Democracia brasileira demonstra vigor
Por O Globo
Brasileiros irão pacificamente às urnas votar
para presidente pela décima vez consecutiva
Algo de revigorante acontecerá hoje para a democracia brasileira: enquanto os candidatos e coligações que disputam votos se dilaceram, muitas vezes com ataques de baixo nível, os eleitores demonstram maturidade. O que se verá hoje nas seções eleitorais não pode ser confundido com apatia. É um eleitorado pacífico, ordeiramente em fila para fazer sua escolha. O comportamento estridente da classe política contrasta com a maturidade dos brasileiros, demonstração inequívoca da força deste que é o período democrático mais longevo do país. São dez eleições presidenciais consecutivas — e a democracia resiste.
Os brasileiros seguem confiantes na solidez
das instituições e na força do voto para promover as mudanças necessárias ao
país. Ao escolher seus candidatos, todos sabem que definirão os rumos do Brasil
pelos próximos quatro anos. Os eleitos segundo regras acatadas por todos serão
os protagonistas nos Executivos estaduais e federal, nas Assembleias
Legislativas e no Congresso. Como mostram os números mais recentes, o registro
de candidaturas neste ano caiu em relação ao último pleito — 20.988, ante
29.262 há quatro anos. Em 2022, houve 20,7 candidatos por vaga de deputado
federal e 16 por vaga de estadual. Neste ano, as proporções caíram para 15 e
11. A queda foi provocada por mudanças positivas na legislação, que proibiram
coligações em eleições proporcionais, têm reduzido o número de partidos e
incentivado a formação de federações.
É preciso que cada um saiba avaliar, de
acordo com sua consciência, quem dentre os candidatos merece ser mantido nos
cargos ou trocado, quem apresentou um histórico político bom ou quem entre os
novatos parece promissor. O voto não pode ser transferido por procuração. É
prerrogativa exclusiva e solitária de cada eleitor. Deve ser exercido com
responsabilidade, seriedade, confiança e, acima de tudo, esperança.
Longe dos olhos de familiares, amigos, chefes
ou líderes religiosos, cada um de nós poderá exercer a liberdade de escolher
quem lhe parecer mais apto para os cargos de deputado estadual, governador,
deputado federal, senador (duas vagas) e presidente da República. Se houver
segundo turno para governador ou presidente, a votação será realizada no
próximo dia 25. Ao fim, o Brasil terá completado 37 anos ininterruptos de
eleições livres.
A quantidade de brasileiros aptos a votar
nunca foi tão grande. Ao todo, são 158,7 milhões, 2,3 milhões a mais que em
2022. O enorme volume de eleitores faz do Brasil a quarta maior democracia do
mundo e impõe desafios logísticos. Felizmente, nos quesitos organização,
tecnologia e confiabilidade, o trabalho do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e
dos diversos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) é uma referência no mundo
todo. Nas semanas que antecederam o pleito, mais de 560 mil urnas eletrônicas
foram distribuídas pelas 27 unidades da Federação. Os quatro modelos foram
amplamente testados e lacrados.
Diferentemente do que aconteceu em 2022,
ninguém duvida que os resultados das urnas serão respeitados — isso é de
impressionar, num país que vive um escândalo financeiro que atinge políticos de
todos os lados do espectro partidário, assim como ministros do Supremo. Naquele
ano, acampamentos diante de quartéis militares foram mobilizados para uma
tentativa de golpe de Estado que felizmente foi debelada. Os culpados foram julgados,
hoje cumprem suas penas, e a democracia foi preservada.
Naquela ocasião, o Judiciário cumpriu o papel
que lhe é reservado pela Constituição. Hoje, infelizmente, tem ultrapassado
essa fronteira com diversas decisões questionáveis, como as que levaram a TV
Globo a cancelar o último debate entre os candidatos previsto para a última
quinta-feira. Espera-se que essas derrapagens sejam passageiras e que os
magistrados saibam corrigir seus erros quando os recursos forem julgados. Será
importante para as eleições futuras.
Embora seja uma lástima que a mais alta Corte
do país tenha deixado chegar o dia da eleição sem promover o necessário exame
dos atos de seus magistrados, tal fato não incendiou nem incendiará os
eleitores. Porque eles sabem que esse exame foi apenas adiado e não tardará.
Como em muitas outras democracias, existe por
aqui a percepção de que a classe política falha ao entregar as promessas de
campanha e, uma vez no poder, envolve-se em mais escândalos do que seria
aceitável. Pois hoje é o dia de lembrar que ninguém chega aos palácios e
centros de poder apenas porque quer — está lá graças ao voto dos brasileiros.
Apesar de a campanha ter sido marcada por um debate de ideias muitas vezes indigente, o eleitor ainda tem a oportunidade de fazer um exercício de reflexão. Qual o histórico dos candidatos que se apresentam à reeleição e dos que buscam o cargo pela primeira vez? Qual a viabilidade de suas propostas? A imprensa tem cumprido seu papel. Não apenas de informar a sociedade, buscando revelar todo tipo de erro ou ilegalidade, mas também analisando decisões acertadas. Agora chegou a hora de cada um exercer seu direito de votar e cumprir o dever de participar da política. A voz das urnas deve ser ouvida.
Eleição presidencial acirrada tem a ganhar
com 2º turno
Por Folha de S. Paulo
No Datafolha, Lula tem 45%, e Flávio, 42% dos
votos válidos, em empate técnico
Confronto de ideias foi prejudicado pela
ausência de debates, escândalo do Banco Master, crise no Supremo e medidas
eleitoreiras
Na véspera da abertura das urnas, o Datafolha
indica que a acirrada disputa presidencial, liderada por Luiz Inácio Lula
da Silva (PT)
e Flávio
Bolsonaro (PL),
será provavelmente definida em segundo turno, dentro de quatro semanas.
Cabe a ressalva de que a confirmação de tal
cenário está sujeita a migrações de voto de última hora e, não menos
importante, à taxa de abstenção dos eleitores, crescente nos últimos anos. O
que se pode afirmar com certeza é que a eleição terá a ganhar com mais uma
rodada da corrida entre os principais candidatos.
Lula tem 42% das intenções totais de voto,
ante 40% de Flávio. Excluídos sufrágios nulos e em branco, como na contagem
oficial, o placar é de
45% a 42%, o que caracteriza empate, na margem de erro, sem que
ninguém consiga a maioria das preferências.
Ambos desrespeitaram o eleitorado ao recusar
a participação em debates até aqui, subordinando o confronto aberto de ideias,
obrigatório na democracia, a suas estratégias e conveniências.
O episódio
mais recente foi especialmente grave. A decisão do petista de faltar
também ao derradeiro debate antes do primeiro turno, promovido pela TV Globo,
ganhou o suporte de aliados de ocasião em cortes superiores.
A ministra Estela Aranha, por ele indicada ao
TSE,
proibiu a emissora de exibir a cadeira vazia reservada ao presidente; no
Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, sob pretexto descabido, contrariou
entendimentos do TSE e de sua colega Cármen Lúcia e forçou a participação de
Renan Santos (Missão) no evento, cancelado após a desistência de Flávio com a
mudança de última hora nas regras do jogo.
A discussão de programas de governo, ademais,
foi ofuscada pelo escândalo do Banco Master
e pela crise inaudita do STF, dois
fenômenos associados que afetaram os postulantes ao Planalto.
Flávio, mais diretamente —o senador pelo Rio
foi flagrado em mensagens
amáveis ao corruptor e ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ao qual pediu
cerca de R$ 130 milhões, em tese para o filme laudatório a seu pai. Tornou-se
investigado no caso, o que foi omitido pelo ministro André
Mendonça, indicado por Jair
Bolsonaro ao STF e responsável pelo inquérito.
Um contrato de valor similar foi firmado pelo
Master com o escritório da mulher de Alexandre de
Moraes, que no Supremo liderou o processo para a correta condenação
do ex-presidente por tentativa de golpe de Estado —e que em mais de uma ocasião
esteve alinhado a Lula, assim como Dias Toffoli,
outro parceiro em negócios de Vorcaro.
Também contribuiu para conturbar a campanha a
enxurrada de medidas eleitoreiras tomadas pelo petista, que, a exemplo de seu
antecessor, abusou da
caneta presidencial e deixou os custos para a administração
seguinte. Tudo isso —e mais as propostas dos candidatos, em particular para o
urgente ajuste das contas públicas— poderá ser mais bem avaliado em um segundo
turno.
Crise entre Rússia e Europa entra em nova e
perigosa etapa
Por Folha de S. Paulo
Putin usa carta da ameaça nuclear após
chanceler polonês sugerir pressão militar da Otan sobre Kaliningrado
Atos de guerra híbrida se multiplicam; tensão
deve ser contida para minimizar risco de entrechoques que possam levar a
cenários mais sombrios
Vladimir
Putin é o vilão do establishment europeu pelo menos desde 2008,
quando usou a força para conter as ambições da minúscula Geórgia, que buscava
virar um Estado da aliança militar Otan.
De lá para cá, o autocrata russo só alimentou
sua fama. Anexou a Crimeia quando um presidente pró-Kremlin foi derrubado em
Kiev, em 2014, e completou o serviço com a desastrosa invasão total da Ucrânia
oito anos depois.
A guerra disseminou a percepção, que antes
era restrita ao Leste Europeu,
de riscos provenientes de Moscou. Até as neutras Suécia e Finlândia aderiram à
Otan.
Ao mesmo tempo, o retorno de Donald Trump
à Casa Branca abriu uma era de desengajamento americano da defesa europeia e do
apoio aos ucranianos, aumentando a preocupação nas capitais continentais.
Segundo o Instituto Internacional de Estudos
Estratégicos, de Londres, o gasto militar europeu cresceu mais de 90% em termos
nominais entre 2021, ano anterior à invasão da Ucrânia, e 2026.
Num continente marcado por séculos de
conflitos e duas guerras mundiais, desconfianças antigas já se apresentam, não
menos porque quem puxa o dispêndio é a outrora ameaçadora Alemanha.
Nesse sentido, Putin vai colhendo
parcialmente uma vitória estratégica: ele ampliou diferenças entre aliados
ocidentais que vê como hostis, e o impacto econômico de sua guerra
impulsiona partidos de ultradireita simpáticos à Rússia
em toda a Europa.
A disputa se acirra com incidentes de guerra
híbrida —quando o agressor camufla sua identidade em atos menores. Houve
tentativa de explodir aviões na Alemanha, incêndio em fábrica militar na
Estônia e disrupções de aeroportos com drones.
Em todos os casos, a Europa acusa a Rússia,
que dá de ombros e denuncia suposta russofobia. Ao mesmo tempo, ambos os lados
escalam sua presença bélica em áreas como o Báltico e o Ártico. Países da Otan
falam em risco de ataque iminente, algo que até a aliança descarta.
Mas o alarmismo tem custo. Há duas semanas, o
chanceler polonês sugeriu que a Otan deveria exercer pressão militar sobre o
exclave russo de Kaliningrado, entre seu país e a Lituânia.
Além de inútil para tirar o foco russo da
Ucrânia, a ideia serviu para
Putin sacar sua carta nuclear, lembrando que qualquer ação contra o
território será respondida até com armas atômicas.
É improvável que isso ocorra, mas a tensão precisa ser contida para minimizar o risco de entrechoques acidentais que possam levar a cenários mais sombrios.
A democracia está nas mãos do eleitor
Por O Estado de S. Paulo
Votar é condição necessária, mas insuficiente
para fortalecer a democracia. O Brasil que emergirá das urnas não é um país
pronto. Será o que seus cidadãos decidirem fazer dele após a eleição
Neste domingo, mais de 158 milhões de
brasileiros estão aptos a escolher o presidente da República, 27 governadores,
54 senadores, 513 deputados federais e os integrantes das Assembleias
Legislativas e da Câmara Legislativa do Distrito Federal. É o dia mais solene
da democracia, quando o poder é exercido diretamente por quem de fato o detém.
Mas é um erro assumir que esse nobre compromisso cívico se esgota na saída da
cabine de votação. O voto é condição necessária para uma democracia saudável,
mas está longe de ser suficiente.
Reconheçamos que o cardápio oferecido ao
eleitor é uma ode ao desalento. Treze candidatos disputam a Presidência da
República, mas a campanha foi capturada pela polarização estéril entre o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que aos 80 anos concorre ao cargo
pela sétima vez e é o símbolo maior do atraso brasileiro, e Flávio Bolsonaro
(PL), que pouco tem a oferecer ao País além do fato de ser o herdeiro de um pai
inelegível e condenado por golpe de Estado. Quase nada se debateu sobre o que
importa para o País: o descontrole das contas públicas, a escalada do crime
organizado, a baixa produtividade da economia, a qualidade da educação pública
e a posição do Brasil diante dos desafios globais, entre outras questões
prementes. Prevaleceram a lógica tribal da ameaça existencial representada pelo
lulismo e pelo bolsonarismo, a agressão e a desinformação. O eleitor foi
estimulado a rejeitar Lula ou Flávio, não a votar com paixão e esperança em um
projeto de país.
Para a Câmara dos Deputados, são mais de 7
mil candidatos. A profusão de nomes, no entanto, não se traduz em representação
reconhecida como tal à luz de um sistema político que não favorece a
aproximação entre eleitores e eleitos. Os 30 partidos registrados no Tribunal
Superior Eleitoral receberam quase R$ 5 bilhões do Fundo Eleitoral – as dez
legendas mais bem aquinhoadas concentraram 84% dessa dinheirama dos
contribuintes, que se soma ao Fundo Partidário. Confortáveis com o derrame de
dinheiro fácil, os caciques partidários se sentem desobrigados a se aproximar
dos eleitores fora dos ciclos eleitorais. Consequência: as legendas se assumem
cada vez mais como empresas a serviço de seus proprietários, não como
organizadoras dos interesses sociais a serem mediados pela política na democracia
representativa.
O resultado desse divórcio está à vista de
todos. Políticas públicas não raro são capturadas por interesses partidários ou
lobbies setoriais. O Orçamento da União é tratado como butim a ser repartido
entre comparsas de um assalto aos interesses nacionais. O Congresso se move por
emendas bilionárias sem transparência nem critérios republicanos de alocação,
enquanto serviços essenciais para a população pagadora de impostos escorchantes
seguem sofríveis em muitas áreas. Escândalos de corrupção e conflitos de
interesses se sucedem sem causar muito mais do que um mal-estar difuso na
sociedade, como se fossem paisagem, quase traços inerentes à identidade
brasileira. A normalização de práticas e comportamentos inaceitáveis de certas
autoridades talvez seja o pior sintoma da crise moral da Nação.
A boa notícia é que, por mais desalentador
que seja, nada disso é destino escrito em pedra. O rumo da democracia
brasileira está nas mãos de cada eleitor, pois não se trata de um regime que
funciona por inércia. Depende fundamentalmente de cidadãos que acompanhem o
mandato de quem elegeram, que cobrem coerência entre promessas e práticas, que
se organizem em associações, entidades de classe e movimentos, que ocupem o
debate público com argumentos e que não tenham medo de confrontar suas
convicções pessoais com a verdade dos fatos. Por fim, o vigor da democracia
depende de que os eleitores voltem a tratar a ética e a moralidade pública como
valores inegociáveis na política.
É esse o apelo que O Estado de S. Paulo faz a seus
distintos leitores. Hoje, rogamos que compareçam às suas seções eleitorais
imbuídos desse espírito cívico, conscientes do poder que têm. E, conhecidos os
resultados, que cada cidadão tome para si as rédeas da democracia. O Brasil que
emergirá das urnas não é um país pronto. Será o que seus cidadãos decidirem
fazer dele.
O Senado no tribunal da História
Por O Estado de S. Paulo
O Senado tem imensa parcela de
responsabilidade pela perversão do STF que ameaça a República, e os senadores
eleitos hoje serão julgados amanhã por suas ações – ou omissões – diante dela
Hoje a disputa presidencial domina a atenção,
mas o eleitor também renovará dois terços de uma instituição decisiva da
República. O Senado representa os Estados, atravessa governos e participa da
escolha de altas autoridades. Sua importância nesta quadra histórica aparece
com especial nitidez diante da crise do Supremo Tribunal Federal (STF).
O Senado não foi concebido para ecoar
comoções e se dobrar a chantagens. O mandato longo, oito anos, dá aos senadores
horizonte para examinar, denunciar e, se necessário, punir. Sem independência e
brio perante o Planalto, o Supremo e suas próprias lideranças, suas
prerrogativas constitucionais viram ornamentos.
Foi o que ocorreu por tempo demais nas
indicações ao STF e outros órgãos, como a Procuradoria-Geral da República. A
rejeição tornou-se tão improvável que as sabatinas se rebaixaram a um
cerimonial protocolar. Um escrutínio cujo resultado é predeterminado muda o
comportamento de quem escolhe, minimizando o custo de nomes cuja principal
virtude é o alinhamento político-ideológico ao presidente. A rejeição de Jorge
Messias, indicado por Lula, mostrou que o Senado ainda sabe dizer não. A rinha
nos bastidores entre Lula e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, porém,
impede confundir a recuperação de um poder com a recuperação de sua função.
Quanto mais o Supremo se pervertia numa arena
política, mais essa negligência se subvertia em cumplicidade. Ao deixar o
Senado para integrar o Supremo, Flávio Dino observou sem corar que partidos
recorrem ao STF como “uma terceira Casa legislativa”. O próprio Dino turbinou
as perversões do Supremo, contribuindo para fabricar leis no lugar do Legislativo
e ditar políticas públicas no lugar do Executivo.
Jair Bolsonaro afirmou que seus dois
indicados, Kassio Nunes Marques e André Mendonça, representavam “20%” do que
ele gostaria de ver decidido. Lula indicou seu advogado, Cristiano Zanin, e
justificou a indicação de Dino por sua “cabeça política”. O próximo presidente
deve fazer quatro indicações.
O custo de filtros frouxos salta aos olhos. O
escândalo do Banco Master condensa uma crise que vem de longe e se aprofunda a
cada dia: poderes individuais exorbitantes, instrumentos de exceção convertidos
em rotina, conflitos de interesse e divisões semelhantes a facções políticas.
Sobre três ministros – Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Nunes Marques –
pesam indícios graves de malfeitos. O plenário rachou e as investigações foram
bloqueadas, deixando a Corte de costas para a população e à beira de uma guerra
intestina.
O Senado tem grande parcela de culpa nesse
“estado de coisas inconstitucional” e deve reparos à Nação. Ele também será
julgado pelos eleitores. As próximas sabatinas terão de examinar conhecimento,
independência e temperamento com rigor compatível com o poder entregue a cada
senador. O Congresso também precisa ocupar o espaço que lhe cabe, em vez de
terceirizar conflitos ao STF e depois reclamar de ativismo. E precisa deliberar
sobre como preencher o vazio entre a autocontenção dos ministros e o impeachment
com regras de integridade e responsabilização, sem transformar parlamentares em
revisores de sentenças.
O impeachment de ministros do STF precisa
continuar excepcional, mas não pode ser tabu. Divergência jurisprudencial
jamais pode justificá-lo, mas condutas predatórias tampouco devem ser
protegidas pelo temor de um conflito entre Poderes – muito menos por
traficâncias travestidas de “pacificação”. A harmonia republicana não só
admite, como pode exigir confronto. Às vezes, instituições se preservam porque uma
delas impõe à outra os limites que esta rompeu. Isso pode ser traumático e
doloroso, mas doenças letais frequentemente exigem terapias traumáticas e
dolorosas.
O Senado de que o País precisa deve ser
radicalmente comprometido com a independência e a autoridade do Supremo. Por
isso, terá de ser severo com quem abusa de seus poderes – sem revanchismo, mas
também sem hesitação. Os maiores inimigos do STF estão hoje dentro do próprio
STF, e, por causa deles, a maior ameaça à República é a sua própria Suprema
Corte. Os 54 senadores eleitos hoje receberão instrumentos para puni-los. Resta
saber se terão critério, independência e coragem para usá-los.
Uma eleição civilizada
Por O Estado de S. Paulo
Num país refém da polarização, São Paulo
mostra que a política ainda pode ser escolha, não trauma
Os paulistas vão às urnas com um luxo raro na
política brasileira: podem ver seu candidato perder sem concluir que isso é o
fim do mundo. Isso não torna a escolha indiferente. As divergências entre
Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad são marcantes. São Paulo, porém, chega às
urnas com instituições, infraestrutura e capacidade administrativa que reduzem
o espaço para aventuras e permitem que a disputa seja sobre como governar
melhor.
Esse patrimônio não caiu do céu, nem é
exclusivo dos paulistas. Outros Estados também acumularam instituições capazes
e administrações razoáveis. São Paulo, contudo, parte de uma posição
especialmente confortável. A própria oferta eleitoral ajuda. Tarcísio e Haddad
pertencem aos campos que hoje dividem o País, mas nenhum é improviso eleitoral.
Ambos governaram, apresentam propostas substantivas e aceitam o confronto
público. A disputa teve ataques e recorreu a Luiz Inácio Lula da Silva e Jair
Bolsonaro a todo momento. Mas, diferentemente da campanha nacional, houve
debates, e eles se centraram em políticas públicas, serviços e resultados.
As diferenças são expressivas. Tarcísio chega
ao fim do mandato com uma gestão marcada por estímulo à participação privada e
investimentos em infraestrutura. A desestatização da Sabesp foi seguida por
investimentos de R$ 15,2 bilhões em 2025, mais que o dobro do ano anterior. A
Tabela SUS Paulista ampliou o volume de cirurgias eletivas. Há ressalvas do
Tribunal de Contas e resultados mistos em segurança ou educação. Eles bastam
para afastar triunfalismos, mas não para apagar um balanço positivo – o que se
reflete nas pesquisas.
Haddad, por sua vez, foi prefeito, ministro
da Educação e da Fazenda e tem experiência suficiente para ser levado a sério.
Consoante a agenda petista, propõe maior atuação direta do Estado e demonstra
disposição para rever os contratos firmados por Tarcísio e até sustar
concessões ou reverter privatizações. Sua passagem pela Prefeitura da capital,
encerrada sob forte reprovação, e sua ligação orgânica com o PT dão ao eleitor
material para julgar o pacote que viria com sua chegada ao Palácio dos
Bandeirantes. Seria um retrocesso, mas não uma aventura.
É aí que São Paulo ilumina, por contraste, a
política nacional. Haddad continua petista, e Tarcísio segue ligado ao
bolsonarismo. No Estado, porém, essas facções foram obrigadas a discutir
escolas, hospitais, trens, polícia e saneamento. Na eleição presidencial, pela
terceira vez, lulopetismo e bolsonarismo voltam a dominar a disputa, com Lula e
Flávio Bolsonaro empatados mais uma vez no topo da rejeição. Os programas foram
soterrados sob uma batalha campal travada por rancores recíprocos, temores
existenciais e golpes abaixo da linha da cintura.
A democracia aceita combates duros e até se fortalece com eles, desde que sejam pautados por alternativas bem definidas, propostas consistentes e instituições capazes de suportar a alternância sem dramatização permanente. O pleito paulista mostra que posições podem ser defendidas com firmeza sem que as alternativas sejam tratadas como calamidade. É um conforto que não elimina os desafios e riscos da escolha, mas a torna mais civilizada. E é um sinal de que o Brasil não está condenado a repetir indefinidamente escolhas muito difíceis.
Para exercer e celebrar a democracia
Por O Povo (CE)
Este domingo, 4 de outubro, deve ser, acima
de tudo, um dia de exercer a democracia. É uma data em que os brasileiros podem
exercer livremente o direito de escolher seus representantes, acompanhar a
votação, fiscalizar o processo eleitoral e, ao fim, respeitar a decisão
soberana expressa nas urnas eletrônicas. Uma eleição é, mais do que uma disputa
entre candidaturas, uma manifestação da vontade popular, sendo também um dos
momentos mais importantes da vida republicana.
É certo que a democracia pressupõe
participação, pluralidade, divergência e liberdade de expressão. Mas também é
verdade que exige responsabilidade, equilíbrio e respeito às regras que
sustentam a convivência em sociedade. Desse modo, é natural que uma eleição
desperte paixões, mobilize grupos de diferentes matizes ideológicos e provoque
debates intensos. O que não deve ocorrer é que as divergências se transformem
em intolerância, intimidação, violência ou tentativas de desestabilizar o
processo democrático.
O Grupo de Comunicação O POVO contribuiu para
que o cidadão pudesse ter elementos a fim de construir sua avaliação quanto aos
candidatos. Foi realizada, em agosto e em setembro, uma série de sabatinas e
debates com os candidatos ao Senado pelo Ceará e ao Governo do Estado. O
primeiro debate, a propósito, com os postulantes ao Governo, foi realizado em
edição histórica na Região do Cariri. O segundo debate com os candidatos ao
Governo ocorreu em Fortaleza, seguido por outro com aqueles que disputam as
vagas ao Senado.
Entende-se que é essencial que eleitores,
partidos, candidatos, autoridades e instituições compreendam a responsabilidade
que têm neste momento. O ambiente das eleições, por vezes tenso, precisa ser de
segurança e respeito. Seria ideal que as diferenças políticas não rompessem ou
perturbassem os laços de convivência entre familiares, amigos, vizinhos e
demais cidadãos que, apesar de pensarem de maneiras distintas, compartilham o
mesmo espaço democrático.
Também é fundamental compreender que o
resultado das urnas deve ser respeitado. A democracia não consiste apenas em
participar quando as expectativas são confirmadas. Ela se manifesta, sobretudo,
na capacidade coletiva de reconhecer as regras do jogo, aceitar os resultados
legitimamente proclamados e preservar as instituições. A alternância de poder e
a possibilidade de escolha são elementos fundamentais do sistema democrático.
Que, neste dia 4 de outubro, prevaleçam o bom senso, a responsabilidade e o espírito público. No fim das contas, o que deve prevalecer é a democracia. A eleição se encerra com a apuração, mas a responsabilidade de construir um país democrático é contínua. Defender a democracia é compreender que ela pertence a todos, não apenas aos vencedores de uma eleição.

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