sábado, 7 de novembro de 2026

Chantagem macroeconômica, por Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back

CartaCapital

O câmbio, refém da volatilidade de capitais, afeta de modo inapelável a determinação dos juros

André Lara Resende, em seu artigo “Eu acuso”, tem o papel importante de restabelecer o debate a respeito das políticas monetária e fiscal e questionar os dogmas do pensamento único. Nosso artigo de hoje tem o propósito de considerar as sugestões oferecidas por André.

Vamos iniciar nosso despretensioso périplo escrevendo sobre o dinheiro, um bicho nervoso, sensível e pragmático. Tem sua própria lógica, vive procurando oportunidades de acumular mais dinheiro. Os “técnicos” no assunto afirmam que o dinheiro não tem ideologia e partido político. Discordamos: na economia monetária-financeira, quem comanda o jogo é a “ideologia” nascida do poder do dinheiro.

Restringir o dinheiro apenas a uma forma “técnica” obscurece uma dimensão fundamental do dinheiro: sua dimensão sociopolítica, que determina as visões, ideias e concepções sobre sua natureza e funcionamento.

Apoiado no linguista John Austen, em seu livro Capital e Linguagem, o economista Christian Marazzi sublinha a natureza performativa da linguagem do dinheiro e dos mercados financeiros. Performativa quer dizer apenas que a linguagem dos mercados financeiros contemporâneos não descreve, e muito menos “analisa”, um determinado estado de coisas, mas produz imediatamente significados.

Recebemos no Instagram uma foto exibindo um papagaio diante do microfone. Ali estava escrito “Papagaio aprende a falar ‘ajuste fiscal’ e se torna comentarista de economia na grande mídia”.

O papagaio é crente do regime de metas que vende relações econômicas de causa-efeito, automáticas, instantâneas, ditas racionais. Esse modelo rebaixa o dinheiro a um mero meio de troca e esconde as relações indissociáveis entre juros e câmbio nas economias capitalistas, preços que determinam o valor da riqueza. A taxa de câmbio está inexoravelmente sujeita à volatilidade dos fluxos de capitais financeiros e, assim, afeta a determinação da taxa de juros.

A experiência recente demonstra, no entanto, que a dependência do financiamento externo engendra, nas economias emergentes, períodos de forte instabilidade cambial, comprometendo o regime de metas e determinando uma trajetória de crescimento medíocre da economia. O sistema monetário global é constituído por uma hierarquia de moedas, algumas mais “líquidas” do que outras. É improvável, por exemplo, que um exportador alemão e um importador japonês escolham o real como moeda de transação nos seus negócios.

Os países que mais crescem rasgaram os dogmas das expectativas racionais e cuidam de produção, competitividade e eficiência

As concepções dos teóricos que abraçam o pensamento convencional tratam todas as economias como homogêneas e fechadas.

Os países que mais crescem e cresceram no mundo buscaram chegar a Deus de maneiras diferentes, rasgaram os dogmas da escola das expectativas racionais para cuidar das expectativas que comandam a produção, a competitividade e a eficiência.

China, Índia e Vietnã mostram que podemos alcançar e acreditar no divino, com rezas diferentes daquelas dos apóstolos Robert Lucas e Michael Woodford. O novo testamento da economia das expectativas racionais não renega o velho testamento monetário, renega a moeda, com a pretensão de falar sobre ela. Diante de tal paradoxo, devemos invocar Freud, uma economia sem moeda, e todos os indivíduos racionais. Para aprender e estudar as experiências bem-sucedidas é necessário coordenação fiscal, monetária e produtiva. Elaborar uma visão e estratégia de médio e longo prazo, sair dessa mesmice e inércia com visão de curtíssimo prazo, não tem bala de prata.

A China, país que mais cresceu nos últimos 30 anos, é o único que não adota o regime de metas de inflação padrão. Professa outro credo. No modelo chinês, o governo estabelece a meta de inflação, no caso 2% ao ano. O governo também estabelece meta de crescimento econômico, fixado em 5% ao ano. Cabem ao Banco Popular da China quatro mandatos a perseguir: crescimento econômico, emprego, estabilidade cambial e setor imobiliário. Os instrumentos de política monetária também são quatro: taxa de juros, depósitos compulsórios, tetos de créditos setoriais (controle de crédito) e injeções de liquidez direcionadas (setoriais). O Banco Central chinês determinas duas taxas básicas de juro, uma para um ano e outra para cinco anos. Hoje assim definidas: 1 ano 3% ao ano e 5 anos, 3,5% ao ano. A conta de capital é controlada. Aos leigos: a entrada e a saída de capitais não são livres.

A China define o investimento estrangeiro que pode entrar e sair mediante regras estabelecidas pelo Banco Central. É um caso único no mundo em que as duas variáveis-chave da economia, a taxa de juros e a taxa de câmbio, são administradas com o propósito de assegurar a concatenação entre baixa inflação e crescimento. Aqui realmente são independentes do fluxo monetário internacional e seus humores. Isso foi construído passo a passo, não foi criado do dia para a noite.

Caso mais recente, o país que mais cresce na Ásia é o Vietnã. Na última década, tem crescido entre 6% e 7% ao ano. Estabeleceu uma meta de crescimento econômico para o período 2026 a 2030 de 10% ao ano. A Assembleia Nacional estabeleceu uma meta de inflação de 4,5% ao ano. Não adota integralmente o regime de metas, mas um sistema misto. O Banco do Estado do Vietnã tem dois mandatos: controle direto do crédito e estabilização da taxa de câmbio nominal, que seria âncora nominal. Cabe frisar que a ancoragem das expectativas está na estabilidade cambial, não dos agentes racionais econômicos. A taxa básica de juros é de 4,5% ao ano. Assim como a China, o Vietnã tem superávit em conta corrente.

Um comentário, se me permitem: China e Vietnã parece que aprenderam que, para ter estabilidade de preços, a condição necessária e suficiente é ter estabilidade cambial e controle do crédito.

No caso da Índia, o país cresce à média de 7% ao ano e adota o regime de metas de inflação, mas não de forma radical. A meta é flexível, tem um prazo de cinco anos para ser atingida. Meta de inflação 5% ao ano e taxa básica de juros 5,5% ao ano. Reservas internacionais de 720 bilhões de dólares.

Nenhum desses países caiu na chantagem macroeconômica do pensamento único, dominante no resto do mundo. Isso significa que achar a nossa maneira de sair dessa armadilha, que colocou o Brasil e sua política econômica dependentes de uma única variável, a taxa básica de juros, requer aprender o que deu certo e o que é possível adaptar aqui, e ter a noção de que não é do dia para a noite que vamos livrar este país desse crescimento medíocre de 2,0% ao ano.

O presidente Lula declarou na Avenida Paulista após a vitória eleitoral: o Estado é laico. Com liberdade religiosa e de crença. O Estado brasileiro não terá uma religião. Perguntamos ao leitor de nossas mal traçadas linhas: isso vale para a economia? 

Publicado na edição n° 1438 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2026.

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