sábado, 10 de outubro de 2009

Nobel para uma visão

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, foi premiado com o Nobel da Paz 2009 pelas mesmas razões por que foi eleito 11 meses atrás: sua visão de pretender, a partir da mudança da maior potência mundial, mudar também o mundo e a maneira como ele é governado. Embora não tenha havido mudança fundamental nas posições do governo americano, afinal o país ainda está metido em duas guerras, no que o Comitê norueguês aposta é na mudança fundamental de visão de mundo, que privilegia o diálogo no lugar da força, a visão multipolar no lugar da hegemonia.

Embora não tenha conseguido nesses nove meses de governo nenhuma vitória concreta que, na visão dos céticos, justificasse a premiação, são claras as demonstrações de que Obama continua fiel ao que prometeu em sua campanha.

No dia de sua vitória, escrevi aqui que ele tinha o entendimento de que no mundo moderno não é mais possível ser a primeira potência sem dar espaços para outras potências emergentes que têm papel importante em temas ou setores políticos e econômicos.

Nesse novo mundo diversificado e multipolar, será preciso dividir o poder e pensar políticas públicas que sejam boas para todos, e não apenas para um país.

Foi classificado de fraco quando anunciou o fim do escudo antimísseis projetado no governo Bush para proteger a Europa de eventuais ataques nucleares, especialmente do Irã.

A decisão da revisão desagradou Polônia e a República Checa, que viam a presença militar americana como um meio de proteção contra a Rússia, mas agradou Moscou, que considerava o plano de defesa americana uma ameaça direta, e abriu caminho para a inspeção nuclear no Irã.

Embora não tenha conseguido ainda uma aprovação do Congresso para um plano de redução de emissão de gases de efeito estufa que lidere o mundo na reunião de dezembro em Copenhague, a preocupação da administração Obama com a ecologia e com a utilização de combustíveis renováveis menos poluentes obedece a uma postura universalista, oposta ao egoísmo que prevalecia na política dos Estados Unidos, que levou o presidente Bush a não assinar o Tratado de Kioto, considerado prejudicial aos interesses das empresas americanas.

Esse mesmo egoísmo da sociedade americana faz com que a ampliação do programa de saúde oficial seja recebida com desconfiança por boa parte da população, que teme perder o que já tem com a inclusão de cerca de 25 milhões de pessoas que hoje não têm cobertura de saúde de nenhuma espécie.

Assim como na política interna defende a solidariedade da sociedade, Obama está convencido de que, no plano externo, os interesses americanos só serão atendidos se o interesse da comunidade internacional for também respeitado.

Obama quer mostrar as vantagens da democracia através do exemplo e do respeito ao outro, e não impô-la a outros países através de guerras, como a administração Bush alegava fazer.

O presidente do comitê do Nobel, Thorbjoern Jagland, ressaltou que “como presidente, Obama criou um novo clima na política internacional.

A diplomacia multilateral voltou a ocupar uma posição central, com enfoque no papel que as Nações Unidas e outras instituições internacionais podem desempenhar”.

Num de seus primeiros atos depois de assumir, Obama confirmou o fechamento da prisão de Guantánamo e proibiu formalmente o uso de torturas nas prisões americanas, na certeza de que não é possível defender a democracia e manter esse tipo de prisão, mesmo sob o pretexto de combater o terrorismo.

Transformar os Estados Unidos em um país amado, e não temido, pelo resto do mundo, parece ser a busca de sua gestão, e, no plano interno, ele vem tentando aprovar os principais pontos com o apoio de republicanos, em busca de um governo suprapartidário anunciado em seu discurso da vitória em Chicago.

A “visão” e os “esforços” de Obama em busca de um mundo sem armas nucleares também foram ressaltados pelo Comitê do Nobel, reforçando a relevância política da recente declaração do presidente dos Estados Unidos na ONU.

Os adversários de Obama, especialmente a direita mais conservadora, viram no Prêmio Nobel uma aprovação da “visão socialista” que ele teria levado para o governo dos Estados Unidos.

A crítica mais frequente é de que os europeus, através do Nobel da Paz, querem estimular políticos americanos que tenham ideias que se aproximam da social-democracia europeia, uma acusação a Obama muito comum durante a campanha eleitoral e que agora está sendo revivida com a tentativa de aprovar no Congresso a ampliação do sistema de saúde no país.

Perguntado sobre se também almejaria receber o Prêmio Nobel da Paz, o presidente Lula primeiro respondeu: “Essa coisa não se almeja.” E depois brincou: “O dia em que eu almejar, eu me inscrevo, ou peço um abaixo-assinado”.

Mesmo sem ter pedido, e embora não se tenha dado muito destaque ao fato, o presidente Lula mais uma vez era um dos concorrentes ao Prêmio Nobel da Paz que Obama acabou levando.

O norueguês Stein Tonnesson, diretor do Instituto Internacional para a Investigação da Paz, fez a indicação, fato que foi festejado na ocasião como um indício de que Lula poderia mesmo ganhar.

Lula já esteve cotado para o prêmio por causa do Fome Zero, mas o escândalo do “mensalão” tirou-o do páreo. Este ano, ao receber um dos mais importantes prêmios mundiais para a preservação da paz, dado pela Unesco, ele voltou a ser cogitado.

Outras personalidades que receberam a mesma homenagem, como Nelson Mandela, Yitzhak Rabin, Yasser Arafat e Jimmy Carter foram agraciadas depois com o Prêmio Nobel da Paz.

Lula hoje é uma “persona” política perfeitamente possível de ganhar um Nobel da Paz. Mas não foi desta vez.

Serra faz visita regada a vinho, bode e política

Jorge Cavalcanti
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Mesmo negando caráter eleitoral na viagem, presidenciável do PSDB volta ao Sertão pernambucano, desta vez cercado de aliados. Na programação, almoço no Bodódromo e parada na festa do vinho


PETROLINA – Embora o discurso oficial negue, a agenda é de campanha, repleta de vinho, carne de bode e política. Diferentemente da última visita a Pernambuco, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), cumpre hoje, em Petrolina (Sertão do São Francisco), uma programação extensa, cercado dos maiores aliados no Estado. Pela manhã, o presidenciável tucano conhece o ateliê de Ana das Carrancas, artista, já falecida, que está para Petrolina assim como mestre Vitalino para Caruaru (Agreste).

Da última vez que veio a Pernambuco, em agosto, Serra visitou o Parque Aza Branca desacompanhado, no município de Exu, também no Sertão, para evitar clima de campanha. Desta vez, ele vai com os três senadores do Estado – Jarbas Vasconcelos (PMDB), Marco Maciel (DEM) e Sérgio Guerra (PSDB) – conhecer o ateliê, construído no governo do peemedebista (1999/2006).

A segunda parada será a mais discreta, fechada à imprensa e aos aliados. Acompanhado apenas do prefeito Júlio Lossio (PMDB), Serra visita o Hospital de Traumas. Médico por formação, o prefeito deseja conhecer a forma como as universidades paulistas gerenciam “os melhores hospitais do Brasil”. Por isso, quer manter o encontro longe dos holofotes. Pouco antes do almoço, o tucano vai à casa do ex-deputado Osvaldo Coelho (DEM).

Ao ser indagado sobre a preferência entre Serra e o governador Aécio Neves (MG), o outro presidenciável do PSDB, Osvaldo foi político. “Quem for escolhido tem meu apoio. Isso é problema de tucanos”, disse ele, que cumpriu nove mandatos na Câmara.

Por volta das 12h30, Serra almoça com toda comitiva no Bodódromo, local que reúne bares e restaurantes especializados em bode, prato típico da região. O local também é conveniente para o tucano. Além de representar a culinária local, foi erguido na segunda gestão do ex-prefeito Guilherme Coelho, filho de Osvaldo e pré-candidato a federal. “Tenho o maior orgulho dessa obra”, disse ele, aprovando a escolha do tucano.

À tarde, o tucano verifica de perto as obras do Projeto de Irrigação Pontal, que se arrastam há anos sem conclusão. A expectativa dos aliados é que esta parte da agenda seja a deixa para críticas ao governo federal. Além de Lossio e dos senadores, os prefeitos Leandro Duarte (Santa Maria da Boa Vista) e Rose Garziera (Lagoa Grande) vão estar presentes. Depois, ainda há uma passagem pela vinícula Rio Sol e pelo assentamento em Santa Maria da Boa Vista

FESTA DO VINHO

À noite, o governador tucano vai à décima edição da Feira do Vinho e da Uva do Nordeste (Vinhuva Fest), em Lagoa Grande, onde terá a maior vitrine da quarta visita, este ano, a Pernambuco, arquitetada por Guerra, presidente nacional do partido. O evento serve de termômetro para Serra no corpo a corpo com os eleitores.

A última vez que Serra esteve com Jarbas, Maciel e Guerra foi no arraial na fazenda do tucano, em junho. Tentando quebrar a imagem de sisudo, Serra arriscou cantar um trecho de Asa Branca, na ocasião.

Dura lex? Ora, a lex

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O empenho do governo em manter, a qualquer preço, uma maioria fiel no Congresso, vez por outra suscita comentários desconfiados a respeito da razão de tanto esforço.

Haveria algum plano secreto para mudar a regra do jogo eleitoral na última hora? É o mais comum deles, mas também o que menos se sustenta, pelo menos em face das condições objetivas para tal.

Um motivo bem mais prático pode ser observado agora, quando se inicia na semana que vem uma ofensiva do Palácio do Planalto para afrouxar o rigor da fiscalização sobre obras em andamento e licitações futuras.

São duas as iniciativas. Uma, já posta na Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2010, diz que daqui em diante o Tribunal de Contas da União não poderá mais determinar a paralisação de obras sem autorização do Congresso.

Outra faz parte da proposta de reformulação da Lei de Licitações, já com previsão de votação no Senado, e estabelece prazo de 90 dias de validade para medidas cautelares apresentadas pelo TCU.

Ambas as medidas em última análise transferem ao Congresso um trabalho que é do tribunal. Como o Congresso é hoje quase um carimbador das decisões do Executivo, a fiscalização das obras fica sob a jurisdição do fiscalizado. É um atalho que exibe perfeitamente a razão da sustentação de maiorias a qualquer preço e sob quaisquer mecanismos.

A Lei de Licitações, aprovada no calor da indignação do processo de impeachment do estão presidente Fernando Collor, há muito desperta várias críticas e reúne adeptos a que se façam modificações.

É uma providência que requer cuidado, formação de consensos, arbitragem e, principalmente, competente elaboração técnica. Mas o governo não vai por esse caminho. Prefere a trilha mais fácil da desqualificação das prerrogativas e da desconfiança sobre a independência dos ministros do TCU.

Pois bem, em geral são políticos, na sua maioria indicados por razões políticas. Se agem mal, de forma a apenas atrapalhar a vida do governo, isso poderia ser facilmente desmascarado mediante a contra-argumentação técnica e demonstração de que as exigências feitas são descabidas.

Haveria também o caminho do cumprimento rigoroso dos trâmites, caso não se conseguisse provar que são manipulados politicamente, ou até a contestação sobre os meios e modos de funcionamento dos tribunais de contas.

Mas o governo prefere o atalho por meio do qual transfere para as mãos de um Legislativo submisso a palavra final sobre a regularidade de obras públicas.

A versão dos governistas é a de que o processo terá mais transparência, pois as análises ocorrerão de forma aberta, com audiências públicas, em sessões transmitidas pela televisão.

Trata-se de um sofisma. Que até faria algum sentido se o Congresso dedicasse alguma atenção à opinião pública.

Decide - como comprovam à farta acontecimentos passados e presentes - exclusivamente referido nas necessidades e conveniências do governo. Vota como consumidor de benefícios oficiais, não como depositário da confiança de seus representados.

Carta aos brasileiros

O adiamento do pagamento da restituição do Imposto de Renda do contribuinte que pagou a mais para a Receita é quebra de contrato.

O cidadão pagou, fez a sua parte. O Estado unilateralmente decidiu reter o dinheiro para fazer frente a outras frentes - no caso, a meta fiscal - deixadas a descoberto pelo modo cigarra de governar. Bom de festa e ruim de serviço.

O argumento do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que o contribuinte não perde nada porque o atrasado será pago com juros, obedece aos critérios da quase-lógica.

Quem conta com o dinheiro na data combinada em geral tem compromissos a ser saldados. Sem direito a adiamento unilateral.

Ademais, se o governo arrecadou menos do que previa e mesmo assim gastou mais do que deveria, cabe a ele, que tão espetacularmente soube administrar a crise econômica, resolver seus problemas de caixa sem transferi-los para quem está em dia com o Fisco.

Na flauta

O governo de facto de Honduras fala duro e resiste demais para quem tem os Estados Unidos como inimigo. Dada a tradicional ascendência dos EUA sobre países da América Central, é de se supor que, se o presidente Barack Obama quisesse mesmo resolver a questão dentro da ótica pretendida pelo governo deposto, já teria resolvido.

Na lata

Os rapazes não têm coragem de falar o óbvio. Vem Marta Suplicy, põe o pingo no i repetindo o que se ouve por toda parte e é desqualificada, como se Ciro Gomes tivesse "tudo a ver" com São Paulo.

A reação, na verdade, não é ao conteúdo da frase, mas à exposição de uma contrariedade em relação às habilidades estratégicas de Lula.

A candidata oficial puxa a fila

Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


A queda de quatro pontos nas últimas pesquisas e a euforia com o fim do tratamento do câncer linfático, carimbado com os 90% pela equipe médica, cutucaram o temperamento de lutadora, sem papas na língua, da candidata oficial, a ministra Dilma Rousseff, lançada pelo presidente Lula e engolida pelo PT com arranhões no gogó que se lançou ao tudo ou nada, na arrancada que contorna os prazos legais no anunciado esquema da segunda fase da pré-campanha.

Com a docilidade de quem obedece a quem manda, o enquadrado comando do Partido dos Trabalhadores trocou a água salobra pelo vinho e passou a defender a conveniência da antecipação da saída do governo da candidata Dilma, em meados de fevereiro, para dedicação em tempo integral às visitas aos estados, comparecendo e discursando nos comícios apelidados de reuniões. Nada de muito diferente do que vem fazendo, a desculpa de acompanhar as obras nas diversas frentes, agora inflada com a escolha do Rio para sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

O prazo legal para as campanhas no início de abril já foi antecipado, e nada impede que o truque continue a ser aplicado. O roteiro acompanhará as frentes de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Minha Casa Minha Vida para a construção de 1 milhão de residências populares em todos os municípios e capitais, a transposição das águas do Rio São Francisco para a irrigação das áreas secas do Nordeste.

É comovedora a adesão maciça do PT, sem uma voz discordante, ao esquema de campanha da ministra-candidata. O presidente do partido, Ricardo Berzoini (SP), com medo de chegar atrasado, comunicou aos repórteres que Dilma deixará o governo em fevereiro, 40 dias antes do prazo final para a desincompatibilização, para se dedicar à campanha, após o lançamento oficial da sua candidatura, no último dia do 4º Congresso Nacional do PT, em 21 de fevereiro.

O que o presidente do PT anuncia como novidade é exatamente o que a ministra Dilma já vem fazendo por conta própria, desde que os médicos que a trataram do linfoma anunciaram a cura. A peruca é uma das marcas da retomada da campanha. Com gana e urgência. Nos jantares com a bancada do PMDB e depois com a do PDT, as alianças foram celebradas com o tilintar das taças de champanhe. Os peemedebistas foram atendidos na reivindicação da Vice-Presidência, previamente acertada em muitos meses de articulação. E o candidato, como se sabe desde sempre, é o presidente da Câmara e do partido, o elegante e melífluo deputado Michel Temer (SP).

A única veneranda novidade é a oficialização do sabido. Com o ajuste às mudanças no cenário. A explosão de orgulho nacional com a escolha do Rio para sede da Olimpíada-2016, daqui a sete anos, vai ser um tema dominante na campanha de 2014 e não tem gás para a de 2018.

Dilma está fechando acertos para 2010. E aproveitando as hesitações da oposição, com outro tipo de embaraço. O candidato amplamente favorito para puxar a oposição, o governador paulista José Serra (PSDB), não deixará o cargo antes do prazo para a desincompatibilização. E até lá o presidente Lula tem muitos abacaxis para descascar. A gastança sem medida do governo, acelerada na pré-campanha eleitoral, cobra as contas que atazanam o ministro da Fazenda, Guido Mantega. E no corre-corre para garantir o quinhão no rateio do cofre da viúva não há limites à ganância. Os presidentes dos tribunais superiores, depois de garantirem o aumento de 9% em seus vencimentos, decidiram propor ao Congresso o aumento de 80% para os servidores do Judiciário. A proposta terá de ser aprovada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) antes de ser encaminhada ao Congresso.

Se aprovada na Câmara e no Senado, o festival terá o seu ponto alto na mudança do cálculo da Gratificação Judiciária (GAJ) para todos os servidores, no salto olímpico de 50% para 135% do salário-base. A classe média está avisada de que pagará a conta da desatinada expansão das contas do governo, apesar da queda na arrecadação, no delírio da campanha oficial para a eleição da ministra Dilma Rousseff.

É imprevisível o que virá por aí em 2010, na reta de chegada da eleição do sucessor ou sucessora do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Ideologia zero

Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Um dos inúmeros efeitos colaterais da alta popularidade de Lula é a sem-cerimônia do presidente para reabilitar políticos antes relegados ao degredo. A lista é longa.

Incluiu recentemente Fernando Collor e José Sarney. Agora, com a necessidade de ampliar a aliança pró-Dilma Rousseff, o PT mergulhará mais fundo.

Nesta semana, PMDB e PDT foram cortejados pelo PT e por Dilma. Na terça-feira, será a vez do curioso PR (Partido da República) oferecer jantar à pré-candidata petista ao Palácio do Planalto.

O PR é fruto da união do antigo PL com o Prona. O atual donatário da legenda é Valdemar Costa Neto, deputado federal por São Paulo. Ele renunciou ao mandato para não ser cassado em 2005, na esteira do escândalo do mensalão. Se renunciou, alguma consciência pesada deveria ter. Mas, como dinheiro não era problema, disputou novo mandato em 2006 e conseguiu retornar ao Congresso.

O PR é um legítimo representante da baixa política. Elegeu 25 deputados em 2006. Ontem, o placar das bancadas da Câmara apontava a legenda de Valdemar com 45 representantes. Um crescimento de 80%. Posto de outra forma, 80% de discrepância do desejo expresso pelos eleitores nas urnas.

Valdemar deve estar presente ao jantar para Dilma na terça-feira.

Em tempos de celulares multifuncionais, fotos serão inevitáveis. O registro de imagem é o menor problema. A popularidade alta do governo Lula assemelha-se ao antigo escudo invisível de uma marca de pasta de dente. Nada parece atingir ou incomodar os lulistas.

Por ironia, foi Valdemar um dos arquitetos em 2002 da formação da chapa Lula-José Alencar.

Muitos se esquecem, mas o PT venceu aliado ao PL. Agora, de novo, os petistas e Dilma descerão às profundezas da política para buscar a vitória. O caminho eles já conhecem bem.

200 anos depois

Cesar Maia
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


EM 2009 e 2010 , comemoram-se os 200 anos da independência das colônias hispânicas. Os atos foram iniciados em julho, na Bolívia, fazendo memória da revolta de La Paz, liderada por Pedro Murillo. E prosseguem em 2010: no México, com o Grito de Dolores, na Argentina, com a Revolução de Maio...

Os processos de independência na América hispânica se deram em duas etapas. Na primeira, com a invasão do exército de Napoleão na península Ibérica, em 1808. Em Portugal, mal durou oito meses e o exército inglês assumiu o controle do país. Dom João permaneceu no Brasil até 1821. Na Espanha, foi até 1812, período no qual o rei Fernando 7º e seu pai, Carlos 4º, permaneceram presos por Napoleão, renunciando à coroa a favor de José Bonaparte.

Com o retorno de Fernando 7º, em 1814, derrubando a constituição liberal das cortes de Cádiz e reinstalando o absolutismo, as Juntas Governativas instaladas nas colônias foram sendo derrubadas e reconstituíram-se os vice-reinados. A exceção foi o Paraguai, totalmente independente desde 1811.

O segundo ciclo de independências, no qual o Brasil se inseriu, se deu a partir das revoluções liberais na Espanha e em Portugal. Na Espanha, a relação com as colônias foi flexibilizada, o que acelerou ações que culminaram em independências definitivas. Em Portugal, com o retorno de d. João 6º e a perda de poder central de seu filho, a independência foi precipitada entre 1822 e 1823 (no Nordeste-Norte).

Essas duas etapas explicam bem as razões da instabilidade política generalizada na América hispânica. Tendo a Independência dos EUA como referência de república, a sua declaração, em 1776, foi, na verdade, um documento de consenso, em que se repetem 19 vezes as expressões "leis" e "Legislativo" e nenhuma vez "presidente", "chefe" ou "Poder Executivo".

Só sete anos depois veio a independência de fato, e apenas em 1787 a Constituição foi aprovada.

O processo americano estabeleceu amplo consenso entre as partes, e a partir deste é que se construiu a ossatura da Presidência. O poder do rei tinha uma forte base de legitimação, por sua origem divina e associação com a igreja. A transição para a República deveria ter uma densa legitimação para substituir a Coroa. Mas, ao contrário dos EUA, o único consenso se deu em relação à expulsão dos colonizadores. Depois, a luta pelo poder foi aberta durante 150 anos, com um vendaval de constituições, golpes de Estado e guerras civis.

Ao comemorar esses 200 anos, num ciclo de reinvenção do "presidente vitalício" proposto por Bolívar em 1825, não há tema mais relevante do que as bases efetivas da democracia no acesso, exercício e alternância do poder e de suas regras.

Cesar Maia escreve aos sábados nesta coluna.

O Nobel da esperança

Gilberto Scofield Jr.
Correspondente • WASHINGTON
DEU EM O GLOBO


Comitê em Oslo ressalta esforço de Obama por diplomacia e desarmamento nuclear

Nem o próprio presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, acreditou quando foi acordado pelo porta-voz da Casa Branca com a notícia de que havia ganho o prêmio Nobel da Paz, por, segundo o comitê organizador em Oslo, “seus extraordinários esforços no fortalecimento da diplomacia internacional e cooperação entre os povos”. Apesar de Obama estar no cargo há apenas nove meses — o que foi apontado por críticos como uma “precipitação” —, o Comitê do Nobel elogiou seus esforços para reduzir o arsenal nuclear do planeta e por “criar um novo clima internacional”.

Obama afirmou que recebeu a notícia com surpresa e humildade por passar a fazer parte de um grupo de pessoas cuja luta pela paz é tão inspiradora.

Admitiu que não havia tido tempo suficiente para realizar feitos que justificassem o Nobel, mas também deixou claro que a decisão indica a esperança por mudanças e que, neste sentido, interpretava a homenagem como um “chamado à ação”.

— Para ser honesto, eu não sinto que mereça estar na companhia de tantas figuras transformadoras, homens e mulheres que me inspiraram e inspiraram o mundo inteiro através de sua corajosa busca da paz — disse Obama, que vai doar os US$ 1,4 milhão do prêmio para a caridade. — E eu sei que através da História, o prêmio Nobel da Paz não foi usado somente para honrar conquistas específicas; ele também foi usado para dar destaque a uma série de causas. E é por isso que eu aceitarei este prêmio como um chamado à ação, um chamado comum a todas as nações para que confrontem os desafios do século XXI.

Republicanos reagem com críticas

Obama disse que não esperava ter sido acordado dessa forma ontem e que, após receber a notícia, sua filha Malia entrou no quarto e disse: “Papai, você ganhou o prêmio Nobel da Paz e hoje é aniversário de Bo (o cão da família).” E então sua outra filha, Sasha, acrescentou: “E ainda temos um fim de semana de três dias”, referindo-se ao feriado do Dia de Colombo na segundafeira. Para ele, suas filhas estavam, inconscientemente, colocando a situação numa perspectiva mais realista.

Foi mais ou menos o que fez Thorbjorn Jagland, ex-premier da Noruega que preside o Comitê do Nobel, explicando a escolha de Obama: — É importante dar o reconhecimento a pessoas que se esforçam e são idealistas. Mas não podemos fazer isso todos os anos. De quando em quando, precisamos mergulhar nos domínios da prática política. É sempre uma mistura de idealismo e prática política que pode mudar o mundo.

A escolha de Obama, um presidente que ainda lida com duas guerras e há apenas nove meses no cargo, é certamente a mais ousada. Mas Jagland não se importa com as críticas: — Raramente uma pessoa com a mesma amplitude de Obama capturou a atenção do mundo e deu a seu povo a esperança de um futuro melhor. Sua diplomacia é fundamentada no conceito de que aqueles que lideram o mundo devem fazê-lo numa base de valores compartilhados pela maioria da população mundial — afirmou.

Suas políticas e ações no campo internacional colocaram Obama como o oposto de George W. Bush, um presidente arrogante, unilateral, belicista, pouco preocupado com o aquecimento global e com os esforços diplomáticos de um modo geral. Para muitos, Obama ganhou o Nobel por não ser Bush. De fato, suas movimentações vão no sentido contrário: a disposição de esgotar o diálogo nas relações internacionais até que medidas mais fortes tenham que ser usadas, o fortalecimento de instituições multilaterais, como ONU e OEA, a disposição de trabalhar em cooperação com outros países e a ampliação do fórum de discussões econômicas global para o G-20 de modo a incluir nações emergentes.

A situação cria paradoxos. Ontem, horas depois de receber a notícia, Obama estava reunido com o conselho de guerra para avaliar se enviará mais tropas ao Afeganistão. Além da surpresa, a premiação reverberou nos EUA com um misto de cinismo e otimismo.

Assustados com a chance de isso alavancar a popularidade do presidente, os republicanos atacaram: — A pergunta que os americanos se fazem é: o que o presidente conquistou de fato? É infeliz que seu poder estelar tenha brilhado mais que o de incansáveis defensores com conquistas verdadeiras em paz e direitos humanos — disse Michael Steele, presidente do Comitê Nacional Republicano.

O radialista conservador Rush Limbaugh disse que o Nobel é “mais vergonhoso” que a perda da Olimpíada: — Isto expõe a ilusão que é Obama.

A comunidade internacional adora um presidente americano fraco.

Entre os democratas, o clima era de orgulho e animação.

— Estou encantado com o prêmio.

Ele é um apoio à forma como Obama está lidando com os desafios transnacionais, como o aquecimento global ou a nuclearização do planeta, e ainda melhora a imagem dos EUA no exterior — disse o deputado Howard L.

Berman, presidente da Comissão de Assuntos Estrangeiros da Câmara.

O CARA DA PAZ

Eu recebo esta decisão da Comissão do Nobel da Paz tanto com surpresa quanto com profunda humildade

Eu não sinto que mereço estar na companhia de tantas figuras transformadoras que já foram honradas com este prêmio

Aceitarei este prêmio como um chamado à ação, um chamado comum a todas as nações para que confrontem os desafios do século XXI (BARACK OBAMA)

Cacife

DEU EM O GLOBO

O PRESIDENTE Obama disse ter recebido o Nobel da Paz comoum “chamado à ação”.

ELE SE mostra, assim, estimulado a prosseguir com sua correta política externa de distensão e apaziguamento.

NADA MAL se o prêmio aumentar também seu cacife na política interna, onde enfrenta republicanos recalcitrantes e uma onda conservadora contra reformas importantes, como a do sistema de saúde.

Decisão acertada, prematura ou errada?

DEU EM O GLOBO

Reações internacionais variam de elogios, como os de Lula e Ban Ki-moon, até a revolta de Hamas e Talibã

OSLO. Há anos a escolha de um ganhador do Prêmio Nobel da Paz não surpreendia tanta gente nem provocava tamanha gama de reações à notícia, que variaram entre o apoio entusiasmado à decisão da Comissão do Nobel até a revolta, passando por muitos que gostaram da decisão, mas a consideraram prematura.

BAN KI-MOON, secretáriogeral da ONU: “É uma ótima notícia para o presidente Obama, para o povo dos EUA, e para a ONU. O presidente Obama incorpora o novo espírito de diálogo e engajamento em relação aos maiores problemas do mundo: as mudanças climáticas, o desarmamento nuclear e um vasto leque de desafios à paz e à segurança.”

LECH WALESA, ex-presidente da Polônia e Nobel da Paz de 1983: “Quem? Obama?! Tão rápido?! Rápido demais.

Ele não teve tempo para fazer nada ainda. Até agora, Obama só fez propostas. Mas algumas vezes a Comissão do Nobel dá o prêmio para encorajar ações responsáveis. Vamos dar uma chance a Obama.”

DESMOND TUTU, arcebispo anglicano e Nobel da Paz de 1984: “É um prêmio que vem perto do começo do primeiro mandato de um presidente relativamente jovem, que antecipa uma contribuição ainda maior para fazer do nosso mundo um lugar mais seguro para todos. É um prêmio que fala sobre a promessa da mensagem de esperança do presidente Obama.”

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA: “É uma conquista de um presidente que anunciou medidas importantes para o desarmamento nuclear. Acho que o prêmio está em boas mãos. Espero que a paz aconteça definitivamente no mundo e que a gente não tenha bomba nuclear.

Acho que Obama certamente vai partilhar o prêmio que ganhou com o grande gesto do povo americano nas eleições, quando elegeu pela primeira vez um negro para ser presidente.

Esse é um feito extraordinário que precisa ser premiado de todas as formas.”

MAIREAD CORRIGAN MAGUIRE, pacifista irlandesa ganhadora do Nobel de 1976: “Dizem que isso se deve a seus extraordinários esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos. Mas ele continua a política do militarismo e da ocupação do Afeganistão, em vez de dialogar com todas as partes do conflito. A Comissão do Nobel não obedeceu as condições do testamento de Alfred Nobel.”

MARTTI AHTISAARI, ex-presidente finlandês e Nobel de 2008: “Claro que esta premiação põe pressão sobre Barack Obama. O mundo espera que ele também conquiste alguma coisa.”

ISMAIL HANIYEH, líder do Hamas em Gaza: “Uma vez que não há nenhuma mudança fundamental e verdadeira nas políticas americanas em relação ao reconhecimento dos direitos do povo palestino, acho que este prêmio não nos fará avançar nem recuar.”

MOHAMED ElBARADEI, diretor da Agência Atômica da ONU e Nobel da Paz de 2005: “Em menos de um ano no cargo, ele transformou a forma como vemos a nós mesmos e o mundo em que vivemos e reacendeu a esperança por um mundo em paz consigo mesmo. Ele mostrou um compromisso inabalável com a diplomacia, o respeito mútuo e o diálogo.”

ZABIHULLAH MUJAHID, porta-voz do Talibã no Afeganistão: “O Prêmio Nobel da Paz? Obama deveria ter ganhado o prêmio Nobel por ter feito uma escalada da violência e da morte de civis.”

NILS BUTENSCHON, diretor do Centro Norueguês de Direitos Humanos: “Parece-me prematuro.

Acho que a comissão deveria tomar cuidado com a integridade do prêmio, e neste caso não penso que estamos numa posição de realmente avaliar o impacto total do que este candidato já conseguiu.

Às vezes o prêmio é concedido a pessoas que estão em processo de fazer história. Mas, neste caso, acho que é muito cedo para saber isso.”


O CARA DA PAZ


Devemos buscar um novo começo entre pessoas de diferentes fés, raças e religiões, baseados em interesses e respeito mútuos

Enquanto buscamos um mundo em que conflitos são resolvidos pacificamente, temos que encarar o mundo tal como ele é hoje

Estes desafios podem ser resolvidos. Para isso deve-se reconhecer que eles não serão solucionados por uma pessoa ou por um país sozinhos BARACK OBAMA

Presidente classifica ação do MST de vandalismo

Maria Lima e Luiza Damé
DEU EM O GLOBO


Lula lembra que o país tem Constituição e leis a serem cumpridas e diz que destruição na fazenda não tem justificativa

BRASÍLIA.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou ontem a ação do Movimento dos Sem Terra (MST), que derrubou milhares de pés carregados de laranjas na fazenda do grupo Cutrale no interior de São Paulo. Para Lula, o MST cometeu um ato de vandalismo e não uma manifestação: — Todo mundo sabe que sou defensor das lutas sociais deste país, das lutas para que o povo se manifeste. Entre uma manifestação reivindicando alguma coisa e aquela cena de vandalismo, obviamente que eu não posso concordar com aquilo. Não tem explicação para a sociedade você derrubar tantos pés de laranja para mostrar que está reivindicando. Pode demonstrar sem fazer destruição.

Lula ressaltou que o país tem Constituição e leis que devem ser cumpridas: — Se estiver dentro da lei, pode fazer qualquer coisa. Se não estiver, vai pagar o preço por fazer.

A polícia em Borebi, cidade no interior paulista onde fica a fazenda parcialmente destruída pelo MST, ouviu ontem integrantes do movimento e funcionários da Cutrale, empresa responsável pela área. Um dia depois de anunciar que deve pedir a prisão temporária de pelo menos sete sem-terra, os policiais estiveram em acampamentos na região para tentar identificar de onde teria partido a ordem para danificar a propriedade.

Ao desocupar a área, as mais de 300 famílias se juntaram a outros integrantes do MST assentados em duas fazendas, nas cidades de Iaras e Agudos. Os semterra são acusados de destruir ao menos 28 tratores, pichar caminhões e paredes, arrombar armários e roubar móveis.

O delegado de Borebi, Jader Biazon, conversou ontem com líderes sem-terra. Ele deverá indiciar parte do grupo pelos crimes de invasão de propriedade, formação de bando ou quadrilha, furto e danos ao patrimônio.

A fazenda Santo Henrique tem 2,7 mil hectares e há anos é alvo de disputa jurídica entre a Cutrale e o Incra, que argumenta se tratar de área da União. Ao conceder quarta-feira reintegração de posse à empresa, o juiz Márcio dos Santos, da 2° Vara de Lençóis Paulista, informou que sua decisão se referia apenas ao pedido para que o MST deixasse a área. A discussão sobre a propriedade da fazenda está na esfera federal.

A direção nacional do MST tem evitado comentar a denúncia de depredação. Por meio da assessoria de imprensa, informa que a polícia e os funcionários da Cutrale teriam armado a versão de que o MST é responsável pelo quebra-quebra. O movimento nega as acusações de depredação e furtos na fazenda.

Em nota divulgada ontem, afirmou que, quando as famílias da ocupação saíram das terras, não havia sinais de depredação.

Disputa em 2010 não será entre Lula e FHC, diz Serra

Silvia Amorim
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Tucano reagiu à declaração feita por Dilma, que disse ser inevitável comparar a gestão do presidente e de seu antecessor no ano que vem

O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), reagiu ontem à declaração feita pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, sobre a inevitável comparação na eleição presidencial de 2010 do que fez pelo Brasil a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso.

"Uma certeza eu tenho com relação à disputa do ano que vem. É que não será entre o candidato Lula e o candidato Fernando Henrique", afirmou Serra. "Haverá outros candidatos e a população vai analisar. Não é o Lula que vai concorrer a uma reeleição", disse o tucano após visita à cidade de Ribeirão Pires, na Grande São Paulo, para anunciar obras viárias no total de R$ 11,5 milhões.

Pouco antes, pela manhã, Dilma disse na capital baiana que seria inevitável a polarização entre o PT e o PSDB na eleição presidencial de 2010 e que o governo Lula não iria fugir desse duelo.

Líder nas pesquisas de intenção de votos, Serra é o provável nome do PSDB à Presidência da República. Dilma é a pré-candidata do Planalto à sucessão. O governador evitou polemizar mais sobre o assunto e encerrou a entrevista dizendo apenas que não condenava as comparações, mas elas não deveriam ser entre Lula e FHC.

O duelo que Serra tem promovido com frequência em São Paulo é entre a sua gestão e a do governo federal. É raro um discurso do governador em cerimônias públicas que não tenha uma comparação entre projetos, gastos e investimentos das duas administrações. A forma, entretanto, é sempre muito sutil. Serra nunca menciona o nome do presidente Lula.

Anteontem, numa reunião com empresários, o tucano fez questão de dizer que o governo paulista tem uma boa parceria com o Tribunal de Contas da União (TCU). Nos últimos dias, o governo Lula tem enfrentado uma queda de braço com o órgão por causa de paralisação de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). "Em geral, nós não temos obras paradas. Isso é efeito da eficiência da gestão governamental. Nós resolvemos o problema do Rodoanel com o TCU, por exemplo, antecipadamente."

IR: Lula critica quem pede restituição já

Luiza Damé
DEU EM O GLOBO


Ao rebater a acusação de confisco, Lula disse que o governo não tem interesse econômico em reter a restituição do IR, porque é corrigida pela Taxa Selic até a data do depósito: “É falta de compreensão.”

Não temos nenhum interesse econômico em reter o IR, diz Lula

Presidente afirma que restituição é corrigida pela Taxa Selic até a data de depósito

BRASÍLIA. Um dia após o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ter admitido que houve represamento de restituições do Imposto de Renda da Pessoa Física, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu ontem as críticas de que a retenção seria confisco do dinheiro do contribuinte ou um imposto compulsório sobre a classe média.

Segundo Lula, o governo não tem interesse econômico em represar a devolução, porque os valores são corrigidos pela Taxa Selic até a data de depósito. Lula disse ainda que essa atitude iria contra a lógica do Palácio do Planalto de colocar mais dinheiro nas mãos do consumidor para movimentar a economia.

— Acho falta de compreensão achar que um governo teria interesses econômicos em reter o Imposto de Renda, porque nós pagamos a Taxa Selic. Portanto, nós não temos nenhum interesse em reter — disse Lula.

Anteontem, Mantega afirmou que, por causa da queda vertiginosa da arrecadação neste ano, o governo vai demorar mais a pagar a devolução. O calendário de restituição das declarações de 2009 (ano-base 2008) deverá entrar em 2010.

Mantega deve ser convocado a esclarecer tema no Congresso Desde junho, quando começaram a ser liberados os primeiros lotes, o pagamento está represado. Lula frisou, porém, que não é a primeira vez que a Receita atrasa o pagamento das restituições do IR.

— Não é a primeira vez na História do Brasil, nem na história mais velha, nem na história mais nova, que, por problemas da Receita ou de quem faz a emissão dos pagamentos, pode atrasar dez ou 15 dias. Nós também já pagamos adiantado.

O presidente voltou a afirmar que, devido à crise internacional, o governo trabalha para colocar mais dinheiro à disposição da população e incrementar o consumo: — Não há nenhum interesse de que essas coisas aconteçam, porque o que queremos é que o povo tenha mais dinheiro para consumir. Se o povo tiver dinheiro na mão, quem vai ganhar é o consumo, são os índices de produtividade das empresas, os índices de comércio.

Mantega deverá enfrentar os parlamentares para prestar esclarecimentos.

O PPS informou que sua bancada na Câmara vai protocolar um requerimento de convocação do ministro. Na quinta-feira, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), informou que apresentará requerimento convocando Mantega e o secretário do Fisco, Otacílio Cartaxo.

Lula desiste de taxação da poupança

Valdo Cruz e Fernando Rodrigues
Da Sucursal de Brasília
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Para presidente, medida perdeu seu ‘tempo político’; governo teme repercussão negativa perto de ano eleitoral

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse a assessores que o projeto de cobrar Imposto de Renda sobre a poupança perdeu seu “templo Político” e que não quer mais envia-lo ao Congresso.

Em véspera de ano eleitoral, o Planalto teme a repercussão negativa de uma taxação de 22,5% sobre os rendimentos de cadernetas acima de R$ 50 mil e atrasos na tramitação do pré-sal.

Lula só admite repensar sua posição se Guido Mantega (Fazenda) considerar a medida essencial. A própria equipe do ministro, porém, vê a proposta como politicamente inviável, apesar de ser defendida tecnicamente.

A ideia de taxar a poupança surgiu após o juro básico ficar abaixo de dois dígitos, o que tornou a poupança mais atraente que parte dos fundos de investimento. Assessores de Lula avaliam que a tendência dos juros é voltar a subir, o que tornaria a medida desnecessária.

Lula desiste de projeto de taxar poupança

Presidente diz que medida "perdeu seu tempo político"; governo teme desgaste perto de ano eleitoral e atraso nos projetos do pré-sal

Avaliação é que tendência de alta nos juros reduz atratividade da caderneta ante os fundos e diminui urgência de mudança

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse a assessores que o projeto que tributa a caderneta de poupança com a cobrança de Imposto de Renda "perdeu seu tempo político" e que não quer mais enviá-lo ao Congresso.

O governo teme dois possíveis efeitos negativos do projeto: repercussão negativa na véspera do ano eleitoral em criar um imposto de 22,5% sobre poupanças com saldo acima de R$ 50 mil e atrasos na tramitação das propostas sobre o marco regulatório do pré-sal.

Lula admite repensar sua posição apenas se o ministro Guido Mantega (Fazenda) considerar a medida essencial. A própria equipe do ministro, contudo, considera que politicamente a proposta ficou inviável, apesar de tecnicamente ainda ser defendida. A última versão do projeto, por sinal, foi devolvida pela Casa Civil para o Ministério da Fazenda.Mesmo que a Fazenda avalie a medida como essencial, antes Lula ouvirá novamente os líderes dos partidos da base aliada sobre o assunto. Até aqui, segundo levantamento informal feito pelo governo, nenhum partido quer votar agora uma medida tão impopular -a menos de um ano da eleição.

Entre assessores diretos de Lula, vigora a impressão de que o motivo para o lançamento da ideia praticamente deixou de existir no momento. Segundo a Folha apurou, o argumento geral é que os juros devem subir no médio prazo em vez de cair, transferindo o problema para o próximo governo.

A ideia de taxar a poupança surgiu quando o Banco Central reduziu os juros abaixo de dois dígitos. A novidade tornou a caderneta mais atrativa do que boa parte dos fundos de investimentos. Para evitar uma migração forte de recursos dos fundos para a poupança, o governo decidiu reduzir a remuneração da caderneta.

O receio era que uma fuga de recursos dos fundos de investimento prejudicasse o financiamento da dívida pública. Afinal, os fundos aplicam boa parte dos recursos captados de clientes em títulos públicos federais.

Articuladores políticos do governo já avisaram Lula que são contra a medida. Mesmo sabendo que o projeto não atinge 99% dos donos de caderneta de poupança, eles alertam para o fato de que a oposição irá usá-lo para desgastar a imagem do governo na campanha eleitoral.

Além disso, só teria sentido enviar o tema por regime de urgência ou medida provisória, já que ele precisa entrar em vigor neste ano para ser aplicado no próximo. Isso levaria a um trancamento da pauta da Câmara, impedindo a aprovação do marco regulatório do pré-sal, considerado vital pela base aliada para ser usado na eleição presidencial de 2010.

Segundo recuo

Esse será o segundo recuo do governo no caso. A primeira proposta, divulgada em maio, foi abandonada por ser considerada muito complexa. A segunda, fechada em meados de setembro, previa taxar em 22,5% os rendimentos de cadernetas de poupança com saldo superior a R$ 50 mil.

Até mesmo as propostas de aliados no Congresso, de subir a taxação para poupanças com saldo superior a R$ 100 mil, estão sendo consideradas inviáveis politicamente neste momento e não receberão apoio da base do governo.

Diante da desistência de enviar o projeto, a equipe econômica analisa a hipótese de encaminhar, no próximo ano, um projeto que represente a solução definitiva para o problema, que seria acabar com a remuneração fixa da poupança -6% ao ano mais a variação da TR (Taxa Referencial).

Essa proposta seria discutida pelo Congresso no próximo ano e ficaria pronta para votação após a eleição presidencial. Assim, o novo presidente da República assumiria com a questão resolvida. Nesse caso, uma das ideias é atrelar o rendimento da poupança à taxa de juros do Banco Central.
Ou seja, a caderneta renderia um determinado percentual da taxa do BC.

Desigualdade cai, mas continua alta

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Em 2008, grupos dos mais ricos ganhavam 18 vezes a renda dos pobres, ante 20,2 em 2006

Em três anos, de 2006 a 2008, diminuiu muito rapidamente a distância entre os dois extremos de rendimentos da sociedade brasileira, o que reduziu a desigualdade social no País, apontou o estudo do IBGE. A melhoria na renda contrasta com dados referentes a bens e serviços: apenas 61% dos domicílios brasileiros tinham simultaneamente, em 2008, água encanada, coleta de esgoto, de lixo e iluminação elétrica.

Em 2006, a razão entre a renda familiar per capita dos 20% mais ricos e dos 20% mais pobres era 20,2, ou seja, o grupo mais rico ganhava 20,2 vezes a renda do mais pobre. No ano seguinte, essa relação caiu a 18,7, e em 2008, foi a 18. O nível ainda é alto - em países desenvolvidos, fica em torno de 4 a 6 -, mas já mostra redução na desigualdade entre os brasileiros, segundo Ana Lucia Saboia, coordenadora-geral do estudo.

O IBGE também apurou que caiu a proporção de pessoas com rendimento familiar per capita abaixo de 60% do mediano. Como foi estimado em R$ 415, os 60% eram R$ 249 em 2008 - essa medida serve para mensurar a pobreza dos grupos sociais. Em 2006, 37,3% ganhavam menos que essa fronteira; em 2007, 36,1%; em 2008, 33,8%. Também caiu o diferencial entre o rendimento familiar mensal per capita das famílias dos 10% mais ricos em relação aos 40% mais pobres. Em 2001, era 22,1 e em 2008, 16,8. Os números foram comemorados pelo diretor do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, Marcelo Néri. Ele lembrou que a queda começou em 2001 e se acentuou a partir de 2004, porque se associou ao crescimento econômico. "Não era mais como em 2001, quando o bolo caiu e a parte dos pobres caiu menos."

Os problemas de distribuição de renda, porém, continuam. Enquanto o rendimento familiar médio ficou em R$ 720, metade das famílias vivia com menos de R$ 415 - salário mínimo vigente em setembro de 2008.

SERVIÇOS

Apesar de 40% das residências brasileiras não terem ao menos um serviço público essencial (água encanada, coleta de esgoto, de lixo e iluminação elétrica), o dado representa um avanço em relação a 1998. Naquele ano, o porcentual de unidades com os quatro benefícios ao mesmo tempo era de 56,8%, ante 43,2% desprovidos de pelo menos um deles. A região com maior acesso era o Sudeste (82,6% dos lares) e a com menor era o Norte (14,9%).

Mulheres avançam no mercado, ganhando menos

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

As mulheres avançaram no mercado de trabalho e na educação, mas ainda ganham menos do que os homens. Entre 1998 e 2008 aumentou de 64,8% para 68,5% a proporção de mulheres de 20 a 24 anos no mercado de trabalho. No grupo de 16 a 24 anos, a taxa de atividade (porcentagem de pessoas economicamente ativas em relação ao total das que estão em idade ativa) subiu de 53,6% para 58,3% entre as mulheres. Entre as pessoas com 12 anos ou mais de estudos, 57% eram mulheres. Mesmo assim, as mulheres na posição de empregadoras ganham em média R$ 2.497, enquanto a média masculina é de R$ 3.161.

No Rio, número de idosos já é quase igual ao de jovens

Maiá Menezes e Fabiana Ribeiro
DEU EM O GLOBO

Índice de envelhecimento se aproxima ao do Japão, onde a população diminuiO Rio de Janeiro, que se prepara para sediar as Olimpíadas daqui a sete anos, está envelhecendo num ritmo superior ao do resto do Brasil, como mostra a Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE, divulgada ontem. O estado tem o maior percentual de pessoas com mais de 60 anos (14,9%) e a menor taxa de fecundidade (1,54%) do país. E o índice de envelhecimento — que leva em conta a proporção entre as pessoas até 14 anos e as com mais de 64 — foi de 0,9 na Região Metropolitana em 2008, próximo ao do Japão, onde o índice é 1 e a população vem diminuindo. No país, o número de idosos (21 milhões) já supera o de crianças até 6 anos (19,4 milhões). Os dados demonstram que ainda falta um longo caminho para garantir boa educação aos jovens: metade dos brasileiros com mais de 25 anos tem menos de oito anos de estudo e só 36,8%, na faixa de 18 a 24 anos, terminaram o ensino médio.

A "corrida" dos idosos

Terceira idade se aproxima do número de jovens no Rio, o que indica que população deve diminuir

Na cidade olímpica, os idosos devem chegar a 2016 na frente dos jovens. Estado com maior percentual de maiores de 60 anos no país (14,9%), o Rio caminha a passos largos para equiparar sua população da terceiro idade à de menores de 14 anos, segundo a Síntese dos Indicadores Sociais, divulgada ontem pelo IBGE. O índice de envelhecimento — calculado levando-se em conta a proporção entre pessoas de 0 a 14 anos e aquelas com mais de 64 — da Região Metropolitana do Rio chegou a 0,9 em 2008. Já está próximo do do Japão, um país onde a população vem diminuindo há muitos anos, e onde o índice é de 1.

— Isso indica que a população do Rio deve começar a diminuir num futuro muito próximo, bem antes do prazo estimado para o Brasil, que é 2030 — avalia Ana Lucia Saboia, coordenadorageral do estudo e gerente de Indicadores Sociais do IBGE

Taxa de fecundidade é a menor do país

Na equação que deve levar ao recuo no número da população está também a taxa de fecundidade total do Estado do Rio, que é de 1,54, a menor do país. O perfil antecipa a tendência de envelhecimento do país: numa década, a proporção de idosos passou de 8,8% para 11,1% do total da população.

A expansão da população mais idosa se explica, segundo especialistas, por avanços na medicina, melhorias no mercado de trabalho e na renda dos trabalhadores e maior cuidado com a alimentação.

O atual contingente de idosos brasileiros, de 21 milhões, já é superior ao de crianças de 0 a 6 anos — que é de 19,4 milhões.

É maior também, em números absolutos, do que a projeção da Organização das Nações Unidas (ONU) para o número de pessoas com mais de 60 anos de França, Inglaterra e Itália (entre 14 milhões e 16 milhões cada) — países com população envelhecida.

— O que importa, contudo, é a proporção de idosos sobre o total da população.

Na Europa, eles representam 18% do total. Já no Brasil, essa proporção é de 11%. Ainda estamos envelhecendo — comentou Ana Amélia Camarano, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

De 1998 a 2008, o grupo etário de 80 anos ou mais foi o que mais cresceu , chegando a quase 70% ou 3 milhões de pessoas. Segundo especialistas, essa expansão indica aumento da taxa de longevidade no Brasil, mas requer medidas para garantir atendimento a esses idosos na rede pública.

— No país, as pessoas estão vivendo mais, e nasce menos gente. E, com isso, essa população idosa crescerá muito mais nos próximos 30 anos. A grande questão é: temos condições de cuidar dessa população idosa? — questiona a especialista do Ipea.

— No Rio, onde já está se equiparando a quantidade de jovens e de idosos, os números indicam que esse processo deve se acelerar no país. O Brasil inteiro deve chegar a essa curva antes do previsto. Isso se deve especialmente ao avanço rápido da medicina — diz Lúcia Cunha, pesquisadora do IBGE sobre indicadores sobre idosos.

Aos 90 anos, Djamira Esteves, ou Dona Mirinha, mora com dois filhos e com uma das irmãs em uma casa na Tijuca, na Zona Norte do Rio. Sua família é um exemplo da longevidade do morador do Rio: tem duas irmãs — a caçula com 81. Orgulhosa de nunca ter feito uma cirurgia, ela afirma que gosta de viver na cidade e que nunca se sentiu sozinha ou desamparada.

— Eu sou uma criatura feliz. Para chegar nessa idade, o que fiz foi viver bem, desde a infância — disse, ressaltando que sempre esteve cercada pela família e por enfermeiros.

Dona Mirinha faz bem de morar com a família. Segundo especialistas, a rede de apoio familiar mostra-se fundamental para a saúde mental dos idosos. No país, a proporção de idosos que moravam com filhos era, em 2008, 33,3. Nas regiões Norte e Nordeste, esse percentual é bem mais elevado: mais de 50% dos idosos moram com os filhos.

O Estado do Rio, que tinha, em 1998, cerca de 11% da população com mais de 60 anos, tem características que ajudam a entender o motivo da longevidade de seus moradores, como a qualidade de vida na cidade e a média de anos de estudo da população idosa.

Na Região Metropolitana do Rio, é uma das mais altas do país, de 6,5 anos — acima da média do país, de 4,1.

No índice geral do país, a taxa de analfabetismo dos idosos chega a 32,2%. E salta para 51,7% quando considerado o analfabetismo funcional, correspondente a quem tem menos de quatro anos de estudo.

Mais de 1,2 milhão de jovens no País são ociosos, diz IBGE

Wilson Tosta
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Quase 6% da faixa de 18 a 24 anos não estuda, não trabalha e não ajuda em casa

A Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE mostra que, em 2008, 1,2 milhão de jovens de 18 a 24 anos não exerciam atividades produtiva – não trabalhavam, não estudavam e não ajudavam em afazeres domésticos. O número representava 5,37% do total da população nessa faixa etária. O fenômeno se deve em boa parte ao desemprego, mas outros fatores, como deficiências, doenças ou simplesmente falta de ocupação, também pesaram, segundo os pesquisadores. A inatividade é maior entre os homens, porque as mulheres, quando não têm emprego, em geral se incumbem de tarefas domésticas. Por outro lado, na mesma faixa etária, passou para 13,9% a proporção dos jovens que cursam uma universidade. Uma década antes, o porcentual era de 6,9%. O índice de brasileiros que freqüentam instituição de ensino superior, independentemente da idade, chegou a 30%. O crescimento se explica pela expansão das universidades e pelo aumento da oferta de bolsas do governo federal.

Mais de 1,2 milhão de jovens estão ociosos no Brasil, segundo IBGE

Eles representam 5,37% dos brasileiros entre 18 e 24 anos e não trabalham, não estudam, não ajudam em casa

Mais de 1,2 milhão de jovens de 18 a 24 anos não exerciam, em 2008, nenhuma atividade produtiva no Brasil, segundo números apresentados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) na Síntese de Indicadores Sociais referente ao ano passado. Essa enorme ociosidade juvenil - 1.245.270 pessoas que não estudavam, não trabalhavam e não ajudavam em afazeres domésticos - atingia 5,37% dos 23.242.000 brasileiros desta faixa etária no País. Ela se deve, em boa parte, ao desemprego.

O levantamento foi feito por técnicos do IBGE com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada em setembro. Os números da falta de atividade produtiva de parte dos jovens brasileiros foram calculados pelo Estado, a partir da síntese.

Segundo o IBGE, a inatividade em 2008 era maior no sexo masculino, com 943.675 homens que não trabalhavam, não estudavam e não ajudavam em afazeres domésticos. Eram 301.591 mulheres na mesma situação. Entre os rapazes, havia 300.344 inativos de 18 a 19 anos e 643.335 de 20 a 24 anos; entre as garotas, 88.209 na primeira faixa, e 213.382 na segunda.

O grande número de jovens sem atividade produtiva chamou a atenção da pesquisadora Lara Gama, do IBGE, que trabalhou no capítulo referente a crianças, adolescentes e jovens da síntese. "Uma parte dessas pessoas sem atividade estava procurando emprego, cerca de metade dos homens que disseram não fazer nada estava nessa situação", diz Lara.

Ela explica que o IBGE limitou-se a apresentar aos entrevistados cinco opções de resposta - só trabalha, só estuda, trabalha e estuda, cumpre afazeres domésticos e não faz nada -, mas não perguntou o motivo. "Outra parte pode ter deficiências, doenças ou simplesmente não tem uma ocupação, mas não é possível determinar o motivo", afirma.

A pesquisadora diz que a falta de atividades é menor no sexo feminino por vários motivos: as mulheres estão entrando mais fortemente no mercado de trabalho e, quando não têm emprego, em geral se incumbem de tarefas domésticas.

Uma quantidade muito maior de jovens na mesma faixa etária, porém, declarou exercer atividades produtivas. Ao todo, 3.853.755 homens e mulheres dessa idade (16,58% do total) acumulavam trabalho e estudo. Outro grupo, formado por 3.236.267 pessoas, só estudava. E 11.051.503 só trabalhavam.

FAMÍLIAS

A inatividade de parte expressiva dos jovens brasileiros se dá em um quadro de melhoria da distribuição de renda, embora permaneçam grandes os níveis de desigualdade. Em 1998, 27,3% das pessoas com até 17 anos viviam em famílias em situação de extrema pobreza, com renda familiar per capita de até um quarto do salário mínimo. Em 2008, essa proporção caiu para 18,5%.

Quase metade, porém, ainda vivia, no ano passado, em famílias com menos de meio salário mínimo de renda familiar per capita (44,7%). No Nordeste, a proporção de jovens em famílias pobres ou extremamente pobres era maior, 66,7%, ante 73,1% em 1998. "Tais melhoras podem ser atribuídas ao efeito de políticas públicas de transferência de renda", diz o estudo.

A síntese também aponta a redução da população brasileira mais jovem. Em 1998, as crianças de zero a 6 anos eram 13,2% da população, passando a 10,2% em 2008. Menos da metade da população (43,2%) estava na faixa de zero a 24 anos, o que coloca o Brasil entre os países em processo de envelhecimento.

A pesquisa se baseou na Pnad - na qual 2,5 mil pesquisadores ouviram 391 mil pessoas em 150 mil domicílios. Outras bases de dados foram consultadas.

Equador e Colômbia tentam reaproximação

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Depois de 18 meses sem relações diplomáticas, Colômbia e Equador anunciaram que, a partir de outubro, recolocarão seus encarregados de negócios nas embaixadas de Quito e Bogotá. O gesto diplomático é visto como mais um passo na reaproximação dos dois países. As relações foram rompidas em 2008, após ataque colombiano às Farc no Equador.

Presidenciável favorito prega união nacional

Ana Flor
Enviada Especial a Tegucigalpa
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

São grandes as chances de que a tarefa de reconquistar o respeito internacional de Honduras fique nas mãos do próximo presidente eleito. Mesmo assim, Porfirio Lobo Sosa, o Pepe, grande favorito para as eleições de 29 de novembro, não perde o bom humor -nem o apetite.

Sentado à mesa de café da manhã em uma agradável varanda do casarão situado nos arredores da capital Tegucigalpa, o líder do Partido Nacional (direita) conversa animadamente sobre o futuro do país enquanto come feijões, bacon e salsichas de Olancho, sua terra natal. Há figuras de santos e anjos por todas as partes.

"Não há outra luta que não a busca da unidade nacional", afirma o empresário, representante da terceira geração de produtores rurais.

Pepe é o maior interessado em uma solução rápida e pacífica para a crise política e institucional do país.

Ele sabe como pode ser difícil normalizar as relações hondurenhas e os investimentos estrangeiros caso não haja reconhecimento das eleições -como ameaçado por lideranças internacionais para um pleito realizado sob o governo interino responsável pelo golpe.

Nas últimas semanas, tem mantido reuniões com empresários, políticos, a igreja, diplomatas e missões internacionais. A todos, pede apoio para que as eleições sejam justas e tranquilas.

"Que mandem todos os observadores do mundo", solicita.

Sobre a volta ou não de Zelaya, Pepe evita opinar. Diz que sofre pressões diárias para escolher um lado, mas não o fará "nem que o massacrem". Segundo ele, Zelaya enfrentou empresários, juízes, igrejas. "Você não tem ideia de como sofremos com Mel [apelido do presidente deposto]", diz ele, para logo em seguida censurar a forma como Zelaya foi expulso do país. "Creia em mim. Aqui, todos pecamos."

A única proposta que ataca, deixando de lado a diplomacia, é o adiamento das eleições.

"Isso não é decisão de governo. O processo cabe a um tribunal eleitoral independente", diz.

Ao ser indagado a respeito do projeto de governo, Pepe afirma que terá de ser um plano de unidade nacional. Como boa parte da elite do país, Pepe se graduou nos EUA. Agora, promete investir em educação. "Quatro em cada cinco famílias rurais não têm nada."

Em seguida, fala que quer mexer nas isenções fiscais. Segundo ele, Honduras é o país da América Central com maior índice de isenção a empresários. "A festa vai acabar", promete ele.

Falando novamente sobre a crise, Pepe diz que o que importa é que em três meses tanto Micheletti quanto Zelaya serão passado. "É um problema sem futuro."

À espera de boas notícias

Imprensa
Livia de Almeida
DEU NA VEJA /RIO


Jornal do Brasil e O Dia buscam soluções para estancar a queda nas vendas

Dois jornais cariocas tradicionais enfrentam forte turbulência. Prestes a completar 117 anos de existência, o Jornal do Brasil é alvo de rumores cuja hipótese mais sombria dá conta até de seu fechamento. Fundado em 1951 pelo político Chagas Freitas, O Dia está em situação melhor, mas enfrenta um desafio nada trivial: queda de mais de 40% em sua circulação de janeiro a agosto. O declive vem na sequência de dois aumentos de preço – atualmente o exemplar custa 1,40 real – e de uma ampla reforma gráfica que converteu o jornal em tabloide. Para demonstrar poder de reação, neste sábado (3) chega às bancas o Campeão, novo diário esportivo da empresa, a ser vendido por 0,50 real. Foram contratados quinze profissionais, com a mira voltada para a Copa da África do Sul e, mais adiante, a do Brasil. "É uma espécie de Meia Hora dos esportes", compara Alexandre Freeland, editor-chefe de O Dia, numa referência ao irreverente diário popular do grupo que prima por suas manchetes espirituosas – e, às vezes, apelativas. "Vamos muito bem. O Meia Hora é o sexto jornal em circulação do país, temos 2,8 milhões de acessos mensais em nosso site e uma rádio FM de sucesso", diz. "Ainda somos a brava aldeia gaulesa resistindo aos romanos", acrescenta ele, ironizando a competição com os periódicos da Infoglobo – O Globo, Extra.e Expresso da Informação –, que abocanham quase 70% do mercado local.

É fato: nos jornais cariocas, a crise econômica internacional bateu mais forte que uma marolinha. De acordo com o Instituto de Verificação de Circulação (IVC), em janeiro O Dia vendeu em média 100 000 exemplares por dia, número que despencou para 64 000 em agosto. Desligado do IVC desde julho de 2008, o JB tem sua venda estimada em 18 000 exemplares, bem aquém dos 94 000 da última aferição. Nem o poderoso O Globo, é verdade, escapou ileso do vendaval. Nos últimos meses, o tombo foi de 6% (hoje O Globo vende 250 000). A comparação com o passado mais longínquo mostra, porém, que o quadro é simplesmente devastador para seus rivais. Na década de 90, O Dia teve picos de 1 milhão de exemplares, quando fazia promoções aos domingos e antes de entrar em cena o Extra, lançado em 1997. Com dados mais modestos, porém com maior sofisticação e penetração nas classes mais abastadas do Rio de Janeiro, o JB chegou a vender 380 000 no período do Plano Cruzado.

A questão, claro, tem outras agravantes que transcendem os impactos mais imediatos da economia no hábito de leitura dos cariocas. "Ao longo desta década houve uma mudança no comportamento do leitor e a canibalização do jornal tradicional pela internet", analisa Walter de Mattos Jr., diretor do Lance! e vice-presidente da Associação Nacional de Jornais. Ele vê espaço para o crescimento de periódicos mais segmentados, voltados para públicos específicos. Sobre os jornais tradicionais, é taxativo: "Não existe mais espaço para tantos". Na tentativa de fazer parte do grupo dos sobreviventes, O Dia, hoje comandado pela empresária Gigi de Carvalho, tem apostado na cobertura da cidade e no reforço das colunas de opinião. "Vamos focar ainda nos aspectos da economia do cotidiano, como orçamento doméstico, carreira, concursos, justiça e cidadania", conta Freeland.

No Jornal do Brasil, as palavras-chave são reinvenção e segmentação. Segundo o diretor-geral, Eduardo Jácome, o JB vai voltar-se com força para a elite intelectual da cidade. Ele explica que a distribuição foi reformulada e agora está concentrada na Zona Sul e na Barra da Tijuca, sem revelar, no entanto, estatísticas de venda. "Estamos presentes nas regiões onde não perdemos dinheiro", afirma Jácome, que promete resultados positivos para outubro. É uma meta ambiciosa. Atrasos de salários são crônicos e fazem parte da rotina da redação. No início do ano, foram demitidos vinte jornalistas e, em agosto, seis editores se desligaram de uma tacada só.
Especula-se que por trás da crise estaria a falta de interesse em manter o periódico por parte do empresário Nelson Tanure, que o adquiriu em 2001. Outro título de sua propriedade, a Gazeta Mercantil, deixou de circular em junho passado. Os problemas do JB, que já foi o jornal mais influente do Rio de Janeiro, vêm dos anos 80, decorrentes de operações financeiras malsucedidas, mas, com o tempo, só pioraram. Ao assumir a marca, Tanure iniciou na Justiça uma disputa com os antigos proprietários sobre débitos trabalhistas, na faixa de 2 bilhões de reais. Empresários e políticos fluminenses relatam encontros com o empresário, nos quais ele teria manifestado o desejo de passar o negócio adiante, sob o pretexto de amargar prejuízo mensal de 1 milhão de reais. O leitor carioca segue à espera de boas notícias. Afinal, são jornais que não só relatam a história da cidade, bem como fazem parte dela.

Armas legais vão para o crime

Maria Mazzei, Rio de Janeiro
DEU EM O DIA

É o que indica estudo apresentado à CPI da Violência Urbana

Rio - Um dia depois de deputados da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Violência Urbana cobrarem explicações à cúpula da Segurança Pública do Rio, em audiência na Alerj, estudiosos fizeram um raio-X da violência no estado. O depoimento que mais chamou a atenção dos parlamentares foi o do coordenador do Projeto de Controle de Armas do Viva Rio, Antônio Rangel Bandeira, que revelou que boa parte do armamento apreendido com bandidos foi comprada em lojas legalizadas no Rio.

O levantamento rastreou 36 mil armas apreendidas pela polícia e concluiu que a maioria saiu de oito lojas localizadas na Rodovia Presidente Dutra. “Elas são compradas legalmente, mas vão para as mãos de bandidos. Como isso acontece é que queremos saber”, disse o vice-presidente da CPI, Raul Jungmann (PPS-PE).

Segundo ele, o Rio foi o primeiro estado escolhido pela comissão porque, além de apresentar muitos problemas na segurança, possui bons estudiosos na área. Relator da comissão, Paulo Pimenta (PT-RS) disse que o objetivo do trabalho é propor medidas imediatas para combater a violência.

Ontem, também foram ouvidos pelos deputados o ex-secretário nacional de Segurança Pública Luís Eduardo Soares e a antropóloga da Uerj Alba Zaluar. Os dois fizeram um diagnóstico da violência no Rio abordando assuntos como tráfico de drogas, milícias, baixos salários dos policiais e educação deficiente.

Funcionários da Caixa Econômica decidem manter a greve após o feriadão

Cristiane Campos, Rio de Janeiro
DEU EM O DIA


Trabalhador que precisa sacar o FGTS precisará buscar agência aberta

Rio - Os bancários da Caixa Econômica Federal vão continuar em greve mesmo depois do feriadão. A paralisação que já chega ao 16º dia causa transtornos para correntistas, mutuários e, principalmente, trabalhadores demitidos, nesse período, e que precisam sacar o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) nas agências do banco.

Para os que perderam o emprego, a recomendação é procurar uma agência cujos funcionários não aderiam à greve. Caso o trabalhador não encontre, será preciso esperar o término da paralisação para dar entrada no saque do FGTS.

Já os mutuários, podem ir aos correspondeste imobiliários da Caixa para iniciar o processo de concessão de crédito habitacional. Essas miniagências estão capacitadas a receber toda documentação para a operação, além de aprovar o financiamento. No Rio, a Basimóvel, Ética Imobiliária e Estrutura Consultoria estão credenciadas pela instituição financeira para executar o serviço.

Segundo a Contraf (Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro), a Caixa não apresentou nova proposta, por isso os funcionários vão manter a greve até que seja marcada outra negociação. A proposta precisa ser votada em assembleias espalhadas pelo País. O banco informou que as lotéricas e os correspondente Caixa Aqui estão recebendo depósitos, fazendo pagamentos como o da casa própria e saques, entre outros. Mas, há limite de valores.

FIQUE LIGADO

A Caixa informou que tem 1.134 postos de atendimento eletrônico, 12.636 correspondentes não lotéricos, 10.101 casas lotéricas, 19.482 pontos de auto-atendimento em 2.561 salas, além da rede do Banco 24Horas com 4.278 pontos, à qual a instituição também é associada, e a rede externa de caixas automáticos compartilhada com o Banco do Brasil (acrescentando 6 mil terminais). As lotéricas, por exemplo, recebem prestações da casa própria de até R$ 2 mil.