domingo, 6 de junho de 2010

Reflexão do dia - Leôncio Martins Rodrigues


Uma vez que a Força Sindical e a CUT foram adversários históricos, é óbvio que a aproximação entre elas não tem nada de programático ou ideológico. Essa afirmação vale para as outras centrais que eram rivais da CUT. É visível o esforço de seus dirigentes - alguns que já estiveram próximos do PSDB - para se legitimarem perante o PT e serem bem-aceitos pelos cutistas. A forte distribuição proporcional de recursos para todas elas e a ideia da recriação da Conclat fazem pensar num amplo movimento, que poderia ir mais além da 'simples' eleição da Dilma e que terminaria na formação de uma só entidade sindical gigante. Lula, já fora da Presidência da República, seria o grande chefe, mais poderoso do que nunca, capaz de cortar qualquer pretensão de independência que sua candidata possa imaginar que teria, caso seja eleita. Seria uma espécie de Perón vindo das classes baixas.


(Leôncio Martins Rodrigues, em O Estado de S. Paulo, 2 de junho de 2010)


Sob vigilância:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

A aproximação política do Brasil com o Irã, especialmente depois que o presidente Lula assumiu o papel de mediador do programa nuclear, numa tentativa de evitar sanções do Conselho de Segurança da ONU, está chamando a atenção mundial para o nosso programa nuclear, como muita gente do próprio governo temia.


Depois que a revista alemã “Der Spiegel” fez no mês passado uma reportagem sobre a possibilidade de o país estar construindo uma bomba atômica, agora vem do “Asia Times” uma reportagem sugerindo que o Brasil está se aproximando de outro país pária, a Coreia do Norte, e levantando a suspeita de uma correlação com os programas nucleares secretos desses países e o do Brasil.

A revista alemã faz menção ao fato de que o Brasil não permite que os investigadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) tenham acesso às centrífugas das fábricas de Resende ou Aramar, onde o urânio pode ser enriquecido até a 20% com autorização da AIEA para abastecer os submarinos nucleares, “mas ninguém sabe o que acontece com o combustível uma vez que está em prédios militares”.

Na verdade, a supervisão da agência internacional é feita normalmente, e eles têm o controle do urânio que entra na fábrica e o que sai processado, com o que podem constatar que quantidade está sendo usada.

O Brasil não permite que as centrífugas sejam vistas pelos técnicos internacionais para proteger um segredo industrial, pois desenvolvemos um equipamento que é mais avançado do que os existentes.

Essa atitude, juntamente com a recusa de assinar um protocolo adicional ao TNP, e a aproximação com Irã e Coreia do Norte, acende o sinal amarelo em setores da comunidade internacional.

Na reportagem do “Asia Times” é assinalado que o Brasil tornou-se, desde que Lula assumiu o governo, o terceiro maior parceiro comercial da Coreia do Norte, ajudando aquele país a resistir a sucessivas sanções internacionais nesse período.

Esse incremento das relações comerciais é visto como uma atitude política do Brasil, e o jornal chega a fazer relação entre a aproximação de agora com a atitude da Coreia do Norte de ter financiado o movimento guerrilheiro brasileiro durante a ditadura militar.

No estudo do especialista Joseph S. Bermudez chamado “Terrorismo: a Conexão Coreia do Norte” está assinalado que, de 1968 a 1971, o país comunista deu financiamento e assistência militar a várias organizações de esquerda brasileiras, especialmente a Carlos Marighella e sua Ação Libertadora Nacional (ALN) e à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), que hoje têm vários ex-integrantes no primeiro escalão do governo.

O jornal asiático destaca que recentemente Marighella foi chamado de “herói nacional” pelo presidente Lula.

A reportagem, porém, não vai além de fazer ilações sobre a situação que considera similar dos dois países em relação à política nuclear, com especulações sobre uma possível retomada de antigos projetos nucleares pelo Brasil.

Um diplomata especialista na questão nuclear, que acompanha a trajetória do país nesse campo, falando à coluna à base do anonimato, por ainda estar na ativa, admite que há muitos, e em muitos países, que defendem a aquisição de uma “capacidade nuclear” sem que ela implique a construção de armas atômicas.

Com efeito, o desenvolvimento do ciclo completo do combustível nuclear em tese habilita um país a tomar a decisão de desviar suas atividades nucleares para a produção de explosivos.

Não é, contudo, um caminho fácil, ressalva o diplomata.

O primeiro ponto a destacar é diferenciar um explosivo nuclear (como aquele que a Índia explodiu no Rajastão em 1974, bem como, provavelmente, o artefato mais recentemente detonado pela Coreia do Norte) de uma bomba atômica, mais complexa.

No mundo de hoje há cinco potências nucleares originais (EUA, Rússia, GrãBretanha, França e China), três de fato (Índia, Paquistão e Israel) e uma que diz que é, mas nem todos acreditam (Coreia do Norte).

O Brasil é um dos poucos países sem armas atômicas que têm o domínio do ciclo nuclear completo. Além das potências nucleares, apenas Alemanha, Holanda, Japão, Israel e África do Sul detêm a capacidade de enriquecimento; a Coreia do Norte optou pelo plutônio, obtido através do reprocessamento do combustível queimado, uma tecnologia simples.

Desde o início das atividades nucleares no Brasil, sempre tivemos uma conduta em matéria de salvaguardas absolutamente irrepreensível, destaca o diplomata brasileiro. O primeiro tratado de salvaguardas com a AIEA era baseado apenas no Estatuto da Agência, já que o TNP e o Tlatelolco ainda não haviam nascido.

Mais tarde, o Brasil colocou em vigor para si o Tratado do Tlatelolco (início dos anos 90), o que implicou colocar todas as suas atividades nucleares sob as salvaguardas da AIEA, adotando, na prática, os mesmos procedimentos de salvaguardas previstos no TNP, que o Brasil se recusara a assinar por considerá-lo “discriminatório”.

Quando o Brasil resolveu aderir ao TNP, no governo FH, não foi preciso fazer qualquer atualização, extensão ou aprofundamento dos mecanismos de salvaguarda já aplicados ao Brasil.

A criação da ABACC (Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle), uma espécie de Euratom bilateral e simplificada, que estabelece o controle recíproco das atividades nucleares do Brasil e da Argentina, é um dos pontos altos de nossa política, considerado equivalente ao protocolo adicional de salvaguardas que nos querem convencer a assinar.

Sobre o caso iraniano, o diplomata assume a posição do governo brasileiro: se os iranianos forem impedidos de enriquecer urânio pelo arbítrio dos mais poderosos, diz ele, fortalece-se uma prática perigosa, que poderá ser um dia utilizada contra nós por um pretexto qualquer.

O discurso e o método:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Tem alguma coisa fora do lugar nessa história de dossiês e espionagens envolvendo as candidaturas presidenciais do governo e da oposição.

O que se diz hoje não bate com o que se falou ontem, os atos não correspondem aos discursos e o caso virou um emaranhado de insinuações e acréscimos de versões desordenadas.

Começou, no relato da revista Veja na semana passada, como a reação de um grupo do comando da campanha de Dilma Rousseff à descoberta de um esquema paralelo de produção de dossiês contra adversários (internos e externos).

Foi afastado o profissional (Luiz Lanzetta) apontado como executor das contratações dos serviços e providenciou-se uma reorganização de comando interno em conformidade com o que tinha a aparência de uma nova - e saudável - filosofia vigente.

O assunto parecia encerrado.

A oposição, porém, não entendeu assim. Considerou que a existência do grupo e o fato de circularem entre integrantes da campanha papéis com informações financeiras sobre antigos colaboradores e da filha do candidato do PSDB, José Serra, já caracterizavam má-fé.

Além disso, havia o histórico: a tentativa de compra de um dossiê contra ele mesmo na campanha ao governo de São Paulo, em 2006, por um grupo de petistas flagrados pela Polícia Federal com o dinheiro da transação em um hotel perto do Aeroporto de Congonhas, foi um caso.

O outro, o dossiê sobre os gastos da Presidência da República à época do governo Fernando Henrique, preparado na Casa Civil para ser usado como arma de intimidação aos oposicionistas na CPI dos Cartões Corporativos. Depois de muitas negativas, um subordinado a Erenice Guerra, braço direito de Dilma na Casa Civil, assumiu a autoria e foi afastado.

Com base nesse conjunto, José Serra responsabilizou Dilma Rousseff pela circulação de dossiês no comitê de campanha.

Isso na terça-feira. Na quarta, Dilma cancelou entrevista coletiva numa visita a Goiânia para não precisar falar no assunto, José Dirceu foi chamado a Brasília para administrar a "crise" no partido.

No fim daquele mesmo dia Dilma falou com a imprensa para dizer que a acusação de Serra é uma "falsidade" e, no dia seguinte, o presidente do PT anuncia a decisão de interpelar o tucano na Justiça para que ele prove "quem fez, como fez o dossiê, com qual objetivo e dinheiro".

Pois, se a história do dossiê é uma "falsidade", o PT age como se fosse de enorme gravidade. Afastou um contratado, mandou que se suspendesse um tipo de atividade, convocou um antigo presidente para administrar crise interna, sentiu necessidade de preservar a candidata durante um dia inteiro para que não abordasse o tema e anunciou ação na Justiça sabendo de sua inutilidade.

Evidente, pois se o terreno do dossiê é o da clandestinidade ninguém consegue provar nada. A Polícia Federal até hoje não mostrou de onde veio o dinheiro dos aloprados. Isso a despeito de ter posto as mãos nas notas e nos personagens.

Essa ação na Justiça é um gesto vazio e não ajuda a esclarecer coisa alguma.

Tampouco as insinuações sobre "a verdadeira origem do dossiê". Qual? Ninguém assume. No máximo há uma pista em frase do presidente do PT, José Eduardo Dutra, apontando "disputas internas da oposição" ao reclamar que atribuam ao partido dele a confecção de dossiês.

Antes de se perder o fio da meada, foi o PT que havia descoberto um esquema clandestino na própria campanha, mandado suspender os trabalhos, afastado o contratado para executar o serviço e administrado uma crise interna de poder.

De uma hora para outra o caso derivou para as "disputas internas da oposição" sem que se diga exatamente do que se trata, embora a insinuação aponte obviamente na direção de Minas e São Paulo.

Se o PT tem informação relevante de interesse público a respeito, diga do que se trata. Se não tem, faz feio entregando-se à perfídia.

O dossiê é um dos mais velhos e também dos mais repulsivos personagens da política. Contra ele a luta é sempre desigual, porque vive no subterrâneo, se alimenta de lama e só briga no escuro.

Se forem em frente nesse campo, PT e PSDB têm tudo a perder.

Agora ou nunca :: Eliane Cantanhêde

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Saio de férias, deixando você entregue à Copa, às convenções partidárias e aos presidenciáveis, especialmente a José Serra e a Dilma Rousseff que, entre tantas coisas em comum, têm a urgência: ou ganham a Presidência desta vez ou não ganham nunca mais.

Serra, pela idade. Ex-prefeito, ex-governador, ex-ministro do Planejamento e da Saúde e com uma coleção de vitórias e derrotas -inclusive para a Presidência, em 2002, para Lula- ele tem 68 anos. Se perder, foi-se o sonho de subir a rampa. A fila anda. Em 2014, será a vez de Aécio Neves.

Dilma, pela artificialidade da candidatura. Ex-ministra de Minas e Energia e da Casa Civil, ela nunca disputou cargo eletivo e, portanto, nunca foi vereadora, deputada, senadora, prefeita nem governadora e não chega a ser um peixe dentro d"água no PT.

Só está candidata por obra e graça de Lula. Ele decidiu, o PT engoliu, os aliados foram atrás. Se ela perder, evapora-se a presidenciável. Ou Lula vem aí como candidato em 2014, ou o PT vai querer impor um nome realmente seu.

A diferença entre o tucano e a petista é que Serra é um político de carreira e, presidenciável ou não, mantém o fôlego eleitoral para outras disputas que não para presidente e a capacidade de articulação no PSDB e arredores. Dilma volta a ser burocrata, provavelmente sem liderança central no PT.

Do trio em disputa, só Marina Silva tem condições de sair da campanha e se recompor para a próxima presidencial. Por causa do "recall", da idade (52), da biografia, da oportunidade do debate ambiental e por ser uma terceira via para esse confronto infernal entre PT e PSDB.

Tudo depende das urnas. Ou do patamar que conseguir no final.

É bastante diferente, portanto, do que ocorre com os favoritos Serra e Dilma. Lula perdeu três e ganhou na quarta, mas os dois jogam seu destino como nunca nesta campanha. Para ambos, é agora ou nunca.

PS - Até a volta!

O legado do tempo:: Miriam Leitão

DEU EM O GLOBO

O presidente Lula rejeitou o exemplo de Hugo Chávez de perseguir mandatos sucessivos e seguiu o modelo Álvaro Uribe que aceitou a ordem da Suprema Corte de que um terceiro mandato era inconstitucional. Melhor: nem esperou a Justiça.

Mesmo assim, Lula corre risco de perder esse ponto positivo em sua biografia política desrespeitando tão abusivamente as leis eleitorais.

Lula se equivoca quando pensa que a medida do sucesso do seu governo será a capacidade de eleger seu sucessor.

Isso nem sempre prova alguma coisa. Só o tempo decantará o que há de marketing nessa avaliação positiva para traçar o retrato definitivo que ficará do presidente na História. Ter feito o sucessor não está entre requisitos do bom julgamento.

Até Paulo Maluf elegeu seu sucessor. Isso não fez diferença em sua desastrosa biografia política.

Lula será avaliado no futuro pelo que fez ou deixou de fazer. No seu caso, algumas coisas que deixou de fazer serão parte integrante da sua lista de méritos. Seu programa continha promessas capazes de incinerar avanços duramente conquistados nos anos anteriores, como a normalização das relações com a comunidade financeira internacional, a estabilização, a abertura comercial. Como já é História, ele não fez o que prometeu — e que sugeriam vários dos economistas do seu grupo político — e assim acertou.

Mas certamente pesará contra ele o comportamento abusivo de uso da máquina governamental e o descumprimento das leis eleitorais que ele tem praticado nos últimos meses. É um desrespeito à Presidência e ao Judiciário que ele esteja usando o governo, em suas várias instâncias, para afrontar a Justiça Eleitoral e as normas desse período de campanha.

Em pleno comício no ABC, dias atrás, Lula disse que ele tem que dar exemplo, por isso não faria campanha, quando já estava fazendo o que negava fazer.

Prometeu voltar no segundo semestre para fazer campanha na porta de fábrica.

Se ele pudesse se despir da Presidência, poderia fazê-lo. Ou até o mais básico, se ele pagasse os custos das suas viagens políticoeleitorais já seria um pouco melhor, mas quem paga para ele desrespeitar a lei eleitoral são os contribuintes brasileiros.

Até agora o país está vivendo uma situação em que o crime compensa. O TSE dá suas sentenças e elas são ignoradas. No pior dos casos, o TSE postergou tanto a pena para o PT que ela recairá em 2011, quando já não fará mais diferença no atual pleito. O tribunal tem dado sinais de perigosa flexibilização em algumas interpretações.

Se o TSE não for rigoroso, o que estará em jogo é a própria autoridade da Justiça Eleitoral no país.

Além das suas viagens eleitoreiras, o país viveu o abuso de pagar com recursos do contribuinte as viagens da pré-candidata quando ela era ainda ministra, mas já fazia campanha.

Dizer que aqueles palanques que o Brasil viu, e o brasileiro pagou, não eram comícios, é dizer que somos todos bobos.

Casos como os dos dias passados em visitas às obras do São Francisco, em que pouco se fiscalizava e muito se posava e discursava para a campanha, ou o extemporâneo e caro circo do lançamento do PAC-2 são fraturas expostas nas regras do bom comportamento político.

Se a candidata do presidente for eleita, isso não apagará o mal feito. Ficará o país sabendo que Lula inaugurou a temporada do vale tudo no governo federal quando o governante quer eleger o sucessor. Isso avacalha a democracia que o país está construindo.

A conta parcial de alguns desses eventos foi apresentada por requerimento do deputado Raul Jungmann (PPSPE): R$ 3 milhões. Quem paga campanha é partido — para isso tem até dinheiro público distribuído às legendas — mas não pode ser com o orçamento do Palácio do Planalto.

É acintoso.

As declarações da linha do “nunca antes” não vão impor realidades. Quando baixar a poeira do marketing superlativo do atual presidente, o país registrará o bom e o ruim do legado da era Lula. Mesmo agora, adianta pouco falar que desde Geisel nunca se investiu tanto em estradas, se elas estão intransitáveis; que a Saúde está perto da perfeição, se há filas de pacientes para cirurgias; relançar as notas do real para se vincular a um plano ao qual se opôs; ampliar o gasto público para forçar um crescimento econômico exuberante na reta final, se as estatísticas vão mostrar que nos anos de boom mundial o Brasil cresceu menos que a média dos outros países e dos vizinhos. Nada ficará da tese de que 2003 é a data inaugural do Brasil, porque a História registrará o processo de modernização que começou antes e continuará depois de Lula.

Também não servirá para a História sua tese de que foi vítima do mensalão. O escândalo será visto como é: não uma conspiração contra ele, mas o pior caso de corrupção da História do Brasil e ocorrido no coração do governo Lula, com o concurso dos seus mais próximos colaboradores.

Seus méritos serão mais bem dimensionados quando passar a temporada dos autoelogios, aos quais Lula se entrega com ímpeto enquanto deprecia outros governantes. Suas boas políticas serão valorizadas quando não forem peças de palanques. Os avanços desses oito anos serão constatados e calculados não pela capacidade de eleger quem quer que seja, mas pelo balanço lúcido e informado que o tempo permitirá fazer.

Hoje, seu afã de eleger, a qualquer custo, a candidata que escolheu só vai malbaratar sua herança, vai fazer mal à democracia brasileira, vai apequenar a Presidência e desrespeitar o papel institucional da Justiça Eleitoral.

Pequena história de bolso vazio:: Wilson Figueiredo

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Enquanto a ociosidade for respeitada por ser a mãe de todos os vícios, as Vice-Presidências politicamente qualificadas continuarão a ser a fonte em que seus ocupantes se banharão em segundas intenções. É questão de oportunidade, que cedo ou tarde se apresenta. A segunda intenção pela qual os vices podem ser identificados tende a prevalecer sobre a primeira, que se reserva para inglês ver e fazer de conta que não percebe. Desde Roma (a incubadeira histórica de vícios públicos e privados), a traição tem papel garantido, tanto nos bastidores quanto nos palcos da política. Ainda hoje a opinião pública aceita a traição e abomina o traidor.

No Brasil, a crise da qual derivaram as demais, fora do controle da oposição e do governo, ocorreu com a primeira deposição de Getulio Vargas em 1945 e, dali para a frente, teve a participação, direta ou indireta, de vice-presidentes com votação própria, mas sem causar problemas até a segunda deposição. O ditador Vargas havia sido deposto em 1945, com base na suspeita de montar pretextos para adiar a eleição que não tinha condições de evitar. Vargas voltou, cinco anos depois, sem que a oposição conseguisse decifrar o mistério das duas derrotas seguidas. Mas a crise não demorou e, como era farto o material de fácil combustão, Vargas fez a opção pela morte, e seu vice Café Filho assumiu o poder sob a maldição, segundo a qual a traição é perdoável, mas o traidor não.

No último episódio daquela série, um ano e pouco depois, Café Filho acabou sem a Presidência e sem a Vice. A questão se repetiria, com mais clareza e maior peso, na eleição de João Goulart como vice de Jânio Quadros em 1960. Nada os unia, e tudo os separava. A segunda intenção, no entanto, não era do vice, mas do próprio presidente que o convidou para ir, em seu nome, ao outro lado do mundo. E, quando Jango estava na China, JQ lançou por aqui a renúncia, que foi aceita no ato. A bomba estourou no próprio governo, mas o problema deixou de ser Jânio e passou a ser Jango, cuja posse foi vetada a três vozes pelos ministros militares. Parecia o começo do fim mas não passou do fim de uma sequência cujo sentido se perdeu nas consequências.

Golpe de Estado para garantir a posse do eleito era fato novo em 1955. Mas ainda não era a última palavra em matéria de crise política. O 11 de Novembro se encaixou na categoria de contragolpe legítimo, por ter feito prevalecer a vontade das urnas naquela sucessão presidencial da qual saiu JK, que deixou um saldo histórico que não foi suficiente para evitar outras confusões. Na sequência, foi a vez de Jânio Quadros e, mais uma vez, seu vice João Goulart pagou a conta. A solução militar em 1964 não se limitou a ser apenas a deposição de um presidente. Desencadeou energias republicanas acumuladas. A arte política de envolver as Forças Armadas para desatar nós (com a espada retórica dos políticos) parecia superada desde o 11 de Novembro. O método já havia falhado na renúncia de Jânio Quadros, quando civis e militares foram apanhados de surpresa e a cúpula das Forças Armadas precisou negociar um parlamentarismo de contrabando para se esquivar da exigência de impedir a posse do vice-presidente João Goulart.

Em cada crise havia um vice em questão. A de 64 tornou inviável a ideia de refazer logo a ponte de acordo com a evolução democrática natural, filtrada pelas urnas e decantada pela opinião pública. Os vices foram usados com ressalva de intenção pelos governos militares: sobrevivem graças a um ritual pré-histórico enxertado na democracia. Os generais presidentes passaram a cultivar preferência por vice-presidentes civis, quando a imagem do Brasil era arranhada no noticiário da imprensa internacional e vetado entre nós. Como a eleição dos presidentes militares se fazia pelo voto indireto, os vices não representavam perigo. Quanto à preferência por vices de procedência mineira, nunca foi bem explicada, mas ficou implícito o reconhecimento e a admiração castrense de que em Minas a política é uma arte que merece que se lhe tire o chapéu (no caso, o quepe).

País assiste à flexibilização das fronteiras ideológicas

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

PT e PSDB, que polarizam disputa, baniram a corrupção do debate

QUEM OBSERVA A SUCESSÃO TEM A IMPRESSÃO DE QUE A POLÍTICA PERDEU NO CAMINHO ALGO ESSENCIAL: RECATO

Josias de Souza

BRASÍLIA - Prisioneiros do próprio impudor, PSDB e PT baniram do debate eleitoral de 2010 um tema antes obrigatório: corrupção.

Desapareceu da cena política brasileira a presunção de superioridade moral. As legendas que polarizam a disputa integraram-se à perversão comum a todas as siglas.

Nos últimos 16 anos -dois mandatos de Fernando Henrique e dois de Lula- o brasileiro assistiu a uma notável flexibilização das fronteiras éticas e ideológicas.

A "social-democracia" tucana e o "socialismo" petista provaram-se capazes de ceder a todas as tentações -da maleabilidade nos costumes às alianças esdrúxulas.

Impossível, por exemplo, mencionar o mensalão sem especificar o sobrenome. Há o mensalão do PT, o mensalão do PSDB mineiro, o mensalão do DEM de Brasília.

Na composição das alianças, a integridade dos ovos não vale mais nada. Só importa o proveito da omelete, convertida em tempo de TV.

Os candidatos nem se preocupam em varrer as cascas para baixo do tapete. Acham que não devem nada para o eleitor, muito menos explicações.

A união do impensável com o inacreditável não assusta mais. Até a imprensa trata as coligações com notável indulgência.

Sobre o pano de fundo da decomposição, a ex-militante Dilma Rousseff é uma nova mulher. Dá as mãos a José Sarney, um sobrevivente da ditadura que ela se jacta de ter combatido.

José Serra abraça Orestes Quércia. E esquece que, junto com FHC, Franco Montoro e Mario Covas, deixara o PMDB para não chamar de companheiro quem agora admite como aliado.

O PT de Dilma converte em heróis da resistência políticos incontroversos como Renan Calheiros e Jader Barbalho. O PSDB de Serra silencia.

A reação soaria a pantomima. Renan foi ministro de FHC. Da Justiça! Jader mandou e, sobretudo, desmandou na Sudam e no Senado da era tucana.

Quem observa a sucessão de 2010 tem a impressão de que a política perdeu pelo caminho algo essencial: o recato. Quem se assombra com o já visto não imagina o que está por vir.

Institucionalizou-se a impudência sem culpa. A adesão de ex-puros a ex-inimigos, mais que estratégia, tornou-se comunhão de estilos.

A corrupção virou uma bandeira órfã porque, generalizada, a desfaçatez fez da anomalia algo, por assim dizer, normal. Formou-se um insuperável deficit estético.

Conselhos a Serra

DEU NO ZERO HORA (RS)

No PSDB, os problemas estão concentrados no comportamento do próprio candidato. Aflita com o recuo nas pesquisas, a cúpula tucana reclama do estilo centralizador de José Serra, que recusa palpites e insiste em gerenciar cada passo da campanha. Considerado o ponto de equilíbrio do partido, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chamou os principais líderes para um almoço na quarta-feira.

Durante três horas de conversa, o ex-governador Aécio Neves, o presidente da legenda, Sérgio Guerra, o senador Tasso Jereissati (CE) e o ex-ministro Pimenta da Veiga enfileiraram críticas à postura de Serra. Para o grupo, ele atrasa a construção de palanques nos Estados e deixa de cortejar possíveis aliados ao se envolver pessoalmente com detalhes secundários. FH disse não receber informações sobre o andamento da campanha e sugeriu que Serra abandone sua rotina “solitária” de articulação.

Ao assumir o controle pessoal da agenda, Serra tem surpreendido lideranças regionais e até mesmo correligionários. Para eles, as viagens deveriam ser orientadas pelas pesquisas de opinião.

– Ele toma decisões e não avisa ninguém. De repente, a gente fica sabendo que ele está em tal Estado – diz um aliado.

As queixas também chegaram ao comitê tucano, onde as ações de comunicação estão emperradas à espera de um aval do candidato. Nem mesmo as peças publicitárias escapam ao crivo de Serra.

– A campanha não anda. Serra é ultracentralizador, quer comandar tudo – desabafa um dos chefes da campanha.

No grupo de Serra, há inquietação com a falta de empenho de alguns caciques. As cobranças se voltam a Aécio, Tasso e ao ex-governador Geraldo Alckmin, que estariam se omitindo por conta de interesses individuais. Recluso, Alckmin é acusado de permitir um avanço de Dilma em São Paulo, a reboque da candidatura ao governo de Aloizio Mercadante (PT). Já Aécio e Tasso, além de se recusarem a ocupar a vaga de vice, estariam preocupados apenas com a eleição ao Senado. Com receio de que a disputa pela vaga alimente mais tensões, FH deseja sacramentar a escolha do vice antes da convenção, marcada para o próximo sábado.

FH propôs escolha de vice antes de sábado

José Serra apela ao Nordeste

DEU NO ESTADO DE MINAS

Mais do que tentar mudar a imagem entre os eleitores, candidato tucano à Presidência cobra a paternidade de iniciativas que beneficiaram a região onde popularidade de Lula é mais alta

Alana Rizzo e André Duarte

Brasília e Recife — O ritmo de uma campanha presidencial, quando aterrissa no Nordeste, requer malabarismos pouco usuais aos candidatos que não são da região. Usar traje folclórico? Comer bode assado? Dançar forró e até montar em jegue? Quase tudo é válido. Na tentativa de agradar aos eleitores, os presidenciáveis não dispensam a cartilha. E os candidatos na eleição deste ano já iniciaram a maratona pela região onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva contabiliza índices de popularidade invejáveis.

Com uma missão ainda mais complicada – a de afastar o estigma de político antinordestino –, o pré-candidato José Serra (PSDB) adicionou item extra ao manual de conquista do eleitor do Nordeste. Surpreendeu ao declarar, em entrevista a uma rádio em Recife, que era o real autor de várias medidas que beneficiam a região. “Do meu ponto de vista, vou dizer sem qualquer papo. Individualmente, de fora do Nordeste, eu talvez tenha sido quem, na vida pública, mais fez pelo povo daqui.” Um depoimento que, na verdade, é impossível de ser checado com precisão.

O Estado de Minas foi em busca de algumas das iniciativas cuja paternidade é cobrada por Serra. A primeira delas é o Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FNDE). Criado quando o pré-candidato era constituinte (1987/1988), o fundo destina 2,4% da receita anual do IPI e do Imposto de Renda para o Banco do Nordeste. “Era relator e propus essa ideia. Tinha lá um dinheiro sobrando, e o pessoal queria distribuir para os governos, que iam ficar aumentando máquina”, já disse Serra, em algumas entrevistas. Em 2002, foram alocados R$ 660 milhões do fundo. A partir de 2003, a alocação anual de recursos do Tesouro Nacional é equivalente ao previsto no Orçamento. Este cálculo vale até 2013.

O fundo faz parte de uma política de reformulação do planejamento no Nordeste, desde o governo FHC, que incluía a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Inúmeras fraudes e denúncias de irregularidades levaram ao fim da superintendência, que Serra agora promete recriar. Na verdade, em 2002, também estava nos planos do tucano “criar uma nova Sudene, de maneira sólida. Algo bemfeito”. Em visita recente a Pernambuco, o ex-governador prometeu reformular e controlar pessoalmente a Sudene.

Crédito para investimentos

Como ministro do Planejamento, o tucano pleiteia ainda o Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste (Prodetur) e o ProÁgua (Programa Nacional de Desenvolvimento dos Recursos Hídricos). Serra afirma que foi ele “quem botou para andar” os dois programas. Nessa época, disse ter buscado financiamento de US$ 330 milhões junto ao Banco Mundial para obras hídricas na região. “Fui eu que bolei, negociei com o Banco Mundial. Tem investimento até recentemente do ProÁgua.” O primeiro é um programa de crédito, ligado ao Banco do Nordeste. O segundo é vinculado atualmente ao Ministério da Integração Nacional. Os investimentos previstos são de US$ 330 milhões, financiados pelo Banco Mundial, JBIC e governos federal e estaduais. Os dois foram encampados pela gestão do presidente Lula.

Em suas viagens aos estados do Nordeste, Serra versa sobre o serviço público de saúde prestado aos nordestinos. Em Pernambuco, ele diz que encontrou 97 equipes do Programa de Saúde da Família (PSF), criado assim que assumiu o Ministério da Saúde, em fevereiro de 1998. “Quando eu saí deixei 1.158 equipes”, disse, ressaltando que a mortalidade infantil caiu como “nunca antes” e como “nunca depois.”

Pernambuco é uma espécie de símbolo da Região Nordeste para os tucanos. Além de ser a terra natal do presidente Lula, é lá que Serra tem palanque forte com a candidatura do ex-governador Jarbas Vasconcellos (PMDB). Em 2002, não foi diferente. Em junho daquele ano, foi duas vezes ao estado. Como promessa, disse estudar a possibilidade da transposição do Rio São Francisco, ideia posta em prática por Lula.

Delegado confirma ''operação dossiê''

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Em entrevista à revista ""Veja"", Onézimo Sousa conta detalhes de negociação com petistas para montar equipe que espionaria Serra

A montagem de uma força-tarefa a pedido do comitê de campanha da pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, para espionar o rival José Serra (PSDB), foi confirmada pelo delegado aposentado da Polícia Federal Onézimo Sousa. Seu relato, em entrevista à revista Veja, confirma todos os passos da negociação, revelados ontem pelo Estado.

Dono de uma pequena empresa de segurança instalada em Brasília, Onésimo foi indicado para integrar o grupo de espionagem pelo sargento da reserva Idalberto Matias de Araújo, o Dadá, ex-integrante do serviço secreto da Aeronáutica. Apontado como o chefe do grupo de espionagem, o delegado aposentado garantiu a Veja, contudo, que sua atuação se restringiu a uma reunião de planejamento com representantes do comitê petista. Alegou que a proposta era inaceitável, pois ele divergia "cabalmente quanto à metodologia e ao direcionamento dos trabalhos a ser ali executados".

Seriam duas as missões do grupo de espionagem. "Primeiro, queriam que a gente identificasse a origem de vazamentos que estavam acontecendo dentro do comitê. Havia a suspeita de que um dos coordenadores da campanha estaria sabotando o trabalho da equipe. Depois, queriam investigações sobre o governador José Serra e o deputado Marcelo Itagiba", disse o delegado à revista. "Era para levantar tudo, inclusive coisas pessoais."

Onézimo contou ter sido convidado para uma conversa com o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, coordenador da campanha de Dilma. O encontro seria na área reservada do restaurante Fritz. Mas em lugar de Pimentel, teria encontrado o jornalista e consultor Luiz Lanzetta, responsável pela parte de comunicação do comitê petista.

Custo. O delegado aposentado contou que Lanzetta lhe explicou sobre o plano de montar o grupo de espionagem. O custo da operação, de R$ 1,6 milhão, seria assumido pelo empresário Benedito de Oliveira Neto, prestador de serviços do governo Lula, que teria participado da reunião. Um terceiro personagem desse encontro, segundo o delegado, seria o escritor e ex-jornalista Amaury Ribeiro.

Nos bastidores, Pimentel, alçado ao comando da campanha por conta de sua velha amizade com Dilma, acusa o deputado Antônio Palocci (PT-SP) e o deputado estadual petista Rui Falcão, coordenador de comunicação do comitê, de tramarem para derrubá-lo. Aliados de Pimentel afirmam que foi Falcão quem deixou vazar informações sobre a operação para montar um dossiê contra Serra, a fim de enfraquecer o ex-prefeito na cúpula da campanha.

Reação verde

A pré-candidata Marina Silva (PV) classificou ontem de "um risco à democracia" a atuação de arapongas para fazer dossiês. "Qualquer coisa nesse sentido não pode ser aceita pela sociedade, pela Justiça, por ninguém."

Polêmica do dossiê derruba um dos comandantes da campanha de Dilma

DEU EM O GLOBO

Lanzetta tem o nome ligado à contratação de arapongas para espionar Serra; ele nega

Maria Lima e Fábio Fabrini

BRASÍLIA e SÃO PAULO. O agravamento da crise provocada pela suposta montagem de um time de arapongas para produção de dossiês contra o pré-candidato do PSDB, José Serra, provocou ontem a primeira baixa no comando da campanha da précandidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff. Acusado de articular o esquema, o jornalista Luiz Lanzetta, ligado ao ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel e um dos estrategistas da comunicação petista, pediu afastamento. O desfecho tira força do grupo mineiro da campanha do PT, comandado por Pimentel, e fortalece a ala paulista, liderada pelo deputado Antonio Palocci e pelo deputado cassado José Dirceu.

O desligamento de Lanzetta — uma operação para atenuar o desgaste de Pimentel com o episódio — estava sendo preparado desde o início da semana.

Era para acontecer em 30 de junho, quando acabaria o contrato da Lanza Comunicação, empresa de Lanzetta que contratou a maioria dos jornalistas da assessoria de Dilma.

Porém, a publicação de entrevista do delegado aposentado da Polícia Federal Onésimo Sousa à revista “Veja” desta semana precipitou a operação. Onésimo disse que foi convidado para conversa em abril com Pimentel, no restaurante Fritz, em Brasília, mas quem o encontrou foi Lanzetta, que teria proposto a ele montar grupo de espionagem.

Lanzetta estaria suspeitando do deputado Rui Falcão Os alvos seriam Serra e o deputado e ex-delegado da PF Marcelo Itagiba (PSDB-RJ) e a coordenação da campanha petista, por suspeita de vazamento. Lanzetta — um dos responsáveis pela montagem do comitê de comunicação de Dilma, no Lago Sul, em Brasília — suspeitaria do deputado estadual Rui Falcão (PT-SP), coordenador de comunicação da campanha, ligado a Palocci, após o conteúdo de reunião entre seis coordenadores ter vazado à imprensa.

— Primeiro, queriam que a gente identificasse a origem de vazamentos que estavam acontecendo dentro do comitê. Havia a suspeita de que um dos coordenadores da campanha estaria sabotando o trabalho da equipe. Depois, queriam investigações sobre o governador José Serra e o deputado Marcelo Itagiba — afirmou Onésimo à revista, completando: — Era para levantar tudo, inclusive coisas pessoais. O Lanzetta disse que eles precisavam saber tudo o que eles faziam e falavam. Grampos telefônicos...

Segundo revista, serviço custaria R$ 1,6 milhão Lanzetta, segundo Onésimo, estava acompanhado do empresário Benedito de Oliveira Neto, o Bené, e do jornalista Amaury Ribeiro Jr — que investigou esquemas supostamente ilegais ocorridos em privatizações feitas entre 1995 e 2002, na gestão tucana, e prepara um livro.

Onésimo levou ao encontro, segundo o “O Estado de S. Paulo”, o sargento da reserva da Aeronáutica Idalberto Matias de Araújo, conhecido como Dadá, egresso da inteligência da FAB.

O preço do serviço seria de R$ 1,6 milhão, segundo “Veja”, ou R$ 160 mil mensais, a serem pagos sem contrato por Bené. O grupo de espionagem não chegou a ser montado, e os próprios arapongas vazaram o encontro à imprensa.

Procurado pelo GLOBO, Lanzetta, transtornado, negou-se, com palavrões, a dar entrevista.

Em nota, em que anuncia, em caráter unilateral, a rescisão do contrato com a campanha do PT, nega as declarações de Onésimo e dá outra versão para o encontro.

Disse que foi procurado por Onésimo, com um “projeto de trabalho”: monitorar os advesários tucanos. Segundo Lanzetta, o ex-delegado disse que a campanha de Serra estaria produzindo dossiês contra a do PT.

Em entrevista no site da “Folha de S.Paulo”, na tarde de ontem, Lanzetta detalha o encontro e cita o nome do suposto fabricante de dossiês do PSDB: “Eles começaram a falar o que eles têm de serviço. Demonstraram como seguem, como gravam.

Essas coisas todas. Eu comecei a nem prestar mais atenção.

Eles falaram que o Marcelo Itagiba estava fazendo cem dossiês contra a base aliada. Estaria fazendo isso com uma série de ex-agentes da Polícia Federal e da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) no gabinete dele.

Essa informação era o que eles queriam dar e depois se ofereceram para ir atrás disso. Era uma coisa um pouco pirotécnica”.

Na versão de Lanzetta, a proposta foi considerada inaceitável e a reunião, interrompida, sem contatos posteriores com o ex-policial. Ele isenta Dilma e outros coordenadores da campanha de participação no episódio.

Procurado, Amaury não retornou às ligações do GLOBO.

Pimentel confirma versão de apresentada por jornalista Ao GLOBO, Pimentel afirmou que só soube do suposto encontro após a publicação do assunto pela imprensa e confirmou a versão de Lanzetta: — Ele, Lanzetta, disse que foi chamado pelo Onésimo para conversar, que (Onésimo) ofereceu o serviço e ele não aceitou.

Nunca soubemos disso, nunca tivemos nada a ver com isso.

Pimentel assegurou que não conhece e nunca teve contato com Onésimo. Questionado se Lanzetta agiu sozinho, disse: — Totalmente, para ele lá, para a empresa dele. Sei lá o que queria conversar com o cara. O Onésimo o chamou.

Dizendo-se “perplexo, absurdado e indignado” com as denúncias, Pimentel atacou: — É um escândalo. É uma armação completa, uma gigantesca cortina de fumaça. Não sei para que serve, com que objetivo.

É uma calúnia absurda. Tenho 40 anos de militância política.

Nunca me envolvi com esse tipo de gente. Na última vez em que eu falei com a PF, estava preso. Tem 40 anos isso.

Itagiba negou ao GLOBO estar produzindo dossiês, disse que poderá processar Lanzetta e acusou os petistas de inverterem a acusação para se livrarem dela. Ele disse conhecer Onésimo profissionalmente, mas que não mantém contatos com ele.

Afirmou que vai pedir investigações à Procuradoria Geral da República, ao Tribunal Superior Eleitoral e à PF.

— Essas pessoas têm de ser investigadas, para mim são criminosos.

Ibope aponta empate entre Serra e Dilma

DEU EM O GLOBO

Tucano recuou três pontos percentuais, e petista subiu cinco; Marina continua com 9% das intenções de voto

SÃO PAULO. Na primeira pesquisa de intenção de votos realizada pelo Ibope depois dos programas de TV do DEM e do PT, os pré-candidatos José Serra e Dilma Rousseff aparecem empatados.

Encomendado pela Rede Globo e pelo jornal “O Estado de S.Paulo”, o levantamento foi divulgado ontem e mostra Dilma e Serra com 37% da preferência dos eleitores cada um. Marina Silva, pré-candidata do PV, tem 9% das intenções de voto.

Em relação à pesquisa anterior, divulgada em abril, o candidato tucano, que tinha 40%, recuou três pontos percentuais, enquanto a petista Dilma subiu cinco pontos, de 32% para 37%.

As intenções de votos na candidata do PV não se alteraram.

Na pesquisa espontânea, em que os entrevistados dizem qual o seu candidato sem consultar qualquer lista, a ex-ministra da Casa Civil aparece na frente do ex-governador paulista: tem 19% das intenções de voto, contra 15% de Serra.

Realizada entre os dias 31 de maio e 3 de junho, a pesquisa tem margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. Dos 2.002 eleitores entrevistados, 9% disseram que irão votar nulo, em branco ou em nenhum dos candidatos. Os indecisos foram 8%.

Na simulação de um possível segundo turno entre o tucano e a petista, Serra e Dilma também aparecem empatados, com 42% das intenções de voto cada um.

O levantamento identificou que a petista teria a preferência entre os eleitores de Marina na eventualidade de um segundo turno contra Serra: 40% dos eleitores de Marina dariam seu voto a Dilma, contra 32% a Serra.

O Ibope também perguntou aos entrevistados em qual dos três principais pré-candidatos a presidente eles não votariam.

José Serra foi apontado por 24% deles, Dilma por 19%, e Marina por 15%.

Aliados apostam em trunfos dos pré-candidatos Para desempatar a disputa, os aliados apostam na experiência, no caso de José Serra (PSDB), e na força do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no de Dilma Rousseff (PT).

— A posição da Dilma é muito boa e traz um potencial maior porque tem muita gente que ainda quer votar no presidente Lula — afirmou o deputado e ex-presidente nacional do PT Ricardo Berzoini (SP).

O deputado federal e secretáriogeral do PSDB, Rodrigo de Castro (MG), argumentou que as campanhas na TV e no rádio ainda não começaram: — O Serra é o mais experiente, já governou (o estado de São Paulo). Isso vai ser mostrado na nossa campanha.

Já para o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), está claro que a vitória na corrida presidencial se dará por uma margem de 3 a 5 pontos percentuais: Para o coordenador da campanha do PV, Alfredo Sirkis, o desempenho de Marina está dentro das expectativas.

O Ibope constatou também que o governo do presidente Lula continua bem avaliado: 75% dos eleitores disseram considerar a gestão do petista ótima ou boa, 20% regular, e apenas 5% ruim ou péssima.

Numa escala de zero a 10, o governo teve nota 7,8.

Em maio, 37% também no Datafolha

DEU EM O GLOBO

Pesquisa do Datafolha, divulgada em 22 de maio, apontava empate entre a pré-candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, e o pré-candidato do PSDB, José Serra. Os dois tinham 37% das intenções de voto. A ex-ministra subira sete pontos percentuais em comparação com a pesquisa anterior, feita em abril.

No mesmo período, o ex-governador caíra cinco pontos.

Em terceiro lugar, a senadora Marina Silva (PV-AC) teve 12% das preferências, mesma pontuação da pesquisa anterior.

Os indecisos eram 9%, e votos brancos, nulos ou nenhum somavam 5%.

A pesquisa do Datafolha foi feita entre 20 e 21 de maio, uma semana após o programa partidário do PT na televisão.

O nome do deputado Ciro Gomes (PSB-CE) já não fez parte da pesquisa.

Média das pesquisas mostra nova tendência

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

José Roberto de Toledo

O gráfico da média móvel das pesquisas desenvolvido pelo Estado mostra uma nova tendência: as linhas de intenção de voto de José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) correram sobrepostas desde que eles empataram, há três semanas.

Até 14 de maio, as curvas de Serra e Dilma estavam espelhadas, o que o tucano perdia, a petista ganhava. Foram cinco meses de tendência convergente de Dilma em relação a Serra. O gráfico desenhou uma espécie de alicate.

Mas desde que as hastes da ferramenta se encontraram não houve sinais de que a pré-candidata do PT tenha continuado cooptando eleitores do rival do PSDB. As projeções de ultrapassagem não se confirmaram, por enquanto.

Desde que o empate se configurou, Serra ocupou a maior parte da propaganda do DEM em cadeia de rádio e TV, e isso pode tê-lo ajudado a frear o crescimento de Dilma. A maior exposição da petista ocorreu imediatamente antes de ela empatar com o tucano.

Exposição. O calendário nas próximas semanas favorece Serra. Ele deverá ser o centro das propagandas de 10 minutos do PPS, do PSDB e do PTB que irão ao ar nos dias 10, 17 e 24 de junho, respectivamente.

Além disso, cada um dos três partidos terá 40 inserções de 30 segundos no horário nobre entre os dias 3 e 29 de junho. Muitas poderão ser aproveitadas por Serra para manter seu nome na cabeça do eleitor.

A média móvel considera as últimas três pesquisas divulgadas pelos principais institutos. Desta vez, entraram no cálculo as de Sensus, Datafolha e Ibope. A vantagem da média é aplainar diferenças entre os institutos.

Os números e o que eles não dizem :: José de Souza Martins

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO /ALIÁS

Pesquisa de opinião é cheia de armadilhas: por exemplo, entre gente simples, ser de direita pode ser entendido como "ser direito"

A concepção de que se deve ao carisma de Lula o crescimento das opções em favor da candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, no confronto com José Serra, do PSDB, é explicação pobre e insuficiente. Lula tem popularidade e não carisma. Carisma não se transfere, pondera Max Weber, em sua análise dos tipos de dominação. É um atributo pessoal e histórico de que pouquíssimos são dotados. Na história política do Brasil, apenas dois governantes foram dotados de carisma: o imperador dom Pedro II e o presidente Getúlio Vargas. Ambos assumiram impessoalidade do poder e governaram conscientes do mandato da história, personificando acima dos interesses pessoais e partidários o destino do País.

Carisma, portanto, é dom que se afirma até mesmo acima da impopularidade. Popularidade nem sempre é indício de carisma, do mesmo modo que a capacidade de induzir aplausos nem sempre é indício de competência. É nessa perspectiva que se impõe a compreensão do que representam 70% de apreciação positiva de um presidente que não foi eleito com essa proporção de votos nem os teria hoje. Lula é admirado muito mais pelo que não fez e todos temiam que fizesse do que por aquilo que tem feito em seu governo. É aplaudido mais pelo fato de legar ao seu sucessor o mesmo Brasil do antecessor do que por legar a quem vier depois dele um Brasil diferente.

Pesquisa de opinião pública tem armadilhas de linguagem, que não raro geram respostas diferentes das perguntas feitas. Em pesquisa recente, mais da metade dos que optam por Serra se disse de direita. Para pessoas simples, como tenho verificado, é de direita quem é direito, sem conteúdos ideológicos. Essa afirmação deveria ser interpretada à luz de que, desde muito antes de Lula chegar à Presidência, o PT trabalhou e difundiu intensamente a concepção, infundada aliás, de que o PT e Lula eram de esquerda e o PSDB e seus aliados eram de direita. Na armadilha do conceito, muita gente se entende como de direita porque discorda do PT e está descontente com seu governo. Do mesmo modo que Lula, temendo a identificação de seu governo com o radicalismo de esquerda, tem afirmado que não é de esquerda, é apenas um sindicalista. Durante anos os constituintes do PT, apesar de sua origem em grupos conservadores, como os religiosos, e de direita, como o sindicalismo corporativo, esforçaram-se para fazê-lo aceito como partido de esquerda, que só o era em face do regime militar, claramente a sua direita.

A popularidade eleitoral de Dilma, portanto, tem outra explicação. Originária dos bastidores do governo Lula, completamente desconhecida, não tinha como ascender eleitoralmente em tão curto prazo se uma poderosa força externa a sua biografia não viesse em seu socorro. Foi esse o meio de "fabricá-la" como candidata e dar-lhe a visibilidade que tem como sombra de Lula. Dilma foi recurso para preencher o vazio em que o mensalão lançara o PT, estigmatizando seus nomes mais prováveis à sucessão presidencial. Muito antes da eleição de Lula, o PT já havia criado uma poderosa máquina de poder, baseada na lealdade religiosa dos grupos de base que o esvaziaram como partido para transformá-lo em seita. No poder, esse exército de adeptos recrutados nas igrejas, nos sindicatos e nas universidades tratou de montar a máquina da permanência e do continuísmo, a estratégia da estagnação política, econômica e social. É o retrocesso desse autoritarismo e não o carisma de Lula que move para cima a candidata do lulismo.


José de Souza Martins é professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e autor de A aparição do demônio na fábrica (editora 34)

Política externa responsável :: Fernando Henrique Cardoso

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A despeito das bazófias presidenciais, que, vez por outra, voltam ao bordão de que "hoje não nos agachamos mais" perante o mundo, se há setor no qual o Brasil ganhou credibilidade e, portanto, o respeito internacional foi no das relações exteriores. Elas sempre foram orientadas por valores e estiveram intransigentemente fincadas no terreno do interesse nacional. A demagogia presidencial não passa de surto de ego deslumbrado, que desrespeita os fatos e mesmo a dignidade do País.

Com exceção dos flertes com o totalitarismo europeu durante o Estado Novo, sempre nos orientamos pela defesa dos valores democráticos, pela busca da paz entre as nações, por sua igualdade jurídica e pela defesa de nossos interesses econômicos. Com toda a dificuldade do período da guerra fria - quando os governos militares se opuseram ao mundo soviético e a seus aliados -, não nos distanciamos do que então se chamava de Terceiro Mundo. Se não nos juntamos propriamente ao grupo dos "não-alinhados", dele sempre estivemos próximos. Terminada a guerra fria, restabelecemos relações com os países do campo socialista, Cuba e China à frente, voltamos a estar mais ativamente presentes na África, apoiamos o Conselho de Segurança da ONU nos conflitos entre Israel e a Palestina, sustentamos a posição favorável à criação de "dois Estados" e o respeito às fronteiras de 1967 e nunca nos solidarizamos com o grito de "delenda Israel" nem com as afrontas de negação do Holocausto.

Seguindo esta mesma linha, assinamos o Tratado de Não-Proliferação de armas atômicas (TNP), com ressalvas quanto à manutenção dos arsenais pelos "grandes", fomos críticos das invasões unilaterais no Iraque e só aceitamos a intervenção no Afeganistão graças à supervisão das ações bélicas pela ONU. A reação ao unilateralismo foi tanta que em discurso na Assembleia Nacional da França cheguei a aludir à similitude entre o unilateralismo e o terrorismo, provocando certo mal-estar em Washington. Procedemos de igual modo na defesa de nossos interesses como país em desenvolvimento. No dia em que se publicarem as cartas que dirigi aos chefes de Estado do G-7 se verá que predicávamos desde então maior regulação financeira no plano global e maior controle do FMI e do Banco Mundial pelos países emergentes. Reivindicamos nossos direitos comerciais na OMC, a começar pelo caso do algodão, e, no caso das patentes farmacêuticas, defendemos vitoriosamente em Doha o ponto de vista de que a vida conta mais que o lucro. Todas estas políticas tiveram desdobramentos positivos no atual governo.

Temos, portanto, credenciais de sobra para exercer uma ação mais efetiva na condução dos negócios do mundo. A hegemonia norte-americana vem diminuindo pelo fortalecimento econômico dos Brics (metáfora que abrange não só os quatro países, mas vários novos atores econômicos), especialmente da China, pela presença da União Europeia e também vem sendo minada pelas rebeliões do mundo árabe e muçulmano, como o próprio governo Obama reconhece. É natural, portanto, que o Brasil insista em sentar-se à mesa dos tomadores de decisões globais. Sendo assim, por que a celeuma causada pela tentativa de acordo entre Irã e a comunidade internacional empreendida pelo governo brasileiro? Há duas ordens distintas de questões para explicar o porquê de tanto barulho. A primeira é a falta de clareza entre a ação empreendida e os valores fundamentais que orientam nossa política externa. A segunda é a forma um tanto retórica e pretensiosa que ela vem assumindo.

Quanto ao primeiro ponto, como compatibilizar o repúdio às armas nucleares com a autonomia decisória dos povos? Esta abrange inclusive o direito ao conhecimento de novas tecnologias, mesmo as "duais", que tanto podem ser usadas para a paz como para a guerra.

Em nosso caso, conseguimos, por exemplo, dominar a técnica de foguetes propulsores de satélites (e quem lança satélite pode lançar mísseis). Ninguém desconfia, entretanto, de que a utilizaremos para a guerra, até porque obedecemos às regras do acordo internacional que regula a matéria. Do mesmo modo, dominamos o ciclo completo de enriquecimento do urânio. Mas não cabem dúvidas de que não estamos fazendo a bomba atômica, não só porque nossa Constituição proíbe, mas porque inexistem ameaças externas e porque submetemos o enriquecimento do urânio (guardado o sigilo da tecnologia usada) ao duplo controle de um tratado de fiscalização recíproca com a Argentina e da Agência Internacional de Energia Atômica.

É precisamente isto que falta no caso do Irã: a confiabilidade internacional nos propósitos pacíficos do domínio da tecnologia. E é isso que o governo americano alega para recusar a intermediação obtida, ao reafirmar que a quantidade de urânio já disponível, mesmo descontada a quantidade a ser remetida para enriquecimento no exterior, permitiria a fabricação da bomba. O xis da questão, portanto, seria a obtenção pelo Brasil e pela Turquia de garantias mais efetivas de que tal não acontecerá. Deixando de lado as alegações recíprocas sobre se houve o estímulo americano à ação intermediadora (que para quem quer ter uma posição independente na política externa é de somenos), uma ação eficaz para evitar o confronto e as sanções - posição coerente com nossa tradição negociadora - deveria buscar desfazer a sensação da maioria da comunidade internacional de que o governo iraniano está ganhando tempo para seguir em seus propósitos nucleares.

Neste ponto a retórica dos atores brasileiros parece ter falhado. O levantar de mãos de Ahmadinejad e Lula, à moda futebolística, e as declarações presunçosas do presidente brasileiro, passando a impressão de que havíamos dado um drible nas "grandes potências", digno de Copa do Mundo, reforçaram a sensação de que estaríamos (no que não creio) nos bandeando para o "outro lado". E em política internacional, mais do que em geral, cosi è (se vi pare).


Sociólogo,foi Presidente da República

Entre o diálogo e a bomba :: Ferreira Gullar

DEU NA FOLHA DE S. PAULO/ILUSTRADA

Como pode Lula afirmar que está aberto ao diálogo um regime que não tolera divergência, como o do Irã?

O atual regime do Irã é um atraso. Trata-se de uma ditadura teocrática intolerante e cruel que não permite aos cidadãos iranianos manifestar-se contra qualquer decisão do governo.

As últimas eleições, que mantiveram no poder Ahmadinejad, foram descaradamente fraudadas e todas as manifestações populares de protesto, brutalmente reprimidas por tropas militares, sendo seus líderes, presos e condenados à morte.

Às vésperas da visita de Lula a Teerã, cinco deles haviam sido executados. O fanatismo religioso e o ódio aos discordantes é de tal ordem que os cega, a ponto de negarem, perante o mundo, fatos históricos incontestáveis como o massacre de judeus nos campos de concentração nazistas e a destruição das Torres Gêmeas.

Tamanha insensatez e intolerância, que beiram o ridículo, resultaram no isolamento do Irã, mesmo no Oriente Médio. Não obstante tudo isso, o presidente Lula tomou a iniciativa de romper esse isolamento e oferecer seu apoio fraternal ao governo de Ahmadinejad.

É impossível não perguntar: mas por quê? É, sem dúvida, uma atitude surpreendente, difícil de entender. Vejam bem: o Brasil não tem nem nunca teve vinculações estreitas, de qualquer tipo, com o Irã. Não há nenhum objetivo, seja político, seja comercial, que justifique arrostarmos com tamanho desgaste ao apadrinhar um regime repressor e movido pelo fanatismo.

Pior ainda: o apadrinhamento de Lula a Ahmadinejad implica a tentativa de justificar o projeto iraniano de fabricar armas atômicas, contrariando assim o Tratado de Não Proliferação, de que, como o Brasil, é signatário.

Lula faz que não vê, mas não pode ignorar as artimanhas do regime iraniano para escapar à fiscalização da Comissão de Energia Atômica, fingindo disposição de dialogar quando, de fato, tudo o que pretende é ganhar tempo e dar prosseguimento a seu projeto nuclear militar.

Assim foi que, diante de uma nação brasileira perplexa, Lula promoveu um encontro em Teerã com o presidente iraniano e o premiê da Turquia para produzir um suposto acordo que mostrasse a boa vontade do Irã em resolver o impasse.

Mal o assinaram (nele, o Irã prometia entregar 1.200 kg de urânio para serem enriquecidos na Turquia), um porta-voz iraniano declarava que o país continuaria a enriquecer urânio em suas centrífugas. Que sentido tinha então aquele acordo, se o objetivo era o Irã desistir de enriquecer urânio e assim inviabilizar a construção da bomba?

Sabe-se que o próprio Lula se surpreendeu com essa declaração do governo iraniano, mas, de novo, fechou os olhos e insistiu em avalizar as boas intenções do Irã, enquanto criticava os membros do Conselho de Segurança da ONU, que se dispunham a impor-lhe sanções.

Mas isso é coisa sabida e debatida. Difícil é entender por que Lula tomou essa posição, arvorando-se em defensor de um regime antidemocrático e ideologicamente primário, comprometendo desse modo o prestígio de nossa diplomacia, por todos respeitada, graças ao equilíbrio e isenção com que sempre atuou.

Como pode Lula afirmar que está aberto ao diálogo um regime fundamentalista que não tolera divergências? Todas as tentativas de entendimento com o Irã, promovidas pela ONU, fracassaram. Mas, Lula, sempre tão esperto, quando se trata de Ahmadinejad, faz-se de tolo, confia em tudo o que ele diz. Custa crer.

Chego a pensar que a explicação esteja em certas declarações suas, como aquela em que negou aos Estados Unidos e à Rússia autoridade para impedir que o Irã fabrique armas atônicas, uma vez que ambos possuem arsenais nucleares.

Com isso, desautorizou o Tratado de Não Proliferação e admitiu implicitamente que qualquer país -inclusive o Brasil- tem o direito de fazer a bomba. Seria essa sua verdadeira intenção, embora nossa Constituição o proíba? Talvez não.

Mas, no Fórum Mundial de Aliança das Civilizações, ao afirmar que o Brasil deseja um mundo sem armas nucleares, voltou a defender a tese, como se não fazer a bomba fosse uma concessão do Irã. E insistiu na necessidade de se preservar a paz no Oriente Médio. Mas não é o Irã que promete pôr fim ao Estado de Israel? Pretende fazê-lo pelo diálogo?

Guerras modernas irracionais:: Luiz Carlos Bresser-Pereira

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Com o fim da Guerra Fria, deixou de haver razão para uma aliança incondicional de Estados Unidos e Israel

Quando comparados com os impérios da Antiguidade, os Estados-nação representam um grande avanço para a humanidade, mas não devemos nos esquecer que nasceram do capitalismo e da guerra.

Os monarcas absolutos dos dois primeiros Estados-nação modernos -o Reino Unido e a França- se aliaram à burguesia nascente e foram financiados por ela com o pagamento de impostos e a oferta de empréstimos para ampliar as fronteiras do país e assim assegurar um mercado interno para a indústria.

Os Estados Unidos fizeram o mesmo no século 19.

Entretanto, depois que a democracia se impôs no mundo rico e depois da irracionalidade das duas grandes guerras (que foram um jogo de soma menor do que zero para os países europeus envolvidos), esses países compreenderam que as guerras haviam se tornado irracionais e construíram a União Europeia.

Entretanto, talvez porque os Estados Unidos se beneficiaram com essas duas guerras, eles continuam a acreditar nelas como forma não mais de expansão de suas fronteiras, mas de sua "influência" e como garantia antecipada de sua ""segurança nacional".

Nesse sentido, no quadro da Guerra Fria, aliaram-se com diversos países. Entre suas alianças, a mais duradoura e a mais perigosa foi a aliança com Israel -um país que continua empenhado em ampliar pela força seu território.

Uma ampliação pequena, mesquinha, mas que estimula o terrorismo e mantém a região em estado de guerra.

Nesta semana, Israel praticou mais uma violência, desta vez contra um comboio de barcos fretados por ativistas em favor da Palestina.

O mundo inteiro condenou o ato, o primeiro-ministro da Turquia -um tradicional aliado de Israel- identificou-o como a ação de um "Estado terrorista".

O Conselho de Segurança da ONU vai novamente ser chamado, mas afinal nada acontecerá, porque os Estados Unidos vetarão qualquer medida contra Israel.

Os Estados Unidos criaram para si próprios uma armadilha no Oriente Médio ao não perceberem que, com o fim da Guerra Fria, deixou de haver razão para uma aliança incondicional com Israel.

É compreensível que defendam Israel contra grupos islâmicos radicais, mas ao verem nessa aliança uma ponta de lança para alcançarem o domínio sobre a região, os Estados Unidos continuam a acreditar que o poder militar e a ameaça de retaliações ainda são a melhor forma de garantir seus interesses em região rica em petróleo.

O Brasil, em conjunto com a Turquia, deu um passo importante no sentido da paz ao promover um acordo que reduziu a probabilidade de se adotarem sanções ao Irã e dificultou a ameaça muitas vezes anunciada de bombardeio das instalações nucleares iranianas, mas, em relação ao problema Israel, não tem meios de intervir.

Como, então, evitar a escalada no Oriente Médio?

A única solução é que os Estados Unidos enfim compreendam que, no mundo moderno, o tempo das guerras iniciadas por grandes países já passou.

E que a democracia lograda livremente por cada país e medidas policiais adotadas em conjunto com eles são a melhor maneira de evitar o terrorismo e alcançar segurança nacional.

Um barco chamado Rachel :: Alberto Dines

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Ajuda humanitária, pacifismo, autodefesa - guerras começam com palavras truncadas, fatos dúbios, conceitos pervertidos, bandeiras adulteradas. Restabelecer significados pode ser o primeiro passo para desarmar os espíritos.

A tragédia do Mavi Marmara pode ser sucedida por outra, protagonizada pelo vapor Rachel Corrie com bandeira irlandesa, desgarrado da flotilha que deixou a Turquia e se dirigia à Faixa de Gaza para furar o bloqueio israelense.

Um mínimo de sensatez das partes pode evitar a repetição do episódio. Repetição evitada – ou pelo menos adiada – neutralizadas as paixões, criam-se imediatamente as condições para que a plateia global perceba com alguma precisão os contornos de um vulcão em irrupção há 63 anos.

Não se trata de recompilar todos os fatos que culminaram com a partilha da Palestina mas de desativar os dois vetores responsáveis pela contínua tensão que a ela se seguiu: a negação ao direito de existência de Israel e, como consequência, a obsessão israelense pelo uso exclusivo da força militar.

Forçado pelas constantes tentativas de varrê-lo do mapa, Israel meteu-se numa Linha Maginot esquecido de que não existem fortalezas inexpugnáveis. Obrigado a proteger-se num bunker há pelo menos três gerações, o país desenvolveu as neuroses e obsessões características de quem vive em permanente estado de sítio. A situação agravou-se há duas décadas com o fortalecimento de duas forças políticas insanas e aliadas – o fundamentalismo religioso e o nacionalismo de extrema-direita. Um era inexistente, o outro sempre esteve controlado ao longo dos primeiros 30 anos da biografia do País.

Israel sairá do bunker quando perceber a sua inutilidade. A devastadora derrota sofrida por Israel a partir da madrugada deste 31 de maio não foi causada por um ataque terrorista ou uma saraivada de mísseis iranianos mas por um velho e inofensivo ferry-boat mediterrâneo, nau-capitânia de uma flotilha turca. A incursão que encostou Israel contra a parede estava prevista há meses, mas a arrogância impediu que uma inovadora ação política de entidades islâmicas fosse contornada e desativada com igual criatividade e na mesma esfera. Israel não soube manter o seu único aliado islâmico: por mais de meio século a Turquia foi um fiel parceiro de Israel em todos os campos, inclusive militar. O progressivo afastamento do país do rígido secularismo implantado por Kemal Ataturk nos anos 20 do século passado e a re-islamização orquestrada pelo atual premiê Recyp Erdogan criaram as condições para que a tática de retaliações desproporcionais adotada pelos generais israelenses servisse de pretexto para um estranhamento e, em seguida, para um afastamento. Turquia e Israel estão irremediavelmente desgarrados. E isto é uma péssima notícia – para ambos. Inclusive para o Brasil que vê o seu parceiro do acordo nuclear com o Irã deixar a neutralidade e passar para o outro lado.

O chauvinismo da coalizão formada pelos religiosos e a direita israelense deixa isolado um Estado criado, mantido e louvado pelo consenso da comunidade internacional. Israel não pode ficar de costas para o mundo. É ilusória a percepção das lideranças israelenses de que os EUA endossarão todos os seus atos, mesmo os estúpidos.

A comunidade judaica americana é forte, articulada, os dois partidos a cortejam, mas convém reparar que o ex-presidente Jimmy Carter é hoje um dos mais rigorosos críticos de Israel no tocante aos palestinos e Hilary Clinton não esconde a sua irritação com as sucessivas malandragens armadas pelo governo de Benjamin Netanyahu. O próprio presidente Obama está mudando de tom: a despeito da proximidade das eleições a Casa Branca não pode ignorar que uma das nove vítimas do ataque ao Mavi Marmara era um jovem turco nascido nos EUA. Não ignora também que Rachel Corrie era uma ativista americana morta em 2003 na Faixa de Gaza ao enfrentar uma escavadeira israelense que derrubava casas palestinas. O barco que leva o seu nome poderá entrar para história como pavio de uma explosão ou réstia de esperança.


» Alberto Dines é jornalista

Lançamento do livro de Sérgio Moraes



Na próxima terça-feira, dia 8, no Museu da República (ver convite ao lado), vamos ter um reencontro de dezenas de amigos(as) e companheiros(as), não só por conta do lançamento do emocionante livro do nosso amigo Sergio Augusto de Moraes, com bebidas, tira-gostos e música chilena, além da intransferível e imprescindível oportunidade do reencontro.

Os astros íntimos :: Thiago de Mello


Consulto a luz dos meus astros,
cada qual de cada vez.
Primeiro olho o do meu peito:
um sol turvo é o meu defeito.
A minha amada adormece
desgostosa do que sou:
a estrela da minha fronte
de descuidos se apagou.

Ela sonha mal do rumo
que minha galáxia tomou.
Não sabe que uma esmeralda
se esconde na dor que dou.

A cara consigo ver,
sem tremor e sem temor,
da treva engolindo a flor.
Percorre a mata um espanto.

A constelação que outrora
ardente cruzava o campo
da vida, hoje mal demora
no fulgor de um pirilampo.

Mas vale ver que perdura
serena em seu resplendor,
mesmo de luz esgarçada,
a nebulosa do amor.



Barreirinha, Ponta da Gaivota, 97