O Globo
Numa eleição presidencial que pode definir o
futuro do país nas próximas décadas, não vemos os candidatos apresentarem
programas compatíveis com nossas necessidades urgentes
O país vive nossa mais intensa e grave crise moral em meio a uma acirrada disputa eleitoral que se desenvolve sem que o ponto crucial de nossa tragédia social como Nação seja discutido, nosso descuido da mais essencial das nossas necessidades, a ética nas relações da sociedade. A desigualdade social, talvez a nossa maior chaga, é considerada por parte relevante da nossa sociedade uma questão menor, que se resolve através da meritocracia. Usei e abusei dos pronomes possessivos “nossa” e “nosso” porque é como sociedade que deveríamos enfrentar esse nosso problema.
No dia em que todos nos convencermos de que
uma sociedade egoísta como a nossa não produzirá um país verdadeiramente
desenvolvido e progressista, estaremos no caminho certo para reformar nossa
sociedade. Pobre tem em todo lugar, dizem. Concordo, mas a razão da existência
de uma classe desamparada é que está em discussão. Como falar em mérito se não
é dada a mesma educação desde a primeira infância para todos?
Acostumamo-nos a nos satisfazer com remendos
sociais compensatórios, como se fossem suficientes para resolver os problemas
dos que não tiveram chances de se desenvolver física e mentalmente durante a
vida. Os programas sociais, implantados há mais de 30 anos pelo governo de
Fernando Henrique Cardoso e incrementados como marca principal das gestões
petistas, resolvem o básico, mas se tornarão permanentes e eternos caso não façamos
mudanças estruturantes que permitam a inclusão social real.
Numa eleição presidencial que pode definir o
futuro do país nas próximas décadas, não vemos os candidatos apresentarem
programas compatíveis com nossas necessidades urgentes, o país se divide,
multidões saem às ruas de um lado e de outro para marcar territórios, não para
defender projetos ou planos de desenvolvimento. Será que vale tudo para ganhar
uma eleição? Não é à toa que os dois candidatos em disputa têm rejeição
altíssima e semelhante. Quando se vence com métodos ilegais, ou se avança sobre
a legalidade para obter vantagens, a vitória não será honrosa, mas esta
afirmação parece deslocada no tempo. Honra é uma qualidade que já não tem
grande valia no nosso mercado político, substituída entre nós, brasileiros,
pela vitória a qualquer custo.
A tese de que “os fins justificam os meios” é
antiga. Pode ter sua origem no poeta romano Ovídio, que disse : “o sucesso
valida o ato”, ou a Maquiavel que em O Príncipe, no século XVI, defendeu a
ideia de que o governante, para defender seus objetivos, possa agir de forma
fria e objetiva. O sociólogo alemão Max Weber colocou a questão da ética em
dois aspectos: a ética da Convicção e a da Responsabilidade. A primeira
baseia-se em princípios absolutos, sem se importar com os resultados práticos
da ação. Já a da Responsabilidade leva em conta as consequências previsíveis
das próprias atitudes no mundo real.
O escritor e advogado José Roberto Castro
Neves, membro da Academia Brasileira de Letras, está lançando um livro que se
torna fundamental neste momento que vivemos no Brasil: “A pergunta difícil: por
que precisamos falar de ética”, da Editora Nova Fronteira. Nele, os temas
ligados à ética são analisados a partir da história e dos grandes autores que
tratam do assunto, desde os primórdios da civilização ao dias de hoje. O tema
será também abordado sob diversos ângulos no segundo seminário “Ética imortal”,
organizado pela Instituto Não Aceito Corrupção, dirigido pelo promotor de
Justiça de São Paulo Roberto Livianu em parceria com a Academia Brasileira de
Letras.
O “vale tudo” em que se transformou nossa
campanha presidencial obriga a que se debata a questão da ética, embora nossos
Supremos ministros não aceitem a proposta do presidente do Supremo Tribunal Federal
(STF), ministro Edson Fachin, de elaborar um código de ética para orientar o
colegiado. Quando os “Supremos” temem compromissos éticos, e trabalham com
partidarismo, é sinal de que a sociedade está doente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário