordagens que deveriam circular.
Na comunicação digital, a descentralização é
mais eficaz porque, com ela, múltiplos emissores experimentam simultaneamente
abordagens diferentes para difundir a mesma mensagem: uns fazem memes, outros
argumentos curtos em vídeo, outros análises mais detalhadas. Essas diferentes
abordagens são lançadas e testadas nas redes sociais e, por tentativa e erro,
as mais eficazes são premiadas com viralização. A militância então identifica a
abordagem que “pegou” e pode fazer um esforço militante de compartilhamento
adicional daquilo que já funciona bem. É esse mecanismo natural de teste de
mensagem por tentativa e erro que Pablo
Marçal estimulou com os campeonatos de cortes nas eleições de 2024.
A estratégia que Janones adotou no “Exército
do Lula” substituiu o teste distribuído em rede por uma escolha inteiramente
centralizada, bem menos eficaz. Na campanha, era Janones quem decidia que
abordagem de uma determinada mensagem era distribuída. O resultado foi uma
enorme concentração em vídeos da conta oficial de Lula e da própria conta de
Janones. Dos 228 links do Instagram compartilhados no canal, 81 foram da conta
de Janones, 45 da conta de Lula e 17 da conta do “Exército do Lula”.
Janones perdeu a oportunidade de incentivar
que os milhões de inscritos do canal de WhatsApp compartilhassem vídeos que
haviam passado pelo teste de tentativa e erro e obtido performances
excepcionais no Instagram, como o de Ana Paula Renault voltado a indecisos (29
milhões de visualizações) ou o da série “Revelando”, com Wagner
Moura (23 milhões de visualizações).
Ele tratou seus seguidores como
retransmissores de decisões centralizadas, e não como indivíduos capazes de
experimentar, selecionar e produzir conteúdos. A linguagem militar deixou de
ser uma analogia acidental. Dezessete por cento de todas as mensagens no canal
empregam vocabulário militar que incentiva a obediência irrefletida: soldados,
tropa, batalha, território invadido e ocupado, desertores. Apenas 2% das
mensagens falam de políticas públicas. Janones também incentivou a difusão de
insinuações não comprovadas, como a de que Flávio tinha vínculos com o Comando
Vermelho.
A derrota de Lula no primeiro turno despertou
um enorme esforço militante para impedir a volta do bolsonarismo. Janones
recolheu essa energia difusa e a canalizou numa estrutura que conseguiu
mobilizar milhões de pessoas, mas limitou sua autonomia e sua capacidade de
experimentação, estimulando uma cultura de obediência sem limites morais
claros. O legado de Janones é a ilusão de que, na política contemporânea, só é
possível vencer eleições com centralização, obediência e uma moral flexível.

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