quinta-feira, 4 de junho de 2026

Opinião do dia - Giuseppe Vacca*

“Não há dúvida de que as “ideologias” têm para Gramsci peso maior do que para qualquer outro pensador marxista, mas afirmar que “tornam-se o momento primário da história” equivale a inserir seu pensamento nos quadros conceituais da “filosofia do espírito” de Benedetto Croce. É verdade que Bobbio aplica ao pensamento gramsciano um paradigma dicotômico (estrutura/superestrutura) que não se lhe adapta. A “distinção entre sociedade política e sociedade civil” – escreve Gramsci – é uma “distinção metodológica”, não “orgânica”. “Sociedade civil e Estado se identificam na realidade dos fatos”. É um dos trechos mais conhecidos do Caderno 13, no qual Gramsci polemiza com o liberalismo porque, considerando “orgânica” o que deveria ser uma distinção “metodológica”, contrapõe o mercado ao Estado, ignorando que “também o liberismo é uma ‘regulamentação’ de caráter estatal, introduzida e mantida por via legislativa e coercitiva”[1]. Além disso, para Gramsci, a distinção entre estrutura e superestrutura é de caráter “metodológico”, tanto que a “metáfora arquitetônica”, em certo momento, cede o passo a outras conceituações.

*Giuseppe Vacca, Modernidades alternativas. O século XX de Antonio Gramsci, Brasília/ Rio de Janeiro: FAP/ Contraponto, 2016, p. 267


[1] A. Gramsci, Quaderni del carcere, cit., p. 1592.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Com novos pretextos, Trump renova ameaça de tarifaço

Por Folha de S. Paulo

Casa Branca recorre a argumentos como corrupção e Pix para outra ofensiva protecionista contra o Brasil

Ataque comercial será inevitavelmente utilizado como arma eleitoral; espera-se que governo Lula acione diplomacia para mitigar as medidas

Movido por crenças equivocadas, o governo de Donald Trump novamente ataca parceiros comerciais com ameaça de novas tarifas.

Em mais um capítulo da sua cruzada protecionista, a Casa Branca agora mira o Brasil com medidas que, se não têm o caráter de chantagem política explícita do tarifaço de 2025, não deixam de revelar uma estratégia de hostilidade sistemática.

A investigação da chamada Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, aberta em julho do ano passado e recém-concluída, é o principal instrumento dessa nova ofensiva, que pode resultar em impostos de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros.

Segundo a consultoria MB Associados, o impacto recairia sobre 27% das exportações nacionais para os Estados Unidos —cerca de US$ 9,5 bilhões dos US$ 37,7 bilhões exportados para o parceiro comercial em 2025.

Lula reage ao realismo internacional, por Carlos Alexandre de Souza

Correio Braziliense

É improvável que as preocupações de Lula em relação ao multilateralismo produzam impacto na corrida eleitoral. Será mais importante mostrar o que o governo brasileiro tem feito para dirimir as ameaças tarifárias

Na abertura da reunião ministerial no Palácio do Planalto, o presidente Lula voltou a abordar um problema crônico nas relações internacionais: a crise do multilateralismo. O chefe do governo brasileiro considera fundamental uma mudança na ordem mundial, marcada pela ação unilateral de grandes potências, de modo a alimentar sucessivas crises e guerras.

Lula pretende renovar o alerta para a crise do multilateralismo em breve — possivelmente, em 15 de junho. "Eu nem ia ao G7. Agora eu vou. Porque é preciso alguém tentar colocar ordem nessa coisa que está acontecendo de desmonte do multilateralismo, desmonte da democracia e desvalorização das instituições. Se a ONU não está funcionando hoje, não é destruindo a ONU que a gente vai consertar o mundo. É fortalecendo a ONU", argumentou o presidente.

Quem politizou o comércio exterior, por Míriam Leitão

O Globo

Há muitas digitais nas taxações impostas pelos Estados Unidos ao Brasil. O candidato do PL tenta, em vão, se desvencilhar

A sucessão dos eventos deixa claro que essa nova guerra tarifária está vinculada à família Bolsonaro e ao lobby feito por eles. O presidente Donald Trump, antes de anunciar o primeiro ataque, em julho do ano passado, acusou o Brasil de estar fazendo uma suposta “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro. Na época, Eduardo Bolsonaro poescreveu em rede social: “Obrigado presidente Donald J. Trump”. Nesta semana, entre o primeiro e o segundo anúncio de sanções contra o Brasil, Trump postou a foto do encontro com Flávio Bolsonaro. Há muitas digitais. O candidato do PL tenta, em vão, se desvencilhar.

O que será? Por Merval Pereira

O Globo

Lula ganhou de presente o tema da “traição da pátria” e os ataques do governo dos Estados Unidos ao Pix

A questão de “traição da pátria” volta e meia entra na discussão política porque a globalização coloca quase diariamente diante dos líderes de governos questões delicadas que não se limitam mais a seus países, mas à geoeconomia expandida. Os bolsonaristas são críticos da globalização, mas se colocam à disposição do governo dos Estados Unidos na maioria das situações. O mesmo acontece com o próprio Trump: assumiu o governo dizendo que não meteria o país em novas guerras, mas só faz isso. A globalização que tanto critica é a razão de acionar a metralhadora giratória para todos os lados.

Governo dos EUA tenta dar uma mãozinha à oposição , por Julia Duailibi

O Globo

É verdade que algumas, isoladamente, não são um ato contra o Brasil. É o caso das tarifas de 12,5% para quem importa mercadorias de locais que usam trabalho forçado

As últimas 48 horas esfriaram a relação, que parecia caminhar pelos trilhos da racionalidade, entre Brasil e Estados Unidos. Depois da insensatez da Lei Magnitsky e afins, promovida pelo escritório avançado do bolsonarismo em Miami, Lula e Trump puseram as coisas nos eixos e passaram a negociar uma pauta comercial concreta. Na reunião entre eles em Washington, em maio, o Brasil dizia cobrar dos americanos tarifa média de 2,7%, e os americanos rebatiam dizendo que era cerca de 12%. Uma divergência dentro das regras do jogo. Lula e Trump mandaram suas equipes ir para casa resolver a pendenga, e tudo parecia correr bem. Até que a conversa descarrilou.

Afagos e pontapés, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Lula mal cabe em si no papel de que mais gosta, o de grande estadista mundial, no qual sua torrente incessante de palavras contrasta com seus efeitos práticos – ou seja, a capacidade de realizar o que diz. Mas é o papel que seus adversários insistem em dar-lhe de presente.

Jair Bolsonaro nunca teve inteligência estratégica, vide onde foi parar. Seus dois filhos conseguem ser piores. Enxergam em Donald Trump uma espécie de Guia Genial da superpotência americana, cuja condição de hegemonia planetária ele se empenha em diminuir.

Em relação ao Brasil, porém, os interesses de Trump estão definidos. Somos um tipo de peão fornecedores de commodities, especialmente as de importância geopolítica, e irritantes cerceadores das atividades de empresas americanas (ênfase no setor financeiro e digital) que precisam ser disciplinados.

Intervenção sem tiro nem bomba, por Carolina Brígido

O Estado de S. Paulo

Medidas de Trump mudam foco do debate para beneficiar Flávio e dificultar reeleição de Lula

Sem tiro nem bomba, os Estados Unidos iniciaram uma intervenção política no processo eleitoral brasileiro. Se o assunto da semana passada era a fortuna que Flávio Bolsonaro recebeu do Banco Master para financiar uma cinebiografia do pai, as manchetes agora se ocupam de decisões de Donald Trump que miram a popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva – o principal concorrente de Flávio na disputa.

Parte da cúpula do Judiciário considera que a classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas foi o primeiro passo na interferência dos EUA nas eleições deste ano, porque prende Lula a uma saia justa: se clamar pela soberania nacional, pode ser interpretado como defensor de bandido.

Lições de um Nobel no Fórum de Lisboa, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

A novidade do professor Mokyr está no avanço teórico em relação aos novos institucionalistas

Joel Mokyr é professor da Northwestern University e vencedor do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 2025. Seus estudos avançaram enormemente nos temas: desenvolvimento econômico, instituições e inovação tecnológica. A questão central que o motiva é: como aumentar a prosperidade num contexto de inovações tecnológicas, cujo ritmo é exponencial.

A 14.ª edição do Fórum de Lisboa, iniciativa por vezes tão criticada por setores viciados da imprensa e da opinião pública no Brasil, trouxe o professor Mokyr para uma palestra magna no último dia do evento. Foi uma oportunidade única para ouvir e registrar as lições de uma das mentes mais privilegiadas do mundo. A mesa foi mediada pelo próprio ministro Gilmar Mendes e pela presidente da Confederação Nacional das Instituições Financeiras (Fin), Cristiane Coelho Galvão.

Subserviência dos Bolsonaros a Trump é inimiga do país, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Não é da natureza do Brasil um alinhamento incondicional a nenhuma potência

Flávio Bolsonaro expôs sua absoluta ignorância sobre as relações entre Brasil e EUA

Ainda não se conhecem as consequências da decisão do governo Trump de incluir o PCC e o Comando Vermelho nas listas de Grupos Terroristas Especialmente Designados e de Organizações Terroristas Estrangeiras. O duplo enquadramento soma sanções financeiras a medidas penais e restrição migratória.

Em consequência, o combate às facções deixa de ser problema policial do Brasil e passa a ser questão de segurança nacional dos Estados Unidos, abrindo brechas para sanções e ações unilaterais —como operações secretas ou mesmo o uso de força militar— fora do controle brasileiro.

Especialistas se dividem quanto à extensão do dano que aquela medida unilateral poderá trazer para a cooperação policial entre os dois países, já bem estabelecida há tempos, bem como para o setor financeiro e para empresas nacionais que operam nos Estados Unidos.

Vai chover no feriado e em Vorcaro, Flávio, Lula, na Bolsa, no petróleo e no Neymar; ou não, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Previsões para o destino de política e economia vão se desfazendo, como de costume

Prever é preciso, mas se presta menos atenção a problemas de fundo e menos noticiosos

O Ibovespa chegaria aos 200 mil pontos em maio —está perto de 170 mil. O "investidor estrangeiro", não raro brasileiro com dinheiro lá fora, não estaria dando a mínima para a eleição. A delação de Daniel Vorcaro seria explosiva e "tirava o sono de Brasília", que dorme com Vorcaro e vorcarettes.

A negociação do governo brasileiro com o americano derrubaria o "tarifaço", dadas a "química" de Donald Trump com Luiz Inácio Lula da Silva e as ações da diplomacia pública e privada do Brasil.
Levaria tempo para Flávio Bolsonaro alcançar Lula nas pesquisas. Flávio ultrapassaria Lula em breve. Flávio seria um Bolsonaro "moderado".

As digitais bolsonaristas no novo tarifaço, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

Gênese do atual ataque dos EUA ao Brasil está bem descrita na carta que Trump enviou ao presidente Lula

Republicano dissolveu as fronteiras entre política e economia na relação do Brasil com os EUA; não será Flávio que conseguirá redesenhá-las

O senador Flávio Bolsonaro tenta se dissociar da proposta de um novo tarifaço dos Estados Unidos, mas o movimento eleitoral do pré-candidato à Presidência carece de verdade histórica.

gênese do ataque dos Estados Unidos à economia brasileira está bem descrita na carta que Donald Trump enviou ao presidente Lula em julho do ano passado, para anunciar uma sobretaxa de 50%.

Dizia o texto, logo no 1º parágrafo: "Conheci e tratei com o ex-presidente Jair Bolsonaro, e o respeitava muito, assim como a maioria dos outros líderes de países. A maneira como o Brasil tem tratado o ex-presidente Bolsonaro, um líder altamente respeitado em todo o mundo durante seu mandato, inclusive pelos Estados Unidos, é uma desgraça internacional. Este julgamento [no STF] não deveria estar acontecendo. É uma caça às bruxas que deve terminar IMEDIATAMENTE!"

Arminha de Flávio com Trump acerta no Brasil e ameaça Pix, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Irmãos Bolsonaro usam Casa Branca para atingir Lula, mas tentativas vão saindo pela culatra

Bajulação bolsonarista contempla doutrina Donroe que quer nos transformar em quintal dos EUA

Depois de quase um ano de investigações, o escritório de representação comercial dos Estados Unidos apresentou suas conclusões em documento que propõe novas tarifas sobre exportações brasileiras e condena o Pix.

A manifestação do governo de Donald Trump, personagem deletério bajulado por Eduardo e Flávio Bolsonaro, cita 20 vezes a plataforma eletrônica de transações financeiras criada pelo Brasil e adotada de maneira eficaz, democrática e popular pelo Banco Central.

Os filhos do capitão golpista, condenado e preso, vêm tramando com a potência estrangeira modos de atingir o presidente Lula, mas na realidade estão acertando o Brasil, sua economia, dignidade e soberania. No afã de abafar seus escândalos e tentar ganhar simpatias eleitorais, puxam a arminha, mas o tiro parece estar saindo pela culatra.

Aprenda de uma vez, 01, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro acha que, ao dizer 'Nada a ver! Zero!', ele fará a realidade desaparecer

Mas a matemática, que não falha, ensina que um número elevado a zero é sempre igual a 1

Uma das glórias da matemática é a história de que um número elevado a zero é sempre igual a 1. Como pode? Não faz sentido. É algo que, para nós, leigos, alunos relapsos ou miseravelmente formados em humanas, parece absurdo. No entanto, se tivéssemos prestado atenção à aula onde se ensinou o conceito em vez de ficar olhando para as pernas da professora, veríamos como a questão é simples e coerente. Não vou me deter a explicá-la aqui, nem tenho autoridade para isso, mas vá por mim: qualquer número elevado a zero é 1 mesmo. E não só na matemática, como a família Bolsonaro deve estar descobrindo.

Congresso beneficia estupradores de crianças, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Em menos de 2 minutos Senado derrubou resolução do Conanda

Vítimas de estupro poderão ter gestação forçada enquanto seus abusadores continuarão impunes

Em sessão na terça-feira (2) que durou exatamente 100 segundos, o Senado aprovou um projeto que protege estupradores de crianças e adolescentes. Exagero eu dizer isso? Não para quem conhece a realidade dos abusos sexuais contra vulneráveis. Ao dificultar o acesso ao direito que crianças e adolescentes possuem há décadas de interrupção da gravidez em casos de violência sexual, o Senado facilita que crianças sejam mães.

Dois caminhos e um só autoritarismo, por Ivan Alves Filho*

Volta e meia escrevo sobre a natureza do fascismo, buscando entender este fenômeno em seus múltiplos aspectos e que novamente parece ameaçar a Democracia. Hoje, dou continuidade a esta reflexão, debruçando-me a respeito das duas vias de acesso ao autoritarismo e ao próprio fascismo.

Quando pensamos em autoritarismo e perda das liberdades na América Latina, no pós-guerra, sobretudo, temos imediatamente o modelo do golpe militar na cabeça. Assim, podemos citar o Brasil de 1964, o Chile de 1973 e a Argentina de 1976, exemplos quase acabados disso. Recorrendo quase sempre à violência, esse tipo de intervenção destrói as instituições de fora para dentro, digamos assim.