CartaCapital
O câmbio, refém da volatilidade de capitais,
afeta de modo inapelável a determinação dos juros
André Lara Resende, em seu artigo “Eu acuso”,
tem o papel importante de restabelecer o debate a respeito das políticas
monetária e fiscal e questionar os dogmas do pensamento único. Nosso
artigo de hoje tem o propósito de considerar as sugestões oferecidas por André.
Vamos iniciar nosso despretensioso périplo escrevendo sobre o dinheiro, um bicho nervoso, sensível e pragmático. Tem sua própria lógica, vive procurando oportunidades de acumular mais dinheiro. Os “técnicos” no assunto afirmam que o dinheiro não tem ideologia e partido político. Discordamos: na economia monetária-financeira, quem comanda o jogo é a “ideologia” nascida do poder do dinheiro.
Restringir o dinheiro apenas a uma forma
“técnica” obscurece uma dimensão fundamental do dinheiro: sua dimensão
sociopolítica, que determina as visões, ideias e concepções sobre sua natureza
e funcionamento.
Apoiado no linguista John Austen, em seu
livro Capital e Linguagem, o economista Christian Marazzi sublinha a natureza
performativa da linguagem do dinheiro e dos mercados financeiros. Performativa
quer dizer apenas que a linguagem dos mercados financeiros contemporâneos não
descreve, e muito menos “analisa”, um determinado estado de coisas, mas produz
imediatamente significados.
Recebemos no Instagram uma foto exibindo um
papagaio diante do microfone. Ali estava escrito “Papagaio aprende a falar
‘ajuste fiscal’ e se torna comentarista de economia na grande mídia”.
O papagaio é crente do regime de metas que
vende relações econômicas de causa-efeito, automáticas, instantâneas, ditas
racionais. Esse modelo rebaixa o dinheiro a um mero meio de troca e esconde as
relações indissociáveis entre juros e câmbio nas economias capitalistas, preços
que determinam o valor da riqueza. A taxa de câmbio está inexoravelmente sujeita
à volatilidade dos fluxos de capitais financeiros e, assim, afeta a
determinação da taxa de juros.
A experiência recente demonstra, no entanto,
que a dependência do financiamento externo engendra, nas economias emergentes,
períodos de forte instabilidade cambial, comprometendo o regime de metas e
determinando uma trajetória de crescimento medíocre da economia. O sistema
monetário global é constituído por uma hierarquia de moedas, algumas mais
“líquidas” do que outras. É improvável, por exemplo, que um exportador alemão e
um importador japonês escolham o real como moeda de transação nos seus
negócios.
Os países que mais crescem rasgaram os dogmas
das expectativas racionais e cuidam de produção, competitividade e eficiência
As concepções dos teóricos que abraçam o
pensamento convencional tratam todas as economias como homogêneas e fechadas.
Os países que mais crescem e cresceram no
mundo buscaram chegar a Deus de maneiras diferentes, rasgaram os dogmas da
escola das expectativas racionais para cuidar das expectativas que comandam a
produção, a competitividade e a eficiência.
China, Índia e Vietnã mostram que podemos
alcançar e acreditar no divino, com rezas diferentes daquelas dos apóstolos
Robert Lucas e Michael Woodford. O novo testamento da economia das expectativas
racionais não renega o velho testamento monetário, renega a moeda, com a
pretensão de falar sobre ela. Diante de tal paradoxo, devemos invocar Freud,
uma economia sem moeda, e todos os indivíduos racionais. Para aprender e
estudar as experiências bem-sucedidas é necessário coordenação fiscal,
monetária e produtiva. Elaborar uma visão e estratégia de médio e longo prazo,
sair dessa mesmice e inércia com visão de curtíssimo prazo, não tem bala de
prata.
A China, país que mais cresceu nos últimos 30
anos, é o único que não adota o regime de metas de inflação padrão. Professa
outro credo. No modelo chinês, o governo estabelece a meta de inflação, no caso
2% ao ano. O governo também estabelece meta de crescimento econômico, fixado em
5% ao ano. Cabem ao Banco Popular da China quatro mandatos a perseguir:
crescimento econômico, emprego, estabilidade cambial e setor imobiliário. Os
instrumentos de política monetária também são quatro: taxa de juros, depósitos
compulsórios, tetos de créditos setoriais (controle de crédito) e injeções de
liquidez direcionadas (setoriais). O Banco Central chinês determinas duas taxas
básicas de juro, uma para um ano e outra para cinco anos. Hoje assim definidas:
1 ano 3% ao ano e 5 anos, 3,5% ao ano. A conta de capital é controlada. Aos
leigos: a entrada e a saída de capitais não são livres.
A China define o investimento estrangeiro que
pode entrar e sair mediante regras estabelecidas pelo Banco Central. É um caso
único no mundo em que as duas variáveis-chave da economia, a taxa de juros e a
taxa de câmbio, são administradas com o propósito de assegurar a concatenação
entre baixa inflação e crescimento. Aqui realmente são independentes do fluxo
monetário internacional e seus humores. Isso foi construído passo a passo, não
foi criado do dia para a noite.
Caso mais recente, o país que mais cresce na
Ásia é o Vietnã. Na última década, tem crescido entre 6% e 7% ao ano.
Estabeleceu uma meta de crescimento econômico para o período 2026 a 2030 de 10%
ao ano. A Assembleia Nacional estabeleceu uma meta de inflação de 4,5% ao ano.
Não adota integralmente o regime de metas, mas um sistema misto. O Banco do
Estado do Vietnã tem dois mandatos: controle direto do crédito e estabilização
da taxa de câmbio nominal, que seria âncora nominal. Cabe frisar que a
ancoragem das expectativas está na estabilidade cambial, não dos agentes
racionais econômicos. A taxa básica de juros é de 4,5% ao ano. Assim como a
China, o Vietnã tem superávit em conta corrente.
Um comentário, se me permitem: China e Vietnã
parece que aprenderam que, para ter estabilidade de preços, a condição
necessária e suficiente é ter estabilidade cambial e controle do crédito.
No caso da Índia, o país cresce à média de 7%
ao ano e adota o regime de metas de inflação, mas não de forma radical. A meta
é flexível, tem um prazo de cinco anos para ser atingida. Meta de inflação 5%
ao ano e taxa básica de juros 5,5% ao ano. Reservas internacionais de 720
bilhões de dólares.
Nenhum desses países caiu na chantagem
macroeconômica do pensamento único, dominante no resto do mundo. Isso significa
que achar a nossa maneira de sair dessa armadilha, que colocou o Brasil e sua
política econômica dependentes de uma única variável, a taxa básica de juros,
requer aprender o que deu certo e o que é possível adaptar aqui, e ter a noção
de que não é do dia para a noite que vamos livrar este país desse crescimento
medíocre de 2,0% ao ano.
O presidente Lula declarou na Avenida
Paulista após a vitória eleitoral: o Estado é laico. Com liberdade religiosa e
de crença. O Estado brasileiro não terá uma religião. Perguntamos ao
leitor de nossas mal traçadas linhas: isso vale para a economia?
Publicado na edição n° 1438 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2026.

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