Folha de S. Paulo
Defesa da ditadura e promessa de reabilitar o
pai suscitam dúvidas sobre seu compromisso democrático
Divergências políticas são aceitáveis; o
respeito ao Estado de Direito não é negociável
Certamente não são pessoas como eu que Flávio
Bolsonaro tenta convencer por meio de posts, discursos, sabatinas e
debates. De resto, com a minha aversão ao gregarismo ideológico e o meu natural
ceticismo, não devo mesmo ser o público-alvo de qualquer campanha.
Afinal, meu marxismo é mais o de Groucho Marx
("não entro em clubes que aceitem pessoas como eu") que o de Karl, e
minha abordagem dos candidatos sempre foi mais parecida com a de um consumidor
que com a de um militante apaixonado. E, sim, acredito em coisas que causam
repugnância em quem moraliza excessivamente a política, como votar no menos
pior disponível —sem guardar meu voto para o candidato ideal como quem se
guarda para a mulher da sua vida. Política é outro tipo de negócio.
Dito isso, Flávio Bolsonaro tem fracassado
completamente em dissipar uma inquietação essencial sobre os anos da sua
eventual Presidência: seu compromisso com a ordem liberal-democrática. Não se
trata do vago apelo a "salvar a democracia", de que o lulismo tanto
abusou, confundindo frequentemente a defesa da democracia com a defesa da sua
própria agenda política, como se não pudesse haver democracia fora da esquerda.