domingo, 16 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Violência contra mulher resiste a avanços legislativos

Por O Globo

Nos 20 anos da Lei Maria da Penha, feminicídios e estupros em alta ainda impõem desafio à sociedade

Aos 20 anos, a Lei Maria da Penha se consolidou como uma das maiores conquistas no combate à violência contra a mulher no Brasil: de janeiro a junho, houve 596 mil novas ações baseadas nela, e a Justiça concedeu 337 mil medidas protetivas, ou duas por minuto, de acordo com levantamento do Conselho Nacional de Justiça revelado pelo GLOBO. O volume de processos instaurados no ano passado passou de 1 milhão, 74,4% acima de cinco anos atrás e número mais alto na série histórica. Mas infelizmente isso não tem bastado para debelar a chaga. Os 1.571 feminicídios cometidos em 2025 também representaram um recorde, e os estupros aumentaram 72% em dez anos — só no ano passado, houve um caso a cada seis minutos.

Mesmo se Flávio perder, direita Master deve ganhar todo o resto, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Como já amplamente demonstrado nesta coluna, caso foi o petrolão da direita

Público pode achar que Lulinha fazendo lobby na Saúde é comparável ao maior escândalo financeiro do Brasil

As forças políticas que roubaram com o Master, tentaram salvar o Master e receberam dinheiro do Master devem ser as grandes vencedoras da eleição deste ano.

Talvez não consigam eleger Flávio Bolsonaro presidente. Mas devem ganhar o resto. E, mesmo se Lula vencer, terá que fazer acordos com eles.

Como já amplamente demonstrado nesta coluna, o Banco Master foi o petrolão da direita. A prevalência de direitistas entre os envolvidos é esmagadora. A direita roubou muito mais com o Master, ganhou muito mais dinheiro do Master e tentou salvar o Master praticamente sozinha.

Se algum jornalista ou político de direita quiser discutir esses números em público, será um prazer.

Lixão de cacarecos em órbita, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Começou com o humilde Sputnik em 1957; hoje há mais de 1 milhão de objetos no espaço

Uma arruela de 2 centímetros, voando a 28 mil quilômetros por hora, pode esburacar uma nave

Começou em outubro de 1957, quando a URSS botou no espaço o Sputnik, o primeiro satélite artificial. Dava 15 voltas por dia ao redor da Terra e, quando passava sobre os EUA, seu "bip-bip" —o único som que emitia— era captado pelos radioamadores e aterrorizava os ingênuos americanos. Um mês depois, em novembro, antes que os EUA pudessem respirar, a URSS mandou outro, o Sputnik 2, tendo a bordo uma infeliz cachorrinha vira-lata, Laika, que não sobreviveu para contar. Os EUA, já com 2 a 0 contra, lançaram o deles em janeiro de 1958, o Explorer, e logo depois equilibraram o jogo. Começava a guerra nas estrelas, com um infernal disparo de satélites.

Brasil descobre mais petróleo e torra o dinheiro como se não houvesse amanhã, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Receita petrolífera do governo cresce, mas investimento produtivo cai e dívida explode

Mesmo com mais descobertas, falta de regras prejudica crescimento e investimentos para gerações futuras

Parece que há petróleo no mar diante e distante da costa do Amapá e do Pará, chamado de bacia da Foz do Amazonas, disse a Petrobras. Vai levar tempo para saber quanto petróleo explorável há por ali. Pode bem ser que exista mais petróleo em toda a Margem Equatorial (o mar diante de Norte e parte do Nordeste) e na Bacia de Pelotas.

Caso exista petróleo na Foz do Amazonas, vai levar tempo para que comece a ser extraído (uns sete anos). Ainda assim, diminuiria o risco ora previsto de que, a partir de 2031, por aí, comece a diminuir a produção petroleira do Brasil.

Seja como for, a disposição política quase geral é de gastar em despesa corrente o dinheiro que os governos recebem com impostos, dividendos, royalties, participações e outras rendas petrolíferas.

O país já torra a receita crescente de petróleo ou se endivida com base na ideia de que tal receita é regular e permanente. O futuro que se dane.

Um cacique contra tempestades, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Acordo entre Prefeitura do Rio e Fundação Cacique Cobra Coral desperta troll das redes sociais

Pretensão à racionalidade absoluta é contradição em todo fiel religioso

Publicado no Diário Oficial, um acordo entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Fundação Cacique Cobra Coral despertou o troll das redes sociais. No caso, a trollagem é máscara pública do senso comum quando se trata do sobrenatural popular, fora do escopo oficial. Para o melhor juízo, é perfeitamente natural o sobrenatural da religião (católica, evangélica, islâmica), não qualquer outro que se candidate à crença. O "creio porque é absurdo", relativo à ressurreição de Cristo, vigora até hoje, desde a sua sugestão por Tertuliano (155-220). Absurdo ("ineptus", em latim), com o sentido de não racional, tem dono teológico.

Confraria de interesses se une a Lula, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Comandantes do Congresso, centrão e parte do STF jogam fichas na reeleição de olho em garantias

Kassab disse alto o nome de um jogo perceptível, mas que estava sendo jogado com discrição

Gilberto Kassab (PSD) revelou um segredo de polichinelo quando disse que "o centrão está com Lula". Quem não sabia disso passou a desconfiar a partir das digitais do Palácio do Planalto nas declarações de neutralidade de partidos como PPUnião BrasilRepublicanos, Podemos e MDB.

A certeza veio pela voz do ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), na saída do segundo encontro entre Luiz Inácio da Silva (PT) e Davi Alcolumbre (União) depois de três meses sem se falarem.

A Última Democracia, por Vagner Gomes*

Dedico aos alunos José Gabriel, Cassiano Salvador e Vanderson Braga, da Rede Estadual de ensino, que me ajudaram a pensar na necessidade de elaborar esse texto.

"Por outro lado, a missão da qual Cristo nosso Salvador encarregou seus apóstolos e discípulos foi de proclamar seu Reino, não presente, mas vindouro; e ensinar a todas as nações; e batizar aos que acreditassem; e entrar nas casas dos que os recebessem; e quando não fossem recebidos, sacudir contra eles a poeira de seus pés, mas não invocar o fogo dos céus para destruí-los, nem obrigá-los à obediência pela espada. Em tudo isto nada há de poder, mas apenas de persuasão. Ele enviou-os como ovelhas entre lobos, não como reis entre seus súditos. Eles não tinham a missão de fazer leis, mas a de obedecer e ensinar obediência às leis existentes; consequentemente não podiam fazer de seus escritos cânones obrigatórios, sem a ajuda do poder civil soberano. Portanto, as Escrituras do Novo Testamento só se tornam lei quando o poder civil legítimo assim as torna. E nesse caso o rei ou soberano também faz delas uma lei para si mesmo, com o que se sujeita, não ao doutor ou apóstolo que o converteu, mas ao próprio Deus, e a seu Filho Jesus Cristo, de maneira tão imediata como o fizeram os próprios apóstolos." (Thomas Hobbes – Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil.)

O vai e vem das pesquisas, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

A explicação para a dança dos números que se observa nas pesquisas envolve muitas variáveis, mas uma delas é estrutural: o eleitorado está se comportando de uma forma que torna o resultado mais imprevisível

Já começamos a temporada de intensificação das pesquisas de intenção de voto. Ao longo dos últimos pleitos, uma maior variabilidade de resultados encontrados entre os diferentes institutos de pesquisa tem sido observada de forma mais frequente, além da ampliação do número de institutos operando. Afinal, para que servem as pesquisas e por que os números têm nos parecido tão instáveis?

Avaliar as intenções do eleitorado e mapear a sua evolução ao longo das campanhas é algo importante em uma eleição. Os números nos permitem observar não apenas quem está numericamente à frente, mas movimentos de crescimento, queda, estabilidade, rejeição, indecisão e transferência de votos.

Opinião do dia – Hannah Arendt*

“Hoje sabemos que Platão e Aristóteles foram a culminação, não o início, do pensamento filosófico grego, cujo voo se iniciou quando a Grécia atingiu ou estava prestes a atingir o seu clímax. O que permanece verdadeiro, porém é que Platão e Aristóteles vieram a ser o início da tradição filosófica ocidental e que esse início, diferentemente do início do pensamento filosófico grego, ocorreu quando a vida política grega já se aproximava realmente do seu fim. Talvez não exista em toda a tradição do pensamento filosófico, e em particular do pensamento político, um fator de importância e influência tão avassaladora sobre tudo o que viria depois do que o fato de Platão e Aristóteles terem escrito no século IV a.C. o pleno impacto de uma sociedade política decadente.

Surgia assim o problema de como o homem, se tem de viver numa polis, pode viver fora da política. Esse problema, que por vezes apresenta uma estranha semelhança com a nossa própria época, muito rapidamente se converteu na questão de como é possível viver sem pertencer a nenhuma comunidade politicamente organizada, vale dizer, em condições de apolitismo ou o que diríamos em condições de não-cidadania. Ainda mais sério foi o abismo que imediatamente se abriu, e desde então nunca mais se fechou, entre pensamento e ação. Todo pensamento que não seja o mero cálculo dos meios necessários para se obter um fim pretendido ou desejado, mas se ocupe do significado no sentido mais geral, veio a desempenhar o papel de um ”pós-pensamento”, isto é, um pensamento posterior à ação que decidiu e determinou a realidade. A ação, por sua vez, foi relegada à esfera sem significado do aleatório e do fortuito. “

*Hannah Arendt (1906-1975). ‘A promessa da política’, pp.45-6, Difel, Rio de Janeiro, 2008.