sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O perigoso legado de Janones, por Pablo Ortellado

O Globo

Deputado dá ideia de que só é possível vencer eleições com centralização, obediência e uma moral flexível

A surpreendente vitória de Lula, revertendo a derrota no primeiro turno, tem sido atribuída à estratégia digital de André Janones. Mas uma análise do canal de WhatsApp “Exército do Lula” sugere que a centralização da campanha pode ter limitado sua eficácia e, sobretudo, deixado um legado preocupante para a política brasileira.

Janones conseguiu um feito de expressão mundial: reuniu mais de 10 milhões de pessoas (6% de todos os eleitores!) num canal de WhatsApp, a partir do qual coordenou uma campanha de atuação nas redes sociais — principalmente no Instagram. A estratégia é um desdobramento de um plano que ele havia parcialmente executado em 2022 e que analisou no livro “Janonismo cultural” (Civilização Brasileira, 2023). No livro, conta que em 2022 tentou copiar a estratégia dual da campanha de Jair Bolsonaro:

— Jair Bolsonaro tem um grupo com mais de 3 milhões de membros no Telegram. E a diferença entre fazer parte dessa comunidade e segui-lo no Facebook é brutal. Quem faz parte de um grupo como esse está alistado para uma guerra. É um fanático. Vai espalhar fake news todos os dias, horas, minutos e segundos.

Em 2022, Janones montou o “André Janones Telegram” e em 2026 o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, com o propósito de coordenar a ação de militantes para amplificar mensagens, segmentar conteúdos (para diferentes plataformas e diferentes tipos de público) e controlar a atenção — atraindo o foco do público para temas da campanha ou o desviando para longe dos ataques do campo adversário.

O exército de Janones conseguiu engajar quem buscava contribuir com a campanha, porém amplificou o erro de juízo que considera a centralização mais eficaz que a descentralização na comunicação digital. No livro, ele apresenta assim a ideia:

— A centralização funciona como uma teia em que um ponto central distribui uma orientação única, para que seja repassada até as extremidades. Analisando o primeiro turno [de 2022], percebi que cada perfil [que apoiava Lula] publicava uma coisa diferente. Um falava da importância do Samu, outro do Bolsa Família, um terceiro do Luz Para Todos. Com tanta dispersão, nada ganhava relevância para despertar o interesse do algoritmo.

Janones identificou corretamente o problema da dispersão temática, mas, ao tentar resolvê-lo, acabou centralizando também a escolha das abordagens que deveriam circular.

Na comunicação digital, a descentralização é mais eficaz porque, com ela, múltiplos emissores experimentam simultaneamente abordagens diferentes para difundir a mesma mensagem: uns fazem memes, outros argumentos curtos em vídeo, outros análises mais detalhadas. Essas diferentes abordagens são lançadas e testadas nas redes sociais e, por tentativa e erro, as mais eficazes são premiadas com viralização. A militância então identifica a abordagem que “pegou” e pode fazer um esforço militante de compartilhamento adicional daquilo que já funciona bem. É esse mecanismo natural de teste de mensagem por tentativa e erro que Pablo Marçal estimulou com os campeonatos de cortes nas eleições de 2024.

A estratégia que Janones adotou no “Exército do Lula” substituiu o teste distribuído em rede por uma escolha inteiramente centralizada, bem menos eficaz. Na campanha, era Janones quem decidia que abordagem de uma determinada mensagem era distribuída. O resultado foi uma enorme concentração em vídeos da conta oficial de Lula e da própria conta de Janones. Dos 228 links do Instagram compartilhados no canal, 81 foram da conta de Janones, 45 da conta de Lula e 17 da conta do “Exército do Lula”.

Janones perdeu a oportunidade de incentivar que os milhões de inscritos do canal de WhatsApp compartilhassem vídeos que haviam passado pelo teste de tentativa e erro e obtido performances excepcionais no Instagram, como o de Ana Paula Renault voltado a indecisos (29 milhões de visualizações) ou o da série “Revelando”, com Wagner Moura (23 milhões de visualizações).

Ele tratou seus seguidores como retransmissores de decisões centralizadas, e não como indivíduos capazes de experimentar, selecionar e produzir conteúdos. A linguagem militar deixou de ser uma analogia acidental. Dezessete por cento de todas as mensagens no canal empregam vocabulário militar que incentiva a obediência irrefletida: soldados, tropa, batalha, território invadido e ocupado, desertores. Apenas 2% das mensagens falam de políticas públicas. Janones também incentivou a difusão de insinuações não comprovadas, como a de que Flávio tinha vínculos com o Comando Vermelho.

A derrota de Lula no primeiro turno despertou um enorme esforço militante para impedir a volta do bolsonarismo. Janones recolheu essa energia difusa e a canalizou numa estrutura que conseguiu mobilizar milhões de pessoas, mas limitou sua autonomia e sua capacidade de experimentação, estimulando uma cultura de obediência sem limites morais claros. O legado de Janones é a ilusão de que, na política contemporânea, só é possível vencer eleições com centralização, obediência e uma moral flexível.

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