domingo, 19 de abril de 2026

Os Supremos, por Merval Pereira

O Globo

Agora já não é mais um governo autoritário que ameaça o Supremo, é o Supremo que ameaça a democracia

A fórmula mais usada em governos autoritários, de esquerda ou de direita, para controle da democracia sem que suas instituições deixem de funcionar na aparência é o domínio do que aqui se denomina Supremo Tribunal Federal (STF). Por ser a última instância da Justiça, é a que pode definir quem está certo ou errado, especialmente no Brasil, onde qualquer tipo de ação vai parar lá. Por isso mesmo, um governo como o de Bolsonaro, que claramente tinha o objetivo de dar um golpe de Estado, atacava seus representantes, para criar na população uma ojeriza à sua atuação.

Roubalheiras antigas, por Dorrit Harazim

O Globo

Afinal de contas, nunca é demais ver como funcionava a mente privilegiada e honrada do autor de ‘Os miseráveis’

Na semana passada, a Assembleia Nacional da França aprovou, por rara unanimidade, o Projeto de lei que agiliza a devolução de obras de arte e bens culturais saqueados ao longo de 157 anos. O limite temporal da medida (entre 1815, ano da queda de Napoleão, e 1972, data da entrada em vigor de convenção da Unesco sobre restituições) restringe o caráter universal inicialmente pretendido. O texto tampouco abriga a palavra-chave envergonhada da questão: “colonização”. Ainda assim, com nove longos anos de atraso, a medida veio cumprir uma promessa de 2017 feita pelo presidente Emmanuel Macron.

A terceira via existe? Por Elio Gaspari

O Globo

Tentar ler numa pesquisa de abril o comportamento do eleitorado em outubro é pouco mais que um exercício de quiromancia, sobretudo quando a Genial/Quaest registrou que há 62% de indecisos.

Há meses, todas as pesquisas trazem notícias ruins para Lula. Pela primeira vez, Flávio Bolsonaro ultrapassou-o, (42% x 40%) dentro da margem de erro e em um cenário estimulado. O sabor amargo dessa pesquisa está na rejeição. Lula tem 55% e Flávio tem 52%, novamente dentro da margem de erro.

A terceira via tem dois candidatos: Romeu Zema, o ex-governador de Minas Gerais, e Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás. No cenário de uma disputa do segundo turno, Lula patina na faixa dos 40%, enquanto os dois têm leve viés de alta. Zema tem 36% e Caiado, 35%.

Como a guerra chega na eleição, por Míriam Leitão

O Globo

Um recorte exclusivo da pesquisa Genial/Quaest mostra que apenas 16% dos brasileiros não se sentem afetados pela alta dos combustíveis.

A guerra contra o Irã atingiu diretamente o Brasil, por isso, a perspectiva de fim do conflito, que se abriu na sexta-feira, é uma excelente notícia também para o governo brasileiro. Segundo a pesquisa Genial/Quaest, apenas 16% dos brasileiros não se sentem afetados pela alta dos combustíveis. O evento bagunça o cenário e aumenta a distância entre percepção e fato na economia. O país tem bons indicadores, mas o eleitor não sente isso. Para 38%, o principal causador dos preços dos combustíveis é a guerra do Irã e a situação internacional, porém o segundo vilão escolhido, com 25%, é o “governo Lula e suas decisões na economia”.

Nas asas da Panair, ops!, da FAB, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

É fácil viajar de graça no Brasil! Basta ter um cargo importante em qualquer poder

Enquanto milhões de brasileiros vivem com seus filhos em barracos, amontoados em morros, sem esgoto, higiene e o mínimo de segurança e conforto, os ricos e poderosos cruzam os céus do País – e do mundo – em jatinhos e jatões, próprios, alugados ou “emprestados”. Baratinho não é.

Os muitíssimo ricos do setor privado compram aviões para uso pessoal, se exibir por aí, fazer negócios e paparicar quem lhes possa garantir algum tipo de vantagem. Os poderosos do serviço público aproveitam seus 15 minutos de fama para usufruir do bom e do melhor, como, por exemplo, os jatinhos da FAB e seus brindes caprichados.

O castelo de areia de Trump, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Os acordos de reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã e de cessar-fogo entre Israel e o Líbano não passam de encenações. A queda no preço do petróleo e as altas nos mercados de ações são movimentos especulativos.

O que o Irã “aceitou” foi manter aquilo que já havia imposto: os cargueiros têm de passar por corredores estabelecidos pela marinha iraniana. O Esquema de Separação de Tráfego (TSS), que funcionou tão bem desde os anos 60, está comprometido pelas minas lançadas pelo Irã.

Pancadas sobre o turismo, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Tempo de guerra é sempre ruim para o turismo. Desta vez, não é diferente. Mas o setor vem levando pauladas há mais tempo, por uma conjunção de fatores.

Turismo é atividade relativamente nova da economia global. Viagens sempre houve, como houve peregrinações e deslocamentos em busca de contatos, de atividades econômicas e de conhecimento. Mas o desfrute em massa de outras culturas e de prazeres proporcionados pela natureza é mais recente.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Dívidas das famílias espelham gastos de Lula

Por Folha de S. Paulo

Em pesquisa Datafolha, 67% dizem ter passivos financeiros, e 28%, contas de consumo em atraso

Acesso a crédito contribuiu para o fenômeno, mas alta necessárias das taxas de juros do Banco Central para conter inflação foi determinante

Nas últimas semanas, dívidas das famílias tomaram as discussões econômicas e políticas no país.

A degradação da qualidade do crédito era um fenômeno visível desde ao menos o início de 2025 e previsível desde que as taxas de juros passaram a subir, no final de 2024. O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), porém, pareceu surpreso ou, ao menos, demonstrou preocupação maior com o tema apenas com a onda de declínio do prestígio do presidente.

A baixa da avaliação presidencial não vem de hoje, mas desde o início do ano passado. Além do mais, as queixas do eleitorado são diversas, como o nível elevado de preços, impostos, insegurança e corrupção, que causam desconfiança geral no sistema político.

A promessa de arrocho de Flávio Bolsonaro e o risco de bananismo autoritário, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Candidato da extrema direita quer 'tesouraço' nos gastos e menos impostos ao mesmo tempo

Se houver protesto contra um governo Bolsonaro 2, haverá cenoura diversionista ou chicote?

O vago plano econômico de Flávio Bolsonaro é em tese impopular, ao menos quanto a contas do governo. Prega redução de impostos e cortes de despesas. Quanto menos tributação, maior o tamanho da contenção de gastos. A rigor, porém, há promessa de aumento de impostos, de início (corte de gasto tributário é isso).

O risco de protesto é evidente, do topo ao chão da escala de renda. A questão fiscal será problema para qualquer governo, mas o modus operandi bolsonarista em relação à divergência é problema ainda maior. Quanto ao mais, o candidato a Bolsonaro Segundo diz que as "diretrizes e lições" são as do governo Bolsonaro Primeiro.

O plano é apenas em tese impopular. Javier Milei, na Argentina, inspiração bolsonarista, fez ajuste fiscal inédito, afora aqueles de tempos de grande guerra ou de hiperinflação terminal, chegando a cortar em 30% o valor real de rendas de pessoas que recebiam pagamento do Estado. Milei começa a cair pelas tabelas, mas a "motosserra" autoritária não levou seu prestígio a nível negativo nem impediu vitória eleitoral nos primeiros dois anos.

CPI pega STF e livra políticos, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Relatório não indiciou quem roubou, ganhou dinheiro e tentou salvar o Master com dinheiro público

Se tivesse contado a história toda, texto teria sido rejeitado por 10 a 0, não por 6 a 4

O relatório da CPI do Crime Organizado escrito pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) pediu indiciamento de três ministros do STF e do procurador-geral da República. Não indiciou os políticos (em geral, de direita) que roubaram com o Master, ganharam dinheiro do Master e tentaram salvar o Master com dinheiro público.

A leitura do relatório deixa claro que Vieira tentou transformar a CPI do crime organizado em CPI do Banco Master.

Até aí, várias CPIs já trataram de temas diferentes dos que inspiraram sua instalação: o mensalão, por exemplo, foi investigado em uma CPI sobre bingos.

STF se enreda na própria teia, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Não há solução à vista para a recuperação do alto grau de desconfiança da população no Supremo

Cabe ao tribunal decidir se faz autocrítica para salvar a instituição ou se ignora as evidências e aprofunda a crise

Na sexta-feira (17), Edson Fachin e Cármen Lúcia respiraram fundo e foram ao cerne da questão: a crise de confiança que assola o Judiciário, em particular o Supremo Tribunal Federal, é grave e precisa ser enfrentada pelos próprios juízes.

O presidente e a ministra vocalizaram o que diz a população nas pesquisas que registram o alto grau de desconfiança na corte. Minados internamente, partiram para o desabafo externo na tentativa de mostrar aos colegas a necessidade de reconhecer o óbvio e virar essa página nefasta na história do STF.

Dejetos apocalípticos da guerra, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Na corda bamba sobre o abismo sem fundo da decadência ocidental, Trump alimenta a velha voracidade capitalista por solos e subsolos

Frágil é a trégua no Oriente Médio; certo mesmo é que a Guarda Revolucionária do Irã sai fortalecida, com maior poder interno

Pequena e anterior às manchetes do recuo dos EUA em seu apocalíptico ultimato, uma notícia nas redes reportava que uma bomba iraniana atingiu por acaso uma rede de esgotos israelense, inundando ruas com enxurradas de fezes. Um tópico adequado à "slopaganda" ("sloppy propaganda") iraniana, que mistura baixaria e porcaria. Provável sinal cabalístico de que o desatino bélico criado por dementes passou de porqueiro a porco. Em termos ainda mais prosaicos, a guerra deu ruim, deu "eme".

A religião, a loteria e o ópio da miséria, por Antonio Gramsci*

Nas Conversazioni criitiche & (Série 11, p. 300-301), Croce busca a "fonte" do Paese di Cuccaga’, de Matilde Serao, e a encontra num pensamento de Balzac. Na narrativa La Rabouilleuse, escrita em 1841 e depois intitulada Un ménage de garçon, falando de Madame Descoings, que há vinte e um anos apostava numa famosa sequência de três números, o "romancista sociólogo e filósofo" observa: "Essa paixão, tão universalmente condenada, nunca foi estudada. Ninguém ainda compreendeu o ópio da miséria. A loteria, a mais poderosa fada do mundo, não desenvolvia esperanças mágicas? A jogada de roleta, que acenava aos jogadores com montões de ouro e de prazeres, n5o durava mais que um clarão; ao passo que a loteria dava uma duração de cinco dias a esse magnífico clarão. Qual é, atualmente, a potência social que pode, por quarenta soldos, tornar-vos felizes durante cinco dias e conceder-vos idealmente todas as felicidades da civilização?"