segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O que quer o eleitor? Por Irapuã Santana

O Globo

Sobra muito pouco tempo e energia para refletir e buscar informações sobre candidaturas nas eleições

O primeiro turno das eleições passou e, com ele, foram escolhidos os novos representantes da população no Legislativo. Tivemos recordes de votos à direita e à esquerda. Os campeões de votos para a Câmara foram Nikolas Ferreira, com 3.119.318 votos, seguido por Lucas Pavanato, com 3.038.438, e, fechando o pódio, Erika Hilton, com 1.596.472.

São candidaturas com pautas específicas que não necessariamente aderem, à primeira vista, àquelas questões frequentemente apontadas pelo povo como suas maiores preocupações, tais como violência, saúde, corrupção, pobreza e educação. Nenhum dos três campeões se destaca por algum desses elementos. Ficam mais centrados nas pautas dos costumes e da identidade.

O voto, esse traidor, por Miguel de Almeida

O Globo

A identidade não determina a ideologia. Parece óbvio, menos para parte da esquerda, para quem a frase soa como alta heresia. Repetiu-se por anos, sem direito a réplica, que a defesa de minorias e desvalidos equivalia a falar por eles. Negava-se, assim, o fato de que entre mulheres, negros e pobres havia conservadores. As urnas dizem que eles existem e votam, fazendo-se ouvir. O primeiro turno acendeu o farol.

Não se pode confundir posição social com consciência política. São coisas distintas, embora o identitarismo mais pedestre tenha sempre misturado os conceitos. O resultado das eleições para o Congresso mostra que a esquerda pode ter confundido a defesa de grupos minoritários ou perseguidos com o alinhamento automático a sua visão de mundo. Não é bem por aí; sem catequese, por favor. No quesito, a História traz exemplos melhores.

A caminho de um estelionato eleitoral, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Nenhum candidato se arriscará a falar de ajuste, e o eleito só se ocupará do problema depois da posse

O eleitor que acompanha o noticiário sobre as eleições certamente já topou com reportagens e opiniões a respeito do ajuste das contas públicas. Mas quem acompanha apenas os programas partidários e as declarações dos candidatos só encontra dois tipos de mensagem, que podem ser assim resumidos: o adversário é uma porcaria; e o próximo governo será muito bom para todos.

Há um certo consenso entre analistas, políticos e marqueteiros neste ponto: ajuste de contas, também conhecido como ajuste fiscal, será muito importante para o governo, qualquer governo, mas nunca será tema de campanha. Por dois motivos: o tema é complicado; e só trata de maldades.

Personalidade autoritária e extrema direita, Luiz Carlos Bresser-Pereira

Folha de S. Paulo

Legitimação que cada um dá a si próprio para essa atitude política é superficial

É, também, suficientemente rasa para que o regime não se instaure ou não perdure

A personalidade autoritária é um tema que há muito me interessa como problema de teoria política relacionada com a psiquiatria e a psicanálise. Até hoje, porém, não encontrei sobre o tema um texto que me satisfizesse, que abrisse novas perspectivas sobre a questão.

Confesso que fiquei decepcionado quando li o livro de Theodore Adorno (1950) "Estudos sobre a Personalidade Autoritária". Esperava uma análise psicológica e político-filosófica e o que encontrei foi antes uma análise político-jurídica sobre o fascismo, dado que se baseou em uma pesquisa na qual Adorno contou com cientistas políticos e juristas americanos da Universidade de Berkeley (Califórnia, EUA).

A personalidade autoritária é uma questão que deveria ser estudada pela psicologia e suas diversas ramificações como a psicanálise e a medicina psiquiátrica. Estou convencido de que ela é um dos impulsos psíquicos mais profundos do ser humano –o impulso para o poder. Todos os homens e mulheres são atraídos pelo poder, pela capacidade de impor sua vontade aos demais.

Centrão quer mudar regras eleitorais após avanço de partidos com identidade ideológica clara, por Lara Mesquita

Folha de S. Paulo

Em 1950, cientistas políticos americanos queriam alterar as normas para ter partidos ideológicos

Em 2026, políticos brasileiros querem mudar regras para não os ter

Em 1950, a Associação Americana de Ciência Política (APSA) publicou o relatório "Toward a More Responsible Two-Party System", que criticava o fato de tanto o Partido Democrata quanto o Republicano serem federações frouxas de máquinas locais, sem programa e sem disciplina. A receita era outra: os partidos deveriam se organizar como partidos nacionais coesos e nitidamente distintos, para que o eleitor soubesse em que estava votando.

Meio século depois, os partidos americanos eram ideologicamente coerentes e disciplinados no Congresso. Em 2007, Nicol Rae fez o balanço num artigo de título irônico: "Cuidado com o que você deseja". Os partidos finalmente se adequavam à demanda dos cientistas políticos, mas o fortalecimento partidário veio acompanhado de polarização e paralisia decisória. Quem pedia partidos ideológicos passou a reclamar deles.

O 'Nordeste vermelho' visto da prefeitura, por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

A topografia política municipal é bem mais diversa do que sugere a votação presidencial

O eleitor nordestino tem o pé em duas canoas também no nível municipal, não apenas na eleição para a câmara federal

Em coluna recente critiquei o mito do "Nordeste vermelho" a partir do resultado das eleições para a Câmara dos Deputados. Retomo aqui a questão, mas com o foco agora nas eleições municipais. Lula perdeu 258 mil votos na região entre 2022 e 2026, uma redução de 1,2%. O Nordeste, no entanto, passou a representar uma parcela maior de sua votação nacional: de 38% para 40%. Mas apenas 9,5% das prefeituras nordestinas foram conquistadas pelo PT em 2024.

Mais importante: a distribuição de prefeituras do PT é excepcionalmente assimétrica e descontínua. Embora quase dois terços dos votos válidos no Maranhão tenham sido para Lula, o partido conquistou apenas duas das 217 prefeituras. Menos de 1%. Quem mais elegeu prefeitos no estado foi o PL. Sim, o partido da direita radical. Na Paraíba, apenas uma no conjunto de 223. No Piauí e na Bahia, o PSD liderou. Em Alagoas, o MDB levou 65 das 102 prefeituras, quase dois terços do total. Em Pernambuco, o primeiro lugar está com o PSDB. Na Paraíba e no Ceará, com o PSB.

Não sei vocês, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Estamos às vésperas da eleição mais importante do resto de nossas vidas

Não podemos correr o risco de perder nenhum dos direitos que conquistamos

Não sei vocês, mas entendo que estamos às vésperas da eleição mais importante do resto de nossas vidas. Em poucos dias iremos definir se queremos um governo que se caracteriza pela defesa dos interesses coletivos e pela priorização do bem-estar social ou um governo associado ao autoritarismo, ao culto à personalidade, à perseguição de minorias e ao desprezo pelo meio ambiente.

Não sei vocês, mas a escolha certa me parece óbvia para quem preza a democracia, a liberdade de expressão, o direito à divergência, o livre pensamento, a justiça social, a equidade de gênero e de raça, a educação pública, a proteção previdenciária e uma série de direitos e garantias conquistados com muita luta e articulação coletiva ao longo de décadas.

Folha, Metrópoles e a lama de Daniel Vorcaro, por Alexandra Moraes - Ombudsman

Folha de S. Paulo

Portal brasiliense nega retaliação por publicação sobre submissão de textos ao então banqueiro

Assessor que aparece sugerindo 'adiar' reportagem afirma que a demanda jamais foi atendida pelo jornal

Numa semana cheia de temas em que a cobertura da Folha merecia críticas (Kassio e Vorcaro, escala 6x1, enchentes em SP) e com um furo importante sobre a Meta nas eleições ("Em mensagens internas, Meta admite que contas de Lula foram prejudicadas por restrições"), o próprio jornal acabou virando assunto, infelizmente.

Na noite da sexta, a Folha soltou um texto com o (longo) título "Metrópoles publica reportagem mentirosa em retaliação a denúncia sobre o site revelada pelo UOL e reproduzida pela Folha".

A denúncia era "Vorcaro editava textos do site Metrópoles antes de irem ao ar". Depois da publicação dela, na quinta (15), o portal brasiliense anunciou que "Daniel Vorcaro pagou R$ 1 milhão para ‘adiar’ e ‘amenizar’ matéria na Folha de S.Paulo". Apesar da formulação, o milhão não foi pago ao jornal, mas ao assessor Guilherme Barros, encarregado por Daniel Vorcaro de tentar reduzir danos que uma reportagem do jornal poderia lhe causar.

Opacidade das big techs no jogo eleitoral, por João Marcelo Sena - Ombudsman

O Povo (CE)

Da mesma forma que a imprensa cobra de agentes públicos uma postura livre de interesses pessoais, deveria ser mais crítica à falta de transparência nos algoritmos

É chover no molhado falar sobre como as redes sociais têm protagonismo como espaço de disputa política. A cada eleição, cresce a influência do ambiente digital naquilo que é pautado pelas campanhas nos principais temas em debate. A semana que começou com um vaivém de decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o canal de WhatsApp “Exército do Lula” terminou com suspeitas de interferência da Meta no pleito.

Em meio à sinuca de bico na qual o Poder Judiciário se colocou ao longo dos últimos meses, cada decisão passa a ser recebida com desconfiança já naturalizada. Diante desse clima de conflagração política nas cortes superiores, chega a ser uma boa surpresa o destaque à notícia de um parecer emitido pela área técnica do TSE. O relatório não apontou para desinformação disseminada no canal, mas fez alertas quanto ao uso de “linguagem polarizadora, que tende a estabelecer uma lógica de confronto” naquele ambiente.