quarta-feira, 27 de maio de 2026

Passagem de bastão civilizatório, por Cristovam Buarque*

Correio Braziliense

Trata-se do início da passagem do protagonismo dos governantes políticos, que representam seus respectivos países, para empresários "donos do planeta" que dominam tecnologias e representam interesses acima das fronteiras nacionais

O mundo assistiu à passagem do bastão de superpotência mundial das mãos do líder americano para o líder chinês. Isso era previsível desde que a República Popular da China começou a mostrar os resultados das reformas iniciadas há 50 anos por Deng Xiaoping: a adoção da eficiência produtiva e do empreendedorismo capitalista, sem perder a perspectiva do interesse nacional, com uma estratégia social de longo prazo, sem instabilidade política nem descontinuidade a cada eleição. Outras transições semelhantes já ocorreram: da Grécia para Roma; da Espanha e de Portugal para a Inglaterra; e desta para os Estados Unidos, compartida com a URSS devido ao poder nuclear. Diferentemente, a mudança atual não ocorre apenas de uma nação para outra, mas de um tipo de poder para outro: além da China, a primazia mundial será exercida por outros países e por empresas internacionais.

Sociologia política do bate-boca, por Roberto DaMatta*

O Estado de S. Paulo

Mamãe era taxativa: “Jamais bata boca”. Essa gritaria dos mal-educados. O mesmo conselho surge nos jornais, revelando como o bate-boca é maleducado: ele expressa a falta de controle de dois “superiores” que se confrontam e nenhum deles pode ser inferiorizado, exceto no grito. O bate-boca é uma ferramenta aristocrática, prima do “você sabe com quem está falando?”. Exprime a perturbação diante do direito de discordar. Se sou superior, como alguém ousa reagir aos meus argumentos?

Todo mundo parece ter ouvido mamãe, pois continuamos a classificar dissidências como bate-bocas, como falta de educação, quando o certo é o justo oposto. Nada mais normal do que a dissidência entre pessoas numa democracia. Desclassificar discussões é típico de sistemas construídos por “gente que se lava”, como o nosso.

Creio que foi precisamente isso o que alavancou Jair Bolsonaro, pois um dos pontos críticos de sua figura era que ele exibia o furor dos bate-bocas.

Um susto com a inflação, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

Os indicadores de preços nos EUA e no Brasil ainda não embutem, com rigor, vários riscos

Investidores dos Estados Unidos e do Brasil correm o risco de tomar um baita susto com a inflação, pois a maioria parece subestimar as pressões inflacionárias que podem vir à tona. Isso porque as projeções de analistas para os índices de preços ao consumidor de 2026 e de 2027 ainda não embutem – com o devido peso – vários riscos, desde cotações persistentemente elevadas do petróleo e de matérias-primas até impactos de fenômenos climáticos, como o El Niño.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

PEC que extingue escala 6x1 criará novos problemas

Por O Globo

É inevitável piora no desemprego e na informalidade. Compensação para MEIs desvirtua programa ainda mais

A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que põe fim à escala de seis dias de trabalho por um de descanso, ou 6x1, avança com rapidez no Congresso. O relator, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), apresentou parecer garantindo dois dias de folga e reduzindo a jornada máxima de 44 para 40 horas, mantendo o salário atual. A previsão é que a PEC seja votada em plenário nesta semana. A medida é eleitoreira, o debate tem sido raso, e os estragos para a economia e o mercado de trabalho serão enormes.

O que falta na encíclica do papa Leão 14 sobre a IA, por Rui Tavares*

Folha de S. Paulo

Pontífice citou Agostinho, Tolkien, Beethoven, Guernica, Martin Luther King Jr. e até Frankl e seu 'otimismo trágico'

Difícil acreditar que tenha escapado ao papa que Pentecostes guarde tantas semelhanças com a inteligência artificial

Tem Santo Agostinho. Mas tem Tolkien também. Tem Beethoven, tem Guernica, tem Martin Luther King Jr., tem Viktor Frankl e o seu "otimismo trágico". Tem muita doutrina social da igreja, valorização dos trabalhadores e críticas ao nacionalismo, Realpolitik e pós-humanismo.

Para um ateu de esquerda como eu —com duas exceções, sobre aborto e família de "um homem e uma mulher"— não há quase nada para discordar na encíclica "Magnifica Humanitas" do papa Leão 14.

Mas quero é escrever do que não está lá. A encíclica foi datada de 15 de maio e apresentada em 25 de maio. E o que aconteceu entre uma coisa e outra? As celebrações de Pentecostes, no domingo (24). Que uma encíclica escrita e lançada em Pentecostes não fale de Pentecostes é uma coisa que me intriga e confunde. E acho que essa ausência é decisiva.

Uma aposta improvável, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

É incomum ver parlamentares do PL e do PT unidos para aprovar projeto de lei que não seja corporativista

Os dois partidos, porém, parecem empenhados em banir a propaganda de bets, o que seria bom para o país

Em geral, quando PL e PT se colocam do mesmo lado numa matéria legislativa, estamos diante de uma conspiração contra o interesse público. O que mais frequentemente motiva a união das duas legendas antagônicas são as pautas corporativistas. Testemunhamos isso alguns dias atrás, quando peelistas, petistas e deputados de siglas do centrão se juntaram para aprovar na Câmara um projeto que alivia punições a partidos políticos que cometeram irregularidades. Mas "em geral" não é sinônimo de "sempre".

Cena eleitoral é refém de emoções, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Fatos positivos e negativos não abalam nem impulsionam a situação dos favoritos nas pesquisas

Eleitorado parece ter se acomodado na armadilha do amor e ódio por seus políticos de estimação

Mudanças na dinâmica da relação entre os políticos e o eleitorado criam dificuldades para a análise e exigem a adoção de novos critérios no exame do andamento de campanhas eleitorais. Daí decorrem circunstâncias aparentemente inexplicáveis. O que valia já não vale.

Na cena atual, dois fatores em tese fortes o bastante para abalar ou impulsionar as intenções de voto não foram suficientes para alterar de modo significativo o quadro retratado pelas pesquisas de opinião.

Tanto Luiz Inácio da Silva (PT) como Flávio Bolsonaro (PL) ficaram mais ou menos onde estavam em levantamentos anteriores, a despeito de o primeiro patrocinar gastança calculada em R$ 190 bilhões para captar eleitores e o segundo ter sido pego em mentiras reiteradas sobre o relacionamento com Daniel Vorcaro.

Entrevista* | O Fascismo Encontrou terreno fértil no Brasil

O jornal Catetear

*Paulo Bracarense, secretário de relações internacionais do Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Luiz Carlos Prestes Filho: Será que negligenciamos a importância do fascismo na formação da sociedade brasileira? Será que o fascismo é um elemento constituinte da nossa sociedade?

Paulo Bracarense: Durante muito tempo, a historiografia e a memória política brasileiras trataram o fascismo como um fenômeno essencialmente europeu, ligado à Segunda Guerra Mundial, à Benito Mussolini e à Adolf Hitler. Isso produziu a impressão de que o Brasil teria sido apenas um observador periférico daqueles acontecimentos. Entretanto, os estudos mais recentes mostram que o fascismo encontrou terreno fértil no Brasil e dialogou profundamente com características estruturais da sociedade brasileira. Não significa afirmar que o Brasil tenha sido “um país fascista” em sentido clássico, mas sim reconhecer que elementos compatíveis com o fascismo estiveram presentes de forma recorrente em nossa formação política: autoritarismo, culto à ordem, militarismo, anticomunismo radical, racismo estrutural, violência contra movimentos populares, personalismo e a ideia de uma unidade nacional construída contra “inimigos internos”.