segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ilusão estatística pode mascarar violência maior

Por O Globo

Homicídios caíram 21%, mas houve salto de 26,5% em desaparecimentos, despertando suspeita sobre os dados

É muito provável que as estatísticas sobre violência no Brasil estejam subestimadas. O alerta foi dado pelo aumento na quantidade de “desaparecidos”. Há cinco anos vive-se um período auspicioso de queda nos homicídios. De 2021 a 2025, houve redução de 20,2%, para 31.448, segundo o Sinesp, plataforma de dados de segurança pública do Ministério da Justiça. A taxa de assassinatos por 100 mil habitantes caiu de 18,7 para 14,7. No mesmo período, aumentou o contingente de desaparecidos. Os dados do Sinesp mostram que eles passaram de 67.362 para 85.233, ou 234 por dia, um salto de 26,5%. A taxa por 100 mil habitantes subiu de 32 para quase 40. O dado levanta a suspeita de que muitos assassinatos sejam classificados como desaparecimentos, provocando uma ilusão estatística nas taxas de homicídio.

Moderação mira nos indefinidos por 1º turno, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Em 1h13 min de discurso Lula não menciona “soberania” uma única vez e diz que idade favorece reconhecimento de erros e omissões

Ao ser oficializado como candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terceirizou o discurso da soberania para o vice, Geraldo Alckmin (“a urna é tão competente que não aceita voto de argentino e americano”). Não foi por falta de tempo. Lula falou, sem teleprompter, apenas com pontos de um roteiro anotados em uma folha de papel, durante uma hora e 13 minutos.

Preferiu focar na defesa das mulheres (“homem que bate em mulher não precisa votar em mim”), na comparação com Pelé (“ele disputou quatro copas e esta é minha sétima”) e no reconhecimento de seus erros e omissões (“Peço desculpas pelos erros que cometi e pelo que deixei de fazer”).

Lula e Flávio chegam à reta final das convenções sem ampliar alianças, por César Felício

Valor Econômico

Neutralidade dos partidos do Centrão é uma das principais características desta eleição presidencial

Em 2022, apenas 69 deputados pertenciam a partidos que não lançaram e nem apoiaram nenhum dos candidatos a presidente da República. Neste ano, salvo algum movimento de última hora, serão 178. A decisão dos partidos do Centrão de se ausentar da eleição presidencial é uma das principais características desta sucessão. Nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu ampliar a sua frente, nem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) conseguiu a adesão de partidos que compuseram o governo do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e nem as demais candidaturas presidenciais de direita, como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), saíram do isolamento.

São Paulo e Pernambuco, prévia para o futuro? Por Bruno Carazza

Valor Econômico

Eleições para governador apontam para novos rumos da política brasileira

Antes de iniciar a leitura, deixo aqui um alerta: esta coluna em particular contém alta dose de “wishful thinking”, aquele desejo íntimo do autor que às vezes contamina a análise racional dos fatos.

Caminhamos para a terceira eleição seguida em que se colocam frente a frente os dois líderes mais populares do Brasil pós-ditadura. Embora só tenham se enfrentado diretamente em 2022, Lula e Bolsonaro mediram forças em 2018, com Haddad assumindo o lugar do líder petista, que estava preso. Em 2026, os papéis se invertem; com Jair em prisão domiciliar, é Flávio quem substitui o pai nas urnas que eles próprios contestam.

Piora o desequilíbrio das contas públicas, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Um ajuste fiscal também exige redução de gastos com saúde e educação e corte substancial nas emendas parlamentares

Quando o arcabouço fiscal foi lançado, em agosto de 2023, comentamos aqui que o novo sistema só alcançaria o equilíbrio das contas públicas com forte aumento da arrecadação tributária. Pois o governo conseguiu significativo aumento das receitas — e, mesmo assim, a dívida entrou numa trajetória de alta. A despesa cresceu ainda mais que a receita.

De acordo com dados divulgados pelo Banco Central (BC) na última sexta-feira, a dívida bruta de todos os níveis de governo (federal, estaduais e municipais) alcançou em junho R$ 10,8 trilhões, o equivalente a 81,9% do PIB. Subiu R$ 190 bilhões só em maio. Para comparar: o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) recomenda que países emergentes como o Brasil tenham dívida em torno de 40% do PIB.

O discurso que Lula não fará, por Demétrio Magnoli

O Globo

“Trump pretende dobrar o Brasil. Fracassará. Meu governo decidiu encarar o tarifaço como oportunidade de modernização econômica. Movemo-nos pelo interesse nacional, não pelo interesse eleitoral.

Desisti do programa Brasil Soberano. Os setores tarifados abrangem, largamente, a ‘indústria Paulo Skaf’: empresas pouco competitivas, historicamente protegidas. Não receberão subsídios do governo. Concedê-los seria ampliar a dívida pública, pressionando ainda mais a taxa de juros. Não agiremos como seguradora de empresários, transferindo-lhes a renda do povo em nome do protecionismo.

Deixemos o protecionismo para Trump. Nosso caminho é o inverso: como fizeram Indonésia e Vietnã, baixaremos taxas alfandegárias para estimular a importação de bens de capital e insumos, impulsionando a modernização industrial.

É preciso saber onde nasce o ressentimento do eleitor, por Preto Zezé

O Globo

Eleição será decidida por quem conseguir devolver ao trabalhador a sensação de que vale a pena acordar cedo

Por que tanta gente anda votando com raiva? A política brasileira continua procurando a resposta nas estatísticas, quando ela está no ônibus lotado, na fila do posto de saúde e na mesa de quem trabalha, mas não fecha as contas. Quem olha apenas para os indicadores encontra motivos para comemorar. O desemprego está em 5,4%. Mas basta conversar com quem dirige por aplicativo, vende comida na rua, faz entregas de bicicleta ou acumula dois ou três trabalhos para perceber que há outro Brasil, onde o emprego voltou, mas a tranquilidade não.

Quem controla a burocracia? Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

As regras criadas para controlar servidores fortalecem sua influência

Por que governos tão diferentes quanto os de Bolsonaro e de Lula acabaram entrando em conflito com as mesmas burocracias do Estado?

Bolsonaro acusou o Ibama de travar o desenvolvimento, confrontou a Anvisa na pandemia e frequentemente atribuiu aos servidores de carreira a resistência às suas políticas. Lula, por sua vez, criticou o Banco Central pela condução da política monetária, contestou pareceres técnicos da área econômica e também entrou em atrito com órgãos ambientais e agências reguladoras em torno de projetos considerados prioritários pelo governo.

A explicação mais comum é ideológica. Mas ela é insuficiente. Há uma razão institucional para que governos de orientações tão distintas esbarrem nos mesmos atores. Nas últimas décadas, democracias passaram a exigir que decisões públicas fossem justificadas por estudos técnicos, análises de impacto, consultas públicas e pareceres especializados. Ao exigir justificativas técnicas, o sistema fortaleceu justamente quem produz essas justificativas.

Lula expõe dilemas do legado e da sucessão em discurso, por Igor Gielow

Folha de S. Paulo

Na convenção do PT, presidente de 80 anos surge como político buscando manter relevância e inovação

Petista sugere Haddad como herdeiro, mas cita condicionantes difíceis de serem cumpridas pelo aliado

Naquele que deve ser seu último discurso aceitando uma candidatura à Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva expôs sua condição de líder da esquerda brasileira que busca manter relevância enquanto lida com a noção de legado e a falta de uma sucessão organizada.

Na convenção do PT neste domingo (2) em São Paulo estava o narcisista usual dos palanques. A primeira metade de sua fala, de improviso, abusou do tom íntimo e autocentrado do "Lulinha da dona Lindu", que tudo venceu.

A hagiografia acompanha a carreira do petista, de resto única. Até uma foto sua como criança foi parar na camiseta de Janja, primeira-dama resgatada pelo marido do papel de acessório de palco —uma escorregada da organização, admoestada pelo próprio presidente.

Meritocracia na base e patrimonialismo no topo, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Profissionalização da base da burocracia pode coexistir com a patrimonialização de seus centros de comando

Mas o que ainda se observa em nosso país são estruturas patrimoniais e familistas

Temos assistido a uma erosão sustentada da capacidade de Estado em nosso país. Em termos comparativos, nós tivemos uma trajetória relativamente bem-sucedida, embora incompleta, de insulamento de certos setores da administração pública em relação à política partidária, ao familismo e ao patrimonialismo.

Uma das peças dessa trajetória tem sido a disseminação dos concursos públicos. O Brasil foi o primeiro país na América Latina a instituir o concurso público (1936) como forma de ingresso para carreiras no governo federal. Na área da diplomacia, os concursos datam de 1919.

A pasteurização do negro, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Identidade é algo que se manifesta pela consciência da diferença de um indivíduo em relação ao outro

Essa negação da alteridade aos negros não é uma exclusividade da imprensa

Cresci ouvindo causos sobre as incontáveis vezes em que pessoas da minha família foram confundidas umas com as outras. As histórias sobre essas reiteradas trocas de identidade acabavam sempre com o comentário "muita gente acha que todo preto é igual".

Essa é uma situação que reflete uma das características do racismo: o apagamento de identidades negras. Coisa que alcança não só cidadãos comuns, mas também figuras públicas, artistas, atletas, magistrados, intelectuais...

O ‘Possesso’ esquecido, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

No Brasil, nem sempre basta a um jogador ser campeão do mundo para continuar lembrado

Os gols de Amarildo, herói de 1962, valem menos que os 19 minutos de Vampeta em 2002

Deu no Globo. Amarildo, meia-esquerda da seleção na Copa do Mundo de 1962, no Chile, está internado há três anos no Hospital Copa Star. Tem 87 anos. Sua saúde começou a decair em 2011, quando a radioterapia para um carcinoma de laringe atingiu a região cerebral. O diagnóstico de Alzheimer veio em 2018. Desde então, Amarildo sofreu três AVCs, está cego e é alimentado por sonda gástrica. Sua internação é acompanhada por sua família e mantida por um plano de saúde da CBF.