segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Reflexão do dia - Fernando Henrique Cardoso

"O Brasil precisa de pontes. Porém, o governo do presidente Lula e o PT foram dinamitadores de pontes

Não basta intenção. O currículo é ruim. É de agressão.

O governo do presidente Lula se caracterizou pela intransigência. Um bom, outro é mau. E o mau, geralmente, do PSDB, sou eu. Está bem, julgamento deles. Espero que isso mude.
"


(Fernando Henrique Cardoso, em S. Paulo, ontem)

A via Dilma:: Ricardo Noblat

DEU EM O GLOBO

- “Não aspiro a ser, no exercício de meu mandato, senão o presidente de todos os brasileiros”(Eurico Gaspar Dutra)

Façam suas apostas, senhores: Dilma Rousseff esquentará a cadeira de presidente da República só para tentar devolvê-la a Lula daqui a quatro anos? Ou governará com o legítimo propósito de se reeleger? No primeiro caso, continuará tutelada por quem de fato a elegeu. Cumprirá uma missão que lhe foi dada. No segundo, governará com autonomia.

Dilma comportou-se como uma boneca durante a campanha no primeiro e no segundo turnos. Nada disse e nada fez que contrariasse Lula, seus mais ostensivos conselheiros políticos designados por ele (José Eduardo Dutra, presidente do PT, e Antônio Palocci, ex-ministro da Fazenda) e o responsável pelo marketing da campanha.

Compreensível. Dilma jamais disputara uma eleição. Jamais sonhara em ser candidata a presidente da República. Carecia de experiência. Foi uma aluna aplicada. E seria injusto não reconhecer que em vários momentos ela até surpreendeu positivamente os que a levavam pela mão.

Somente Lula e Dilma é que sabem qual foi a base do acerto feito entre eles. Em conversa informal com um grupo de jornalistas durante a campanha, o ex-marido de Dilma fez questão de sublinhar mais de uma vez: “Ela é de uma fidelidade canina a Lula. Jamais o trairá”. Os poucos políticos que a conhecem bem assinam embaixo.

Dilma é mandona. Tem ideias próprias. É dada a explosões de raiva. Não se constrange em tratar mal seus subordinados. A luta armada contra a ditadura militar de 1964 endureceulhe o espírito. Para sobreviver, ela não poderia falhar nem admitir que os outros falhassem. Respeito à hierarquia e disciplina são traços característicos dela.

É visível o desconforto de Lula com a proximidade do fim do seu mandato. Ele não esconde isso de ninguém. Escondeu que ao se reeleger em 2006 passou a acalentar o projeto de mudar a Constituição para concorrer a um terceiro mandato consecutivo. Sondou auxiliares e governadores a respeito. Não encontrou apoio como esperava.

O terceiro mandato consecutivo tinha duas contraindicações. A primeira: dividiria o país e custaria um bom pedaço da popularidade de Lula. O Congresso poderia aprová-lo, mas o Supremo Tribunal Federal talvez não. A segunda contraindicação: ele poria em risco a ambiciosa ideia do PT de governar por 20 anos – no mínimo.

Para que a ideia vingue seria necessário que entre Lula de 2002 a 2010 e Lula de 2014 a 2022 assumisse o cargo uma pessoa de confiança do PT e de Lula, agradecida por chegar à Presidência e conformada em só governar por um mandato. A não ser que Lula mais adiante desista ou não possa voltar ao poder. Desistir é improvável.

Ao falar de Dilma é tentador lembrar o general Eurico Gaspar Dutra, o 16opresidente da República do Brasil. Dutra foi ministro da Guerra de Getúlio Vargas, e também o líder do golpe militar que em 1945 derrubou Getúlio , ditador desde 1930. Em seguida, Dutra foi eleito presidente com o apoio de Getúlio.

Uma frase massificada pela campanha de Dutra ficou famosa e rendeu-lhe muitos votos: “Ele disse: Vote em Dutra”. No caso, “ele” era Getúlio. Dutra governou um país em boa situação financeira — como Dilma governará. Tinha seu Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) — o Plano Salte (Saúde, Alimentação, Transporte e Energia).

Era um desenvolvimentista – como Dilma. O Estatuto do Petróleo foi elaborado no seu governo. A partir do Estatuto, o país começou a construir suas primeiras refinarias e a adquirir seus primeiros navios petroleiros. Dutra pensou em angariar popularidade quando o Brasil sediou a Copa do Mundo de 1950. O campeão foi o Uruguai.

Outra frase de Getúlio marcou o final do governo Dutra: “Ele voltará”. No caso, “ele” era o próprio Getúlio, que sucedeu a Dutra e governou entre 1951 e 1954. Mas essa é outra história. Hoje, Dutra é mais conhecido como nome de estrada — a que liga Rio a São Paulo inaugurada durante seu governo. Boa sorte, presidente Dilma!

A contradição do discurso:: Demétrio Magnoli

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Foi um discurso inclusivo. Dilma disse que é presidente de todos os brasileiros, que vai defender a democracia, a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, os contratos, a estabilidade econômica. Ela se comprometeu com um programa que é do País, não de uma facção, não de um partido.

Dilma foi mais longe e agradeceu os eleitores da oposição e até mesmo os partidos de oposição. Quase disse a frase fundamental: a oposição é tão importante quanto o governo numa democracia. Se tivesse dito, parte do discurso chegaria à perfeição, do ponto de vista do que se pretende de um presidente de um país inteiro.

Ao mesmo tempo, por outro lado, ela pronunciou aquela narrativa que já se tornou padrão no atual governo - a de que a história do Brasil começou com Lula. Nas palavras infelizes que utilizou, a "genialidade" de Lula produz o desenvolvimento. É como se nada houvesse antes: a redemocratização, o plano real. Tudo se passa como se o governo Lula não estivesse inscrito numa trajetória histórica da Nação.

Essa forma de dividir a história em antes de Lula e depois de Lula, a.L. e d.L., contradiz todo o resto do discurso. A mensagem, enfatizada por um coro partidário que entoava o nome do "presidente salvador", funcionou como uma borracha, quase apagando o texto precedente. A melodia sobre o Líder e o Povo, assim com maiúsculas mesmo, sobre "o povo de Lula", entra em conflito com o discurso de princípios, que fala de democracia, de instituições, de liberdades, de contratos, de cidadania, de Constituição.

Um discurso bipartido, organizado sobre dois polos mutuamente excludentes. Há aquilo que se pretende afirmar e aquilo que se afirma sem se pretender. Essa é a contradição que vai demarcar o governo de Dilma. No fim, ela terá que escolher uma via ou a outra.


É sociólogo e doutor em Geografia Humana

Dilma no espelho :: Fernando de Barros e Silva

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Como a sua aprovação popular traduz, Lula fez um governo de comunhão nacional. Um governo que patrocinou ganhos consideráveis aos mais pobres sem que nenhum interesse dos poderosos tenha sido arranhado. O próprio presidente nunca cansou de alardear, referindo-se aos bancos: "Nunca ganharam tanto dinheiro". Valeria para empreiteiras etc.

Na quase totalidade das vezes, os enfrentamentos retóricos que Lula protagonizou foram apenas isso -brigas retóricas, fumaça verbal. Na condução da economia, ele foi conservador e extremamente cauteloso. Na política, concedeu o que foi necessário à tradição patrimonialista, abençoando o casamento da velha fisiologia com os piores aspectos do petismo. Ao mesmo tempo, seu governo agiu sobre o país como uma espécie de morfina social. É por isso que será lembrado.

Eleita por obra e graça do padrinho, Dilma Rousseff herda esse arranjo complexo e delicado que sustenta o lulismo. O que fará dele e com ele é uma grande incógnita.

Lula governou por assimilação, por cooptação, acomodando conflitos. Dilma terá essa vocação? Terá condições de exercê-la, diante da variedade de interesses e do gigantismo de sua base de apoio?

Há, no PT, quem veja nessa vitória a oportunidade histórica para executar uma política mais claramente de esquerda. Mas há, também, quem considere Dilma refém demais das circunstâncias, além de lulo-dependente, para ousar qualquer passo em falso. Entre visões díspares e até antagônicas, a futura Presidência parece mais cercada de dúvidas do que de expectativas.

Não tenho memória de outra candidatura presidencial no país tão ostensivamente tutelada. O gesso que Dilma usou numa das pernas durante parte da disputa talvez fosse a peça mais maleável da sua persona política. Ao acordar hoje, livre da armadura da campanha, é possível que a própria presidente eleita estranhe o rosto que estará a observá-la do lado de lá do espelho.

Previsibilidade :: Fernando Rodrigues

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASíLIA - Uma característica marcante e positiva da democracia é a previsibilidade. Nessa métrica, o Brasil está quase chegando lá quando se trata de cargos no Poder Executivo, em todos os níveis -prefeito, governador e presidente.

O round final da eleição de ontem entre Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) estava anunciado há quase um ano. Ninguém duvidava que a disputa ficaria entre o PT e o PSDB. Tem sido assim desde 1994, quando as eleições passaram a ter regras mais ou menos estáveis.

O grau de previsibilidade tem sido alto. Apesar de serem respeitáveis algumas das ideias introduzidas na campanha por Marina Silva (PV), sabia-se que sua candidatura não seria viável nas urnas.

Dentro dos partidos também há pouco espaço para surpresas. No PSDB, a escolha ficou entre Aécio Neves e Serra. No PT, Lula usou seus cerca de 80% de popularidade para nomear Dilma.

Essa lógica se repete nas grandes cidades, capitais e governos estaduais. Basta olhar o que se passou em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro nesta eleição.

Os candidatos mais bem colocados (depois vitoriosos) já eram conhecidos há meses por todos interessados.

Essa previsibilidade para cargos no Executivo é boa para todos. Nos anos 80 e 90, era comum a classe média se esvair em elucubrações sobre onde esconder suas economias nos períodos pré-eleitorais. Hoje, ninguém nem pensa em tirar o dinheiro do banco na véspera de votações importantes.

A normalidade democrática só não chegou ao Legislativo. Regras esdrúxulas tornam pouco transparentes as disputas para o Congresso. O desafio dos próximos anos é promover algum grau de previsibilidade também na escolha de congressistas. Uma cláusula de desempenho para os partidos e o fim das alianças em eleições proporcionais são opções objetivas para aperfeiçoar o modelo. São passos difíceis, mas que precisam ser dados.

Lula elege Dilma e aliados já articulam sua volta em 2014

DEU EM O GLOBO

Com 55 milheres devotos, petista se torna a primeira mulher eleita presidente do Brasil

Com dez milhões de votos a menos que os obtidos em 2006 em sua reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu ontem mais um passo no seu projeto de poder: transformou a ex-ministra Dilma Rousseff, que até então não havia disputado nenhuma eleição, na primeira mulher eleita para presidente do Brasil. O próximo passo do lulismo, a volta presidente em 2014, embora sempre negada; já é articulada por aliados no Congresso e auxiliares diretos do Palácio do Planalto. Na campanha presidencial mais longa em 2007 por Lula - e mais radical, no discurso e no uso da máquina pública, Dilma venceu com 55 milhões de votos (56%), contra 43,4 milhões de votos (43,9%) dados ao candidato oposicionista, José Serra, do PSDB. A candidata de Lula venceu no DF e em 15 estados - inclusive em Minas Gerais, seu estado natal. Em seu primeiro pronunciamento após a vitória, ao lado do vice eleito, o peemedebista Michel Temer, e do ex-ministro Antônio Palacci, Dilma, resistindo à emoção,incentivou as mulheres a se mirarem em seu exemplo, prometeu zelar pela ampla e irrestrita liberdade de imprensa e elogiou a "genialidade" do presidente Lula. Aos adversários, lançou palavras cordiais: "Estendo a mão aos partidos de oposição".

Volta de Lula em 2014, que rondará a gestão Dilma, já é articulada

Projeto de poder do PT prevê a possibilidade de retorno do presidente ao cargo, em quatro anos

BRASÍLIA. Desde o primeiro dia do novo governo, em 1ode janeiro de 2011, um fantasma deve rondar o Palácio do Planalto nos quatro anos de mandato da presidente Dilma Rousseff: a possibilidade de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltar a ser o candidato do PT em 2014. Embora negado o tempo todo, o tema é assunto frequente entre petistas e aliados, seja para alimentar a expectativa de poder, seja para tentar imobilizar Dilma e, até mesmo, para deixar a oposição em dúvida.

Um dos petistas com grande influência na campanha de Dilma, no comando do PT e com interlocução no Planalto diz que o assunto nunca foi discutido seriamente.

Ponderando sobre a distância que separa 2010 de 2014 e a impossibilidade de traçar planos dessa magnitude com tanta antecedência, esse petista lembra: “Se alguém dissesse, depois da eleição de 2006, que Dilma seria a candidata do PT em 2010, todos nós cairíamos na risada, não?”

Dutra: “É muito cedo para discutir isso”

De público, o assunto é tratado de forma cuidadosa.

Ontem, questionado sobre a possível volta à política nas próximas eleições, o presidente desconversou. Disse que não sabe se estará vivo em 2014.

O comando do PT já tenta tirar o assunto da pauta.

— A tarefa de Dilma é fazer um bom governo. A questão de 2014 fica para um momento oportuno. O Lula sai com a aprovação consagradora, com mais de 80% de bom e ótimo. Ele teria que voltar com a obrigação de superar isso — disse o presidente do PT, José Eduardo Dutra. — Não sei se ele gostaria de voltar. Mas ainda é muito cedo para discutir isso.

Mas integrantes do PT avaliam que o retorno de Lula é a única forma de garantir o projeto de poder de 20 anos. Alguns lulistas até dizem que Lula será candidato, independentemente do desempenho de Dilma. A escolha da petista para sua sucessão foi baseada na confiança de que ela, sempre leal, não dificultaria uma eventual volta dele.

O que confirma esse fantasma inevitável é que em nenhum momento, quando foi questionado sobre sua volta, Lula foi enfático na negativa.

Pelo contrário, deixou a questão em aberto.

Lula: "Conjuntura do momento vai indicar"

Há três anos, quando abordado em uma entrevista, Lula não descartou um retorno em 2014. Na ocasião, disse que não poderia trabalhar com essa hipótese em sua cabeça porque seria o seu “fracasso”.

Mas ressaltou: “Se essa coisa tiver de acontecer, a conjuntura do momento vai indicar”.

Nos últimos dias, um outro ministro com influência no governo lembrava que a oposição errou ao apostar na possibilidade de um terceiro mandato para Lula. Enquanto isso, acrescentou essa fonte, Lula preparava a candidatura governista.

— Por que iríamos nos preocupar com o terceiro mandato se o nosso projeto é de 20 anos: dois mandatos de Lula, mais quatro anos de Dilma e outros oito anos de Lula? Ficaremos no poder até 2022 — disse um petista.

Mas a avaliação está longe de ser um consenso dentro do PT. E Lula não tem dado pistas concretas. Dilma sempre foi cautelosa em relação ao tema.

No início de julho, disse, de forma “ mineira ” , que “quando chegar a hora” vai conversar sobre isso. Internamento, ela teria deixado escapar essa possibilidade.

Dilma é eleita

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Primeira mulher a ocupar o cargo, petista teve 56% dos votos e será o 40º presidente

Dilma Rousseff, 62, será a 40ª pessoa a assumir a Presidência do Brasil. Primeria mulher e primeira ex-guerrilheira a ocupar o cargo, a petista nunca havia disputado eleição e era praticamente desconhecida dos eleitores quando foi escolhida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A posse é em 1º de janeiro de 2011.

Com 99,99% apurados, Dilma somava 56% dos votos válidos; seu rival, José Serra (PSDB), ficou com 44%. Na primeira fala como eleita, ela prometeu erradicar a miséria no país e valorizar a democracia.

Primeira mulher eleita tem 56% dos votos

PETISTA PROMETE ZELAR POR LIBERDADE DE IMPRENSA E DE CULTO OPOSIÇÃO VAI GOVERNAR 53% DOS ELEITORES DO PAÍS LULA PEDE QUE MANTEGA E MEIRELLES FIQUEM E PALOCCI NA CASA CIVIL

Vera Magalhães
Editora de Poder


Dilma Vana Rousseff, 62, foi eleita ontem a primeira mulher presidente da República do Brasil. Com 99,98% dos votos apurados, ela tinha 56% dos votos válidos.

Seu triunfo é uma vitória pessoal do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que escolheu uma técnica neófita em eleições para sucedê-lo, à revelia de seu partido, o PT.

Dilma teve uma escalada de 8% de intenções de votos no fim de 2008, segundo o Datafolha, para a vitória num acirrado segundo turno.

José Serra (PSDB), 68, que disputou o cargo pela segunda vez, teve 44% dos válidos.

Dilma teve 12 milhões de votos a mais que Serra, 10,7 milhões só no Nordeste. Também venceu no Sudeste, graças a votações maciças no Rio e em Minas -Estado de Aécio Neves, que terá de costurar com os paulistas para se sagrar novo líder tucano.

Se por um lado Lula conseguiu transferir parte de sua aprovação recorde de 83% para Dilma, por outro a oposição obteve lastro para se contrapor ao poder central: PSDB e DEM governarão 53% dos eleitores brasileiros.

Dilma será a 40ª pessoa a ocupar a Presidência. Sua vitória tem outras características inéditas: será a primeira vez em 84 anos em que haverá um ciclo de três presidentes eleitos diretamente.

Eleita por uma coalizão de dez partidos, Dilma terá o desafio de exercitar o diálogo, em contraposição ao perfil técnico que sempre teve.

Ao chegar ao poder sem nunca ter disputado eleições, terá de esclarecer aspectos ainda nebulosos de sua vida, como a participação na resistência à ditadura militar (1964-1985). Também não está claro que programa de governo vai implementar.

No discurso da vitória, Dilma citou Barack Obama ao dizer: "Sim, a mulher pode".

Prometeu erradicar a miséria e zelar pela democracia e pela "ampla e irrestrita" liberdade de imprensa e religiosa.

Lula pediu à aliada para manter Guido Mantega na Fazenda e Henrique Meirelles no Banco Central.

Também trabalha para fazer de Antonio Palocci o titular da Casa Civil. Em entrevista à Folha ontem, Palocci disse que o novo governo manterá a austeridade fiscal.

A vitória de Lula

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Com 55% dos votos, Dilma Rousseff (PT) é eleita a primeira mulher presidente do Brasil; Serra diz que batalha foi desigual

O presidente Lula alcançou seu objetivo de obter a terceira vitória consecutiva numa eleição presidencial. A maioria dos eleitores atendeu ao seu chamado de votar em Dilma Rousseff, tornando-a a primeira mulher presidente da história do Brasil. Desconhecida de grande parte dos brasileiros até o início do ano, a ex-ministra da Casa Civil, de 62 anos, venceu sem nunca ter disputado uma eleição, derrotando o experiente José Serra, de 68 anos. Apurados mais de 90% das umas, Dilma teve 55% dos votos válidos, e Serra, 45%. Ao longo da contagem, a diferença se manteve em torno dos 10 milhões de votos. Assim como no primeiro turno, o Nordeste desempenhou papel importante na vitória da candidata do PT. Dilma obteve cerca de 70% dos votos na região. O Sul, por outro lado, voltou a ser a única região em que Serra foi mais votado, com cerca de 54%. Nas demais regiões, Serra também aumentou sua votação no segundo turno em relação ao primeiro, mais do que Dilma, mas não o suficiente para alcançá-la. A petista prometeu "governar para todos" e conversar com “todos os brasileiros". Para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, porém, "o governo Lula e o PT foram dinamitadores de pontes".

Dilma, a 1ª presidente do Brasil

Eleitor atende a chamado de Lula e dá 56% dos votos à candidata do PT

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conquistou ontem a terceira vitória consecutiva em uma eleição presidencial. A maioria dos eleitores atendeu ao seu chamado de votar na sua ex-ministra da Casa Civil Dilma Rousseff, tornando-a a primeira mulher presidente do Brasil. Desconhecida de grande parte dos brasileiros até este ano, Dilma chega aos 62 anos à Presidência sem ter disputado eleição antes, derrotando José Serra, de 68, que foi senador, prefeito e governador de São Paulo, entre outros cargos.

A candidata do PT obteve 56% dos votos válidos, e o do PSDB, 44%. De um total de 99 milhões de votos válidos, a diferença foi de 12 milhões: 55,7 milhões para Dilma e 43,7 milhões para Serra. Apesar do feriado prolongado, a abstenção ficou dentro do padrão histórico: 21,5%. Assim como no primeiro turno, o Nordeste foi decisivo na vitória petista. Dilma teve na região 10,7 milhões de votos a mais do que Serra, ou 71% a 29%. Como ocorrera no primeiro turno, Serra voltou a vencer no Sul, por 54% a 46%. O candidato tucano ainda virou no Centro-Oeste, onde perdera no dia 3 de outubro, vencendo ontem por 51% a 49%. Serra cresceu mais do que Dilma no Sudeste, mas não o suficiente para superá-la: ela ganhou por 52% a 48%. No Norte, ocorreu o mesmo, e o resultado foi 57% a 43%.

Em pronunciamento às 22 horas, Dilma ressaltou a importância de sua eleição para as mulheres e prometeu erradicar a miséria e zelar pela liberdade de imprensa. "Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito", assegurou, em referência indireta aos escândalos de corrupção que atormentaram o governo Lula e a sua campanha. Serra fez discurso em seguida, em que cumprimentou Dilma pela vitória e agradeceu pelos votos: "Recebemos com respeito e humildade a voz do povo nas urnas."

PSDB governará mais e maiores estados

DEU EM O GLOBO

Derrotado pela terceira vez consecutiva na disputa presidencial, o PSDB saiu vitorioso nas eleições regionais: comandará oito estados, inclusive São Paulo e Minas, maiores colégios eleitorais. O PSB também sai fortalecido, dobrando de três para seis os estados sob sua administração. O PT mantém cinco governadores. O PMDB perdeu força: de seus oito governadores, ficará com cinco.

PSDB: sem Planalto, mas com 8 estados

Na nova geografia política do país, PSB comandará 6 governos estaduais; PT e PMDB, 5 cada; DEM, 2; e PMN, 1

Isabel Braga e André de Souza

BRASÍLIA. O PSDB perdeu a sua terceira eleição presidencial consecutiva, mas é o grande vitorioso nas eleições para os governos estaduais. O partido manteve o comando em estados de peso eleitoral, como São Paulo e Minas Gerais, e ganhou em outros seis, entre eles Paraná e Goiás. Os tucanos vão governar estados que respondem por 54,6% da economia brasileira e 47,5% do eleitorado. O PSB também sai bastante fortalecido nesta eleição, dobrando de três para seis os estados que comandará no próximo ano.

O PT continuará governando cinco estados, pois, embora tenha perdido no Pará e no Piauí, venceu no Rio Grande do Sul e no Distrito Federal. Estarão sob gestão petista 15,76% do eleitorado, que vivem em estados que respondem por 15,4% do Produto Interno bruto (PIB).

Já o PMDB perde sua força nos estados. Em 2006, o partido elegeu o maior número de governadores, totalizando sete.

Atualmente, governa em oito e o Distrito Federal, mas sai das urnas com apenas cinco. Manteve os governos de Rio e Mato Grosso do Sul, mas perdeu estados como Paraná, Santa Catarina, Amazonas e Espírito Santo. Em 2006, ganhara estados equivalentes a 22,83% do eleitorado brasileiro e, agora, os cinco conquistados representam 15,31%.

Protagonista do maior crescimento nominal em relação a 2006, o PSB conseguiu a façanha de, em termos numéricos, ultrapassar nos estados o PMDB e PT. Na opinião dos acadêmicos, o resultado fortalece o partido e seu apoio ao governo Dilma será fundamental para equilibrar a relação PT-PMDB, sendo um importante reforço na ala mais à esquerda da coligação.

— Mesmo sendo um partido de médio porte no Congresso, o PSB sai forte das eleições estaduais, com um bom crescimento.

Pode contrabalançar um pouco a relação do PT com o PMDB — analisa o professor de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais. — O partido cresceu no Nordeste e estará reivindicando, com razão, maior espaço no governo.

Dilma passa a ter um terceiro partido com força.

A eleição mais disputada deste segundo turno aconteceu em Roraima, o menor colégio eleitoral, com 271.890 eleitores.

O atual governador, José de Anchieta (PSDB), foi eleito por 1.800 votos sobre o adversário do PP, Neudo Campos.

Os governadores têm influência sobre deputados e senadores de seus estados e ajudam na arregimentação de votos no Congresso. O resultado das urnas mostra grande vantagem numérica dos aliados do presidente Lula e da presidente eleita Dilma em relação aos oposicionistas. São de partidos aliados a Dilma 16 dos 27 governadores eleitos; apenas 11 são de partidos de oposição. O mesmo de 2006.

Entre os aliados, o PSB elegeu seis governadores, o PT cinco, e o PMN, o governador do Amazonas, O mar Aziz. O PMDB também elegeu cinco, mas um deles, o governador André Puccinelli, de Mato Grosso do Sul, é considerado de oposição.

Embora em número menor, a oposição comandará estados estratégicos. Além dos oito estados do PSDB, o DEM comandará em Santa Catarina e no Rio Grande do Norte. Puccinelli é o 11ade oposição a Dilma. Em 2006, quando disputaram a Presidência Lula e o tucano Geraldo Alckmin, também foram eleitos 16 governadores que apoiavam o petista e 11 oposicionistas.

Em 2010, dos 20 governadores que tentaram a reeleição, 13 se reelegeram, e sete não foram reconduzidos.

O sonho da vida inteira fica pelo caminho

DEU EM O GLOBO

Derrotado pela segunda vez numa disputa presidencial, Serra terá mais dificuldades para voltar à cena em 2014

José Casado

Meio século atrás, José Serra viu-se pela primeira vez sob holofotes. Aos 16 anos, vestiu a pele de João Ignácio Car valho, protagonista de “Vento forte para um papagaio subir”, a obra inaugural do teatro orgiástico de José Celso Martinez Corrêa, um renovador da dramaturgia brasileira.

Na história, o personagem medita sobre a necessidade de libertação, de ruptura com a vida modorrenta na sua pequena cidade recém destruída por uma ventania.

Sempre gentil, e até bem-humorado, João Ignácio seduz o público e o leva à fronteira entre a representação e a realidade, com uma proposta de renascimento coletivo.

Cinco décadas depois, Serra voltou ao centro do palco, na disputa pelo papel mais cobiçado da arena política brasileira: — Eu me preparei a vida inteira para ser presidente — argumentou durante toda a campanha presidencial.

Não se sabe qual vai ser o seu rumo, após a segunda derrota em uma disputa pelo poder central (a primeira foi em 2002, quando perdeu para Lula.) Foi a décima eleição que disputou desde 1962, quando se elegeu no grêmio da Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

Derrotas nas urnas são sempre experiências inesquecíveis para a maioria dos políticos. Alguns superam, outros não. Lula, por exemplo, até hoje se ressente das duas eleições que perdeu para Fernando Henrique Cardoso, no primeiro turno.

No caso de Serra, que venceu sete e perdeu três — incluída a eleição de ontem — , elas delinearam “perfeitas curvas senoidais” na sua carreira.

Político amante da razão

Entre viagens ao topo e à planície da política, Serra guardou uma citação do poeta indiano Rudyard Kipling, anotada pelo escritor argentino Jorge Luis Borges: “Ninguém fracassa tanto como imagina.

Ninguém tem tanto sucesso como imagina.” E passou a repeti-la em discursos, numa espécie de eco do personagem João Ignácio quando, do palco, incitava o público a ter coragem para se libertar usando a própria razão: — (Faço essa citação) porque sei muito bem que eleição confere legitimidade jurídica ao governante — justifica. — Mas a confiança do povo, a única capaz de conferir amplitude e qualidade a essa legitimidade, só se mantém se o eleito for capaz de corresponder às expectativas criadas.

Aos 68 anos, agora terá de decidir se prossegue na política ou se recolhe à rotina de professor universitário. Ele é, antes de tudo, um político amante da razão. Estudou engenharia, fez mestrado em economia, é professor de matemática e se diverte com equações — eis o seu enunciado de um teorema da política: Progresso (P) resulta da soma de Esperança (E) com Competência (C), Obstinação (O), Vontade (V) e Ação (A) = PECOVA.
Hábitos cartesianos permeiam suas ações. Na Constituinte de 1988, negociou os capítulos da Carta sobre Tributação, Orçamento e Finanças a partir da divisão das dificuldades em quantas partes fosse possível e necessário para resolvê-las.

Planejava replicar a fórmula no governo.

No universo serrista, as leis numéricas estão sempre associadas às leis do mundo, e em paradoxal convivência com superstições, como sempre sair pela porta por onde entrou. Ele tem fascínio pela Física, mas reluta a aceitar viagens de avião — é mais pesado que o ar (até pouco tempo telefonava para alguém antes de embarcar, avisando que aquela poderia ser a última conversa).

Carrega a fama de mal humorado, o que considera uma injustiça. É hipocondríaco, avesso ao cheiro de alho e cebola e a latidos de cães na noite. Insone, escreve e telefona a amigos de madrugada — às vezes, enquanto faz exercícios.

Quem procurou pistas sobre o governo Serra na propaganda eleitoral, nas últimas dez semanas, pode ter se frustrado e visto um candidato aparentemente sucumbido à sedução do marketing, mas que saltou dos 32,61% dos votos no primeiro turno para pouco mais de 44% no segundo.

Ele, realmente, não se preocupou em explicar. Por exemplo: como manteria a coerência entre as promessas de austeridade fiscal, de aumento de gastos públicos e de redução de tributos (expandir programas sociais, elevar o salário mínimo para R$ 600, reajustar aposentadorias em 10% e cortar impostos sobre os salários, a cesta básica, a energia elétrica e o saneamento).

A eleição terminou em um indigente debate no segundo turno, sem que ficassem conhecidos os argumentos de Serra (assim como os de Dilma Rousseff) na discussão sobre os rumos da economia — especialmente sobre a responsabilidade fiscal na gestão das contas federais.

Experiência na área Serra tem: consolidou o capítulo constitucional sobre Orçamento, formulou a lei de diretrizes e ajudou a montar a comissão parlamentar setorial.

No governo Fernando Henrique Cardoso (1995, nove meses depois do Plano Real), executou um dos maiores cortes orçamentários da história republicana.

No dia da posse, convenceu o presidente a vetar praticamente todas as emendas feitas pelo Congresso. Ministro do Planejamento, Serra queria ter controle absoluto sobre o gasto público.

Ideias estão em livros e discursos

Provocou um terremoto político.

E sem êxito imediato, por causa de um reajuste (de 25%) acima da inflação (média de 20% ao mês) nos salários do funcionalismo, acordado no ano anterior, além de um aumento no salário mínimo, que afetou o caixa da Previdência. As contas governamentais pioraram. Na caça a recursos para fechar as contas, o Tesouro passou a pagar juros em média 35% acima da inflação a quem comprava títulos públicos.

O controle de gastos só começou a ter efeitos perceptíveis um ano depois.

— Quem governa deve acreditar no planejamento — repetiu em comícios. —

Cultivar a austeridade fiscal significa fazer melhor e mais com os mesmos recursos.

Governo com déficit galopante é governo fraco.

Até esboçou o anúncio de metas na direção do “déficit zero”, com mudanças para estimular o investimento, mas não foi além do ensaio.

Depois meio século empenhado na conquista do poder, Serra deixou de ser um mistério na política.

Suas ideias acumulam-se em livros, artigos e discursos.

Num arroubo, chegou a registrar dois deles na Justiça Eleitoral como “programa de governo”.

Mas, por razões insondáveis, o verdadeiro programa (280 páginas) jamais foi divulgado. O candidato se limitou a repetir uma síntese da sua visão do papel do Estado nos palanques: — É preciso que o Estado seja controlado por ele próprio, que funcione coerente, do ponto de vista moral, da eficiência e dos objetivos perseguidos, que aja em função do interesse público, distanciado das vorazes tentativas neopatrimonialistas de privatizá-lo. E é preciso, também, que o Estado seja cada vez mais controlado pela sociedade.

Como há 50 anos, na pele do personagem João Ignácio Carvalho, Serra voltou ao centro do palco com a proposta de superar limites para um renascimento coletivo. E como acontecera em 2002, não conseguiu a adesão suficiente do público.

Faltaram-lhe votos.

Serra: 'Estamos começando uma luta de verdade'

DEU EM O GLOBO

Ao reconhecer a derrota, tucano diz que era só um "até logo" e que oposição deve continuar lutando pela democracia

Silvia Amorim e Flávio Freire

SÃO PAULO. Ao reconhecer a derrota ontem à noite, o tucano José Serra deu a entender, em seu discurso de despedida, por volta das 22h30m, que pode voltar à cena política. Sem referências ao ex-governador e senador eleito Aécio Neves (MG), virtual candidato do partido à Presidência daqui a quatro anos, Serra disse que estava dando apenas um “até logo”. Ele chegou a interromper o pronunciamento, com a voz embargada.

— Minha mensagem de despedida neste momento não é de adeus, mas um até logo. A luta continua — disse, na sede do comitê de campanha, no edifício Joelma: — E, para os que nos imaginam derrotados, quero dizer: nós apenas estamos começando uma luta de verdade.

O tucano também fez questão de fazer um agradecimento especial ao “querido amigo” Geraldo Alckmin (governador eleito de São Paulo), “que fez mais campanha para mim do que para ele mesmo”

“Quis o povo que não fosse agora”

Serra abriu seu discurso agradecendo aos 43,6 milhões de votos e parabenizando sua adversária, Dilma Rousseff (PT). Disse que disputou a eleição com “muito orgulho”, mas frisou: — Quis o povo que não fosse agora.

O tucano afirmou ter recebido o resultado com “respeito e humildade”.

Depois de agradecer à militância, disse que enfrentou uma das campanhas “mais terríveis” de sua trajetória política: — Nestes meses, quando enfrentamos forças terríveis, vocês construíram uma fortaleza.

Consolidaram um campo político em defesa da liberdade e da democracia no país — disse Serra, garantindo ter reunido neste período energia capaz de mantêlo na disputa com serenidade.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não compareceu à despedida de Serra da corrida sucessória. O tucano brincou com a ausência: — Ele (FH) deve estar em casa nos assistindo.

O candidato derrotado disse ainda que o PSDB sai da eleição fortalecido por conta dos dez governadores (na verdade, onze), entre tucanos e aliados, eleitos nesta eleição.

Em seguida, o candidato derrotado disse que o sentimento de confiança e esperança foi um legado que ele leva para os próximos anos: — A maior vitória que conquistamos nessa campanha não foi minha, mas de vocês.

Pode parecer estranho para um candidato que não ganhou, mas não vim falar de frustração, e sim de confiança e de esperança.

Serra disse que sua campanha ajudou a levantar as bandeiras da democracia, da liberdade e de causas sociais e econômicas do país. Afirmou ainda ter encontrado milhares de jovens, “assim como eu fui um dia”, dispostos a lutar por um país mais justo e democrático.

E partiu para o ataque: — Encontrei milhares de jovens que lutam por um país melhor, mais justo e mais democrático, onde os políticos são servidores do povo, e não se servem do povo.

Para encerrar o discurso de meia hora, Serra cantou a parte final do Hino Nacional. Ele deixou o comitê ao lado de amigos, da mulher, Mônica, e da filha, Verônica.

De manhã, ao votar, no Colégio Santa Cruz, no bairro do Alto de Pinheiros, Serra defendera alternância de poder.

Ele chegou para votar acompanhado da mulher, da filha, dos netos Antônio e Gabriela, e de aliados.

— Hoje, é o povo falando em todo o Brasil, é a beleza da democracia e, talvez, hoje mesmo, a beleza da alternância no poder que faria muito bem ao Brasil.

As palavras foram retribuídas com aplausos pelos eleitores que acompanhavam sua fala.Mas o clima do lado de fora do colégio não foi só de animação.

Pouco antes, um eleitor que exibia um cartaz com a frase “Serra vereador 2011” foi hostilizado por militantes tucanos.

Ao votar, Serra foi à urna com a neta, de 3 anos. Depois, posou para fotógrafos e cinegrafistas.

Juntaram-se a ele Alckmin, o senador eleito Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), o prefeito Gilberto Kassab (DEM) e o governador Alberto Goldman (PSDB). Todos vestiam camisas azuis claras.

José Serra: "Enfrentamos forças terríveis"

DEU EM O GLOBO

A íntegra do pronunciamento do candidato derrotado do PSDB a presidente, José Serra: “Quero agradecer aos brasileiros de todos os cantos do nosso território. No dia de hoje, os eleitores falaram. Nós recebemos com respeito e humildade a voz do povo nas ruas. Quero aqui cumprimentar a candidata eleita Dilma Rousseff e desejar que faça bem para o nosso país. Eu disputei com muito orgulho a Presidência da República. Quis o povo que não fosse agora. Mas digo aqui, de coração, que sou muito grato aos 43,6 milhões brasileiros e brasileiras que votaram em mim. Sou muito grato a todos e a todas que colocaram um adesivo, uma camiseta, que carregaram uma bandeira com o Serra 45. Meu imenso muito obrigado a vocês de todo o nosso país.

Quero agradecer também aos milhões de que lutaram nas ruas e na internet em defesa da nossa mensagem de um Brasil soberano, democrático e que seja propriedade do seu povo.

Vou carregar comigo cada olhar, cada abraço, cada frase que recebi em todo o Brasil. Cada mensagem de estímulo, de vibração, inclusive no meu Twitter, que tem centenas de milhares de participantes. E vou dizer a vocês uma coisa que disse muitas vezes: recebi toda energia para essa campanha, com sete meses, foram sete meses, desde que saí do governo de São Paulo, de muita energia, de muita movimentação e de muito equilibro que foi necessário. E chego hoje nesta etapa final com a mesma energia que eu tive ao longo dos últimos meses. O problema é como despender essa energia nos próximas dias e semanas. É uma energia que foi passada em todo o Brasil.

Insisto, nas ruas, em todos os lugares, as pessoas falando, as pessoas abraçando. E quero lembrar que, ao lado desses 43,6 milhões de votantes, recebemos também votos que elegeram dez governadores que nos apoiaram em todo o país.

Dos quais, um está presente: meu querido companheiro de muitas jornadas Geraldo Alckmin.

Quero dizer que se empenhou mais na minha eleição do que se empenhou na sua.

Mas a maior vitória que conquistamos nesta campanha não foi mérito meu, mas foi mérito de vocês. Pode parece estranho para um candidato que não ganhou a eleição, mas vim aqui não para falar de frustração, mas para falar da confiança e da esperança. Nestes meses duríssimos, quando enfrentamos forças terríveis, vocês alcançaram um vitória estratégica no Brasil. Cavaram uma grande trincheira. Construíram uma fortaleza. Consolidaram um campo político de defesa da liberdade e da democracia no Brasil. Um grande campo político em defesa da democracia, da liberdade e das grandes causa sociais e econômicas do nosso país, que estão aí vivas no sentimento de toda a nossa população.

Nossa campanha trouxe ao cenário eleitoral uma juventude que ama o Brasil, que a ma a liberdade. Encontrei os jovens no Brasil inteiro, pessoalmente, na internet, por todo o canto. Ao longo da campanha, vi em muitos deles, dos jovens, em centenas, em milhares, o jovem que também fui um dia, sonhando e lutando por um país melhor, como faço até hoje. Por um país melhor, mais justo e democrático, onde os políticos fossem servidores do povo e não se servissem do nosso povo. Vocês, repito, não imaginam quanto energia tirei daí. Como isso me jogou para diante, mesmo nos momentos mais difíceis.

E para os que nos imaginam derrotados, quero dizer: nós apenas estamos começando uma luta de verdade. Estamos no começo do começo. E vamos dar a nossa contribuição em defesa da pátria, da liberdade, da democracia, do direito que todos têm de falar e de serem ouvidos, da justiça social.

Vamos dar contribuição como partidos da nossa frente de partidos, como indivíduos, como parlamentares, como governadores.

Essa será a nossa luta dos próximos anos. Por isso a minha mensagem de despedida neste momento, não é um adeus é um até logo. A luta continua, viva o Brasil.

Vou aqui falar o último verso do nosso hino, que é muito significativo, que mais de uma vez eu disse na nossa campanha: “Mas se ergues da Justiça a clava forte,Verás que um filho teu não foge à luta, nem teme, quem te adora, a própria morte.

Terra adorada, entre outras mil, és tu, Brasil, ó Pátria amada! Dos filhos deste solo és mãe gentil, pátria amada, Brasil! ”

Futuro do tucano já é discutido por aliados

DEU EM O GLOBO

Uma hipótese é a presidência do PSDB

SÃO PAULO. As especulações sobre o futuro político do tucano José Serra já começaram. Nos bastidores de sua campanha, há quem diga que ele pode comandar a oposição, como presidente nacional do PSDB, ou tentar um novo mandato eletivo, como a prefeitura de São Paulo, em 2012. No caso do comando partidário, o mandato do atual presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), termina em março de 2011.

Os aliados são unânimes em dizer que essa é uma decisão que caberá exclusivamente a Serra:

- Não é adequado e é prematuro discutir agora se Serra será candidato novamente a algum cargo. O que sei é que o Serra vai continuar sendo um pensador político. Nos últimos 40 anos, sua dedicação foi à vida pública e acadêmica, e isso não vai mudar - afirmou o deputado Jutahy Magalhães (PSDB-BA), amigo de muitos anos do tucano.

- O Serra é um líder natural do PSDB. É uma voz que continuará, sem dúvida, a ser ouvida - disse o deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP).

Focado na campanha, o candidato evitou falar sobre seu futuro político, mesmo com as pessoas mais próximas.

- Ele nunca admitiu a hipótese de derrota e não abria espaço para discussão sobre alternativas - contou o secretário municipal de Esportes de São Paulo e deputado licenciado, Walter Feldman (PSDB-SP).

- O Serra é um líder natural do PSDB. É uma voz que continuará, sem dúvida, a ser ouvida - destacou o deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP). (Silvia Amorim)

Desafio é pacificar o país, diz Aécio

DEU EM O GLOBO

Candidato natural da oposição em 2014, senador eleito diz que "PSDB terá que revisitar sua história com altivez"

Adriana Vasconcelos
Enviada especial

BELO HORIZONTE. O ex-governador e senador eleito Aécio Neves (PSDB-MG) sai desta eleição como a principal estrela da oposição e como candidato natural à sucessão presidencial de 2014, por mais que os tucanos paulistas, em especial o governador eleito, Geraldo Alckmin, possam resistir à ideia. Ciente de seu papel, Aécio deu ontem o tom do discurso que pretende adotar até a posse do novo presidente.

Na sua opinião, o principal desafio do sucessor do presidente Lula será pacificar o país, depois da agressiva disputa travada nos últimos meses entre PT e PSDB. Ele diz que o PSDB terá que revisitar sua história com altivez.

— É preciso que tenhamos a capacidade de sempre nos sentarmos à mesa em busca de consensos nas questões que sejam importantes para o país. É preciso que existam parlamentares e homens públicos, nos dois campos, dispostos a conversarem — disse Aécio ontem pela manhã. — O presidente da República, quem quer que seja eleito, tem de estender a mão e chamar para uma grande convergência nacional em torno de uma nova agenda aquele grupo político que tenha perdido.

Na avaliação de Aécio, o PSDB precisa fazer uma reflexão após ter enfrentado novamente nesta campanha o mesmo dilema de 2006, quando tentou renegar seu passado: — O PSDB tem que revisitar a sua história, com altivez, enfrentar o debate com grandeza para apontar para o futuro.
Se o Brasil hoje vive o momento de desenvolvimento e crescimento econômico que vive, isso se deu não por obra de um governo ou de um governante. Reconheço avanços no governo do presidente Lula, mas eu gostaria de ver é uma nova fase no Brasil, um governo constituído pelo mérito das pessoas, pela qualidade, e não pela filiação partidária. Um governo que não caia nessa armadilha eleitoral de querer dividir o país em dois, um país dos ricos e dos pobres. O Brasil é de todos.

Aécio defendeu a continuidade da aliança do PSDB com o DEM, mas considera fundamental que ela seja ampliada.

No Senado, disse que trabalhará pela articulação de uma agenda para que o Legislativo não continue subjugado pelo Executivo.

FH: Lula governou com 'intolerância'

DEU EM O GLOBO

"Ele perdeu oportunidade de construir democracia mais tranquila e dinamitou pontes"

Gilberto Scofield Jr.

SÃO PAULO. Após criticar o presidente Lula por “abuso de poder político” nas eleições a favor de sua candidata, Dilma Rousseff, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso chamou o PT e Lula de “dinamitadores de pontes”, numa alusão ao quanto considera difícil uma eventual aproximação entre petistas e tucanos no futuro governo.

Ele culpa a intransigência e a intolerância do governo Lula pela polarização entre os partidos e no próprio país, o que impediria um debate mais construtivo sobre o futuro do Brasil.

O ex-presidente diz que o currículo petista é ruim, caracterizado por discurso agressivo e uso escandaloso da máquina pública na defesa de interesses partidários. Ele criticou a falta de visão conciliatória de futuro do PT e disse que, nos últimos oito anos, o partido “nunca acenou para oposição nenhuma”.

— O PT e o PSDB deveriam ter trabalhado por uma reforma política agora, já deveriam estar discutindo durante a campanha.

Mas tem que criar um clima, porque isso não é de repente.

Depois da transição que eu fiz para o Lula, que foi uma coisa bastante civilizada, esperava isso: mais cooperação. Não aconteceu.

Muito pelo contrário. O governo do presidente Lula se caracterizou pela intransigência, pela intolerância, um é bom, outro é mau. Espero que isso mude, ou então não avançamos politicamente.

E o Brasil precisa de pontes, mas a ponte tem que ser construída. Por enquanto, o governo do presidente Lula e o PT foram dinamitadores de pontes.

Fernando Henrique votou no Colégio Sion, em Higienópolis.

Ele foi aplaudido duas vezes por eleitores que gritavam sentir saudades de sua gestão na Presidência.

O ex-presidente elogiou o processo eleitoral como manifestação democrática legítima no país e disse que o Brasil saiu das urnas mais forte, mas condenou a imagem de “Brasil gigante” que o PT buscou passar na campanha. Ele condenou a soberba e a petulância com que o presidente Lula conduziu todo o processo, mas disse que não nutre mágoas: — Mágoa, a gente tem quando se sente lá dentro ofendido, e Lula não me ofendeu.

Mas ele perdeu a oportunidade de ter construído uma democracia mais tranquila. Se ele fosse menos agressivo, se ele entendesse que não é todo mundo contra ou todo mundo a favor, se ele tivesse uma visão mais pluralista, se ele fosse um pouquinho mais humilde, teria sido melhor. Eu já o convidei para tomar um café. Mas um café, porque todo mundo sabe que eu sou pão-duro, né?

Perguntado sobre os desafios do governo, listou problemas e voltou a reclamar da falta de discussão sobre o futuro do país: — Além das questões econômicas, que, aliás, foram deixadas de lado, nosso problema é criar uma boa sociedade, com respeito à democracia, sem abuso de poder por parte de ninguém, muito menos do presidente da República. Mais segurança para as pessoas, educação de melhor nível, emprego, respeito aos recursos naturais — afirmou. — (Tem que) Deixar de transformar o pré-sal, que é de todos nós, num slogan de campanha, para ser uma coisa realista, para saber o que fazer para o Brasil. É ter uma visão do meio ambiente, o que vai fazer com a matriz energética. Esses são os problemas do Brasil.

Aécio Neves: "José Serra teve um excepcional desempenho"

DEU EM O GLOBO

O ex-governador e senador eleito Aécio Neves (PSDB-MG) divulgou nota ontem à noite, após a confirmação oficial de que Dilma Rousseff (PT) vencera as eleições, elogiando o desempenho do tucano José Serra: “José Serra teve um excepcional desempenho durante toda a campanha eleitoral. Venceu obstáculos importantes e representou, com altivez e correção, valores éticos importantes do nosso povo.

O PSDB se orgulha do candidato e das propostas que apresentou ao país. Estou certo de que, com o tempo, ainda mais brasileiros vão ter consciência do importante papel desempenhado por ele nesse pleito.

Ao contrário do que pode parecer para muitos, o resultado de uma eleição não se resume a quem venceu e a quem perdeu.

Há o resultado político e o resultado eleitoral que nem sempre têm o mesmo significado.

Muitas vezes, tão importante quanto o resultado em si, é em nome do que se vence e em nome do que se é derrotado.

Ao defender os valores democráticos e éticos, ao criticar o aparelhamento da máquina pública, o PSDB se transformou na voz de setores importantes da nossa sociedade, que levaram as eleições presidenciais para o 2oturno.

Nesse sentido, do ponto de vista político, o PSDB sai das eleições maior do que entrou. E isso é bom para o Brasil.

Desejo que a presidente eleita Dilma Rousseff honre os compromissos assumidos com a população, realize uma gestão republicana e que seu governo tenha como marca a união. Que seja, sobretudo, generoso para com todos os brasileiros.”

Menor no Congresso, oposição terá de se unir

DEU EM O GLOBO

Além da derrota na urna, bancada perdeu vagas na Câmara e no Senado; governo terá maioria

Cristiane Jungblut

BRASÍLIA. Com a derrota para Dilma Rousseff na eleição presidencial, a oposição chegará menor e mais enfraquecida ao Congresso e terá que redefinir a forma de atuar na Câmara e no Senado.

Embora tenha perdido também vagas no Parlamento, a oposição controla os principais estados do país, com destaque para São Paulo e Minas. A saída para se fortalecer, segundo os próprios oposicionistas, é atuar em bloco e de forma unida, algo que os três partidos (PSDB, DEM e PPS) nem sempre conseguiram.

O primeiro teste dessa nova fase da oposição será na votação de gargalos que o governo de Dilma terá a partir de agora: a questão cambial, a lei de exploração do pré-sal, o Orçamento da União para 2011 e o reajuste do salário mínimo.

A presidente eleita terá maioria confortável na Câmara — que o governo Lula tem — e sobretudo no Senado, onde Lula teve sua maior derrota em 2007, com o fim da CPMF. Isso significa amplo poder para aprovar medidas provisórias e impedir instalação de CPIs.

Internamente, a oposição terá uma “dança das cadeiras” de lideranças parlamentares, em especial no Senado, onde, com empenho pessoal de Lula, foram derrotados nas urnas oposicionistas como os senadores Arthur Virgílio (PSDB-AM), Tasso Jereissatti (PSDB-CE) e Marco Maciel (DEM-PE). Agora, chega com força o senador eleito Aécio Neves, que é de Minas e tem pretensões presidenciais em 2014.

O PSDB também terá uma renovação de poder no comando interno, com a saída do grupo de José Serra e o crescimento do número de aliados dos governadores Geraldo Alckmin (São Paulo) e Beto Richa (Paraná).

Para o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), a oposição terá que ser muito mais “aguerrida”. Ele lamenta a falta de espaço que os partidos terão no Congresso.

— Será uma competição desigual entre governo e oposição. O governo tem maioria e vai fazer prevalecer sua vontade. A nossa única vitória foi a CPMF. Teremos uma oposição numericamente pequena, que terá que ser mais aguerrida do que o normal.

O líder do DEM na Câmara, deputado Paulo Bor nhausen (SC), concorda que a oposição terá que agir unida. Para ele, Dilma não tem experiência política para negociar com o Parlamento.

— Aparentemente, o governo tem maioria. Lula é um presidente experiente, mas Dilma é uma presidente fraca, não tem perfil de tratar com o Parlamento. A oposição está viva. Se o PSDB quiser sobreviver, vai ter que fazer oposição.

Constrangida, a oposição ainda viverá o dilema de defender ou não a proposta de mínimo de R$ 600 e reajuste de 10% para os aposentados — promessas de Serra que implicam em aumento de gastos.

Mas agora a defesa das propostas poderá ter o mérito de deixar o governo numa saia justa para negar um aumento maior.

A oposição tentará explorar a divisão da base de Dilma que se evidenciará já nos próximos dias, na disputa pelo comando da Câmara. PT e PMDB brigam pela vaga que será aberta com a saída de Michel Temer (PMDB-SP). O PMDB deverá comandar o Senado.

Renato Lessa: Ao contrário de Lula, Dilma não terá período de graça

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

ELEITA PRECISARÁ PREENCHER "VAZIO SIMBÓLICO" A SER DEIXADO POR ATUAL PRESIDENTE E COSTURAR BASE DE APOIO HETEROGÊNEA

Claudia Antunes

RIO - A transferência do apoio popular de Lula à presidente eleita Dilma Rousseff não transfere a ela a história pessoal do atual presidente, que impunha mesmo aos opositores um tratamento reverencial. É o que diz Renato Lessa, professor de teoria política na UFF (Universidade Federal Fluminense).

Esse dado, aliado à virulência da campanha deste ano, deve significar que a petista não desfrutará do período de graça que Lula teve entre a posse, em 2003, e as denúncias do mensalão, dois anos depois.

"Haverá oposição antes da posse", diz o cientista político, que conversou com a Folha na semana passada e ontem, após a divulgação dos resultados.

Para Lessa, Dilma também terá que preencher não apenas o "vazio simbólico" deixado por Lula, mas seu papel na costura de uma base de apoio heterogênea.

"Nosso sistema é hiperpresidencialista. Quem ocupar esse lugar terá que ser personalista."

Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Folha - Qual o significado da vitória de Dilma?

Renato Lessa - O resultado reitera a avaliação que Lula tem e reflete o efeito da presença do presidente na história brasileira e seu envolvimento na campanha. No futuro, a manutenção desse apoio vai depender da capacidade de Dilma de preencher o vazio deixado por ele não só em termos simbólicos, mas na costura de uma base de apoio heterogênea e com grupos às vezes antagônicos.Há também uma imensa expectativa do eleitorado que percebeu este governo como de melhoria de suas condições materiais. Um desempenho inferior nesse quesito pode reverter essa expectativa.
Negrito
A virulência da campanha terá efeito no governo?

A virulência está presente na relação entre oposição e governo desde a democratização. Tem a ver com a pouca sedimentação de uma cultura que, do ponto de vista do governo, reconheça a oposição como uma das versões possíveis do que o país deve ser, e com uma dificuldade da oposição de entender que sua derrota foi legítima.Em 2010, houve fatores particulares. A ideia foi atacar o adversário não como portador de um projeto que deve ser combatido, mas naquilo que o vincula ao Código Penal. Isso tem a ver com a miserabilidade da reflexão política, com a despolitização do imaginário e dos atores políticos.

Mas os escândalos denunciados pela imprensa são reais.

Sim, mas você não pode ter uma campanha na qual o escândalo seja a matéria fundamental. Não tem reflexão, não tem pensamento sobre a proposta de país que os candidatos representam. Os dois candidatos se apresentaram de modo despolitizado -uma era continuadora de uma obra e outro não dizia de quem é herdeiro, se apresentava como gestor.

E isso dificultará a relação entre o futuro governo Dilma e a oposição?

Se para ela é uma vantagem ter a transferência do apoio a Lula, por outro lado isso não lhe transfere a história pessoal do Lula.O Lula, por condensar uma série de trajetórias dentro dele, impôs uma situação reverencial mesmo na relação com a oposição. Os opositores que violaram a perspectiva reverencial foram derrotados nas urnas, como Artur Virgílio (PSDB-AM) e Tasso Jereissati (PSDB-CE).Então haverá a ausência de um recurso político fundamental do qual Lula dispôs. Isso, no governo, pode levar a um padrão diferente na relação com a oposição. Dilma não contará com o período de graça que Lula teve entre 2003 e o mensalão; vai ter oposição antes da posse.A relação com os parceiros da coalizão também mudará. Dilma vai lidar com profissionais da partilha do espólio público, há operadores no PMDB que são tétricos. Lula lidava com isso com esse recurso simbólico acumulado.A relação de Dilma com os movimentos sociais também será diferente. Esses movimentos viam em Lula um apaziguador, que chegava e dizia: "Esperem, calma, eu preciso de um certo quietismo por algum tempo, vou contemplar vocês de outra maneira". Não sei se isso é reprodutível no caso dela.Nosso sistema é hiperpresidencialista, as capacidades pessoais do presidente são fundamentais. Não se trata de personalismo. Quem ocupar esse lugar terá que ser personalista porque o sistema exige esse tipo de comportamento.

O principal eixo de intelectuais críticos ao governo Lula é o republicanismo. Dizem que o presidente se envolveu excessivamente na campanha, cooptou os movimentos sociais. Qual é sua opinião?

É um argumento forte, mas a experiência tucana também não foi muito republicana. É um argumento que vem da filosofia política, do alemão Immanuel Kant [1724-1804], que em determinado momento distinguiu o que chamou de "império paternal" de República. O império paternal é o domínio do despotismo -quando o poder é personalizado, o déspota pode até ser bom, mas a qualidade do governo depende da qualidade do governante.A ideia de República tem a ver com ideia da liberdade sob a lei, do procedimento impessoal. A tradição brasileira é muito marcada pelo poder pessoal. Isso aparece na linguagem -o Serra fez, o Lula fez, a Dilma vai fazer.

Há algo mais a enfatizar?

A gente não sabe bem o que é uma República. Mas sabe o que não é, e não é republicano um debate político onde a religião apareça como divisor de águas.É uma coisa terrível que dois candidatos ateus desde criancinha -a não ser que tenham tido uma visão mística recente- tenham perdido a oportunidade ímpar de se dirigirem à nação juntos declarando que não tratariam de religião na campanha e professando uma posição ao menos agnóstica, como a única capaz de garantir a liberdade religiosa.Se tivessem feito isso, o efeito republicano seria notável. Mas não fizeram por oportunismo, por medo, pela lógica da acusação mútua. Isso mostra como os atores políticos não estão à altura da nossa democracia.

Serra diz que enfrentou 'forças terríveis' na campanha e se despede com 'até logo'

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Tucano cita vitórias nos Estados como exemplo de força da oposição, ignora Aécio Neves e faz elogios a Alckmin

Julia Duailibi, Roberto Almeida

Ao reconhecer ontem a vitória da adversária Dilma Rousseff (PT), o candidato derrotado à Presidência da República, José Serra (PSDB), afirmou que o "povo" não quis que sua eleição fosse "agora" e se despediu do eleitor com um "até logo".

"Minha mensagem de despedida nesse momento não é um adeus. Mas é um até logo. A luta continua", disse o tucano, no comitê de campanha, no centro de São Paulo.

Derrotado pela segunda vez na corrida pelo Palácio do Planalto, Serra fez um breve discurso ao lado da família e das principais lideranças da oposição no final da noite de ontem. Durante os 10 minutos em que falou, sinalizou que pretende se manter como protagonista no cenário político brasileiro. "Quis o povo que não fosse agora", afirmou o tucano, com os olhos marejados.

"Para os que nos imaginam derrotados, eu quero dizer: nós estamos apenas começando uma luta de verdade. Estamos no começo do começo desta luta. E nós vamos dar nossa contribuição ao País em defesa da pátria, da liberdade, da democracia e do direito que todos têm de falar e da justiça social", afirmou Serra.

"Vamos dar nossa contribuição, nossa frente de partidos, de indivíduos e de parlamentares. Essa será nossa luta", completou.

Acompanhado dos presidentes do PSDB, Sérgio Guerra (PE), do DEM, Rodrigo Maia (RJ), do governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin, do prefeito paulistano, Gilberto Kassab (DEM), entre outros, o tucano disse receber a derrota com "respeito e humildade". Agradeceu a votação e os militantes, cumprimentou Dilma pela vitória, desejando que "faça bem" para o País, e enalteceu o empenho da campanha do PSDB em combater, segundo ele, "forças terríveis" em "meses duríssimos".

Confiança. Aliados disseram que o tucano recebeu com serenidade e tranquilidade o resultado, mas que ficou bastante "abatido" com a derrota. "Achei que fosse ganhar", teria dito Serra a um dos coordenadores de sua campanha. Antes de receber a notícia, o tucano estava confiante. Almoçou no Palácio dos Bandeirantes com os principais apoiadores de sua campanha e com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que se manteve afastado durante a disputa eleitoral. No encontro, Serra fez piadas e contou histórias das viagens que fez pelo País.

Após a definição de que a vitória de Dilma era irreversível, o tucano refugiou-se na casa do secretário de Cultura, Andrea Matarazzo, no Jardim América, para escrever o discurso da derrota. Enquanto isso, líderes do DEM, PSDB e PPS reuniram-se para discutir o futuro da oposição e a forma como os partidos se posicionarão diante do governo Dilma.

Numa tentativa de mostrar que a oposição não estaria enfraquecida com sua derrota, Serra citou a vitória de dez governadores do PSDB nas urnas. Falou, especialmente, de Alckmin, com quem manteve relação conflituosa no passado. Os dois tucanos acabaram a corrida eleitoral mais próximos, em razão do empenho do governador eleito na eleição presidencial - o candidato, porém, não citou o senador eleito por Minas Gerais Aécio Neves.

"Quero lembrar ainda que ao lado desses 43 milhões e 600 mil recebemos também votos que elegeram dez governadores, que nos apoiaram em todo o nosso País, entre os quais um está presente", observou Serra. "Meu querido companheiro de muitas jornadas Geraldo Alckmin. Você se empenhou na minha eleição mais do que se empenhou na sua, sinceramente", anotou.

Serra agradeceu à população a energia que recebeu e brincou sobre o que fará com ela no futuro. "Recebi toda a energia para essa campanha - foram sete meses, de muita movimentação e equilíbrio também - que foi necessário. Chego hoje nessa etapa final com a mesma energia, o problema é como despender essa energia, que me foi passada por todo o Brasil", disse o tucano.

Após encerrar seu discurso, pediu a todos que cantassem os últimos versos do Hino Nacional, que considera "muito significativos". Em seguida, cumprimentou correligionários e sua mulher, Monica Serra. Ao finalizar, chamou ao palco a filha, Verônica, alvo de quebra de sigilo fiscal em episódio que marcou a campanha presidencial.

Serra já havia encerrado o discurso, quando Verônica cochichou em seu ouvido.

Havia esquecido de agradecer alguém. "E um abraço ao Fernando Henrique, que está nos assistindo pela TV", assinalou.

Colaborou Ana Paula Scinocca

Serra erra ao optar pelo não-confronto

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Tucano não consegue convencer eleitores de que ele, e não Dilma, era o candidato ideal para assumir o legado de Lula

Christiane Samarco / BRASÍLIA

José Serra chegou ao final da segunda campanha presidencial - e mais uma vez derrotado - carregando dois grandes erros. Primeiro, o tucano não conseguiu anular a guerra eleitoral plebiscitária montada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para Dilma Rousseff. Segundo, abrindo mão de se apresentar como candidato de oposição.

Serra não conseguiu convencer o eleitor de que ele deveria trocar a "continuidade" prometida por Lula por um novo governo tucano.

Depois de admitir que Lula era um personagem da política "acima do bem e do mal" e de dizer que "candidato a presidente não é líder da oposição", Serra fez uma campanha com tanto ziguezague que, diante, novamente, da acusação de "privatista", encheu o horário eleitoral com propaganda em que revidava acusando Dilma de "já ter vendido parte do pré-sal a estrangeiros".

A expectativa inicial era bem diferente. Quando o então governador de Minas Gerais e senador eleito Aécio Neves discursou no dia 10 de abril a cerca de 3,5 mil dirigentes e militantes do PSDB, DEM e PPS, no pré-lançamento da candidatura Serra, o tucanato identificou ali o mote para a campanha de oposição. Sob aplausos entusiasmados do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e apupos de toda a plateia, Aécio voltou sua artilharia de críticas e ataques ao PT e ao modo petista de governar.

Grato pelo discurso firme de apoio do mineiro, Serra chegou a beijar Aécio na face. Mas a cortesia política parou aí. Lançada a candidatura, o ex-governador não foi chamado para discutir e definir as táticas da campanha. Ao contrário, os encontros iniciais com Fernando Henrique e o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) acabaram suspensos pelo próprio Serra.

"São reuniões da agenda negativa", queixava-se o candidato Serra. Além da resistência a críticas e sugestões, havia o temor de que eventuais reparos vazassem para a imprensa. Serra não ouviu os líderes tucanos ao longo da campanha até a votação em primeiro turno. Colocado de escanteio, FHC não escondeu a mágoa nem a decepção com o candidato que não assumia o legado de seu governo e acabou perdendo a identidade.

Em desabafo a um interlocutor na ocasião, Aécio fez a seguinte síntese dos rumos da campanha do paulista: "Serra só queria apoio eleitoral, e não apoio político". A queixa generalizada do tucanato foi a de que o candidato à Presidência "não abriu espaço para discussões políticas dentro da campanha". Ao final do primeiro turno, o mesmo Aécio sintetizou a situação: "Serra foi candidato como quis, com o discurso que quis e da forma que quis."

Tanto é assim, que entrou na campanha com a vaga de vice aberta e arrastou a definição até o final do prazo legal para registrar a chapa. Não bastasse a recusa de Aécio em compor a "chapa puro-sangue do PSDB", que soava como derrota, Serra ainda esticou a corda a ponto de comprar briga com o DEM e de se desgastar interna e externamente com a escolha.

Ao final, o anúncio do vice Índio da Costa (DEM-RJ) não agregou votos nem apoios.
A partir daí, Serra fechou a campanha, interrompendo o diálogo com tucanos e aliados. Ignorou o conselho político, que não se reuniu uma vez sequer, e se isolou da máquina partidária e dos aliados.

O DEM reclamou muito do candidato que passou o primeiro turno preocupado em não confrontar o presidente Lula. "Fazer oposição é um dever e ganhar é uma consequência", dizia o líder do DEM na Câmara, Paulo Bornhausen (SC), que tocou a campanha em Santa Catarina sob ameaça de Lula de "exterminar" os Bornhausens da política.

Coordenação confusa. Serra não entrou na polêmica, até porque não montou um time nos Estados para tocar a campanha e ignorou os coordenadores regionais escalados pelo presidente do partido, senador Sérgio Guerra (PE). O candidato deixou claro que não queria reuniões com coordenadores. "Vão ficar reclamando e pedindo coisas. Isso não é bom", justificou.

Como não interagia com as regionais do PSDB e das legendas aliadas, acabou fazendo uma campanha de improviso Brasil afora. As programações eram definidas à última hora, sem mobilização. Surpreendidos com visitas não programadas, aliados se irritavam e reclamavam do candidato. Os erros foram tantos, que, diante da perspectiva de um segundo turno, a recomendação do comando da campanha a Serra foi uma só: "Não faça nada. Deixe que a tendência atual se encarregue de levá-lo ao segundo turno."

Apesar dos problemas, nos 20 dias que antecederam o primeiro embate a equipe de marketing apostava no segundo turno, tomando por base levantamentos internos. Receberam o resultado das urnas sem planos de mudança, mas líderes aliados e do PSDB já davam como certa a rediscussão dos rumos da campanha. Diziam que queriam mudar até o visual e o "astral" do candidato, e conseguiram.

Quando a campanha eletrônica recomeçou no rádio e na televisão, o tucanato finalmente gostou do que viu. Alívio geral diante da avaliação de que, no primeiro turno, Serra apostara tudo no programa de televisão e errara no marketing da campanha.

"O primeiro programa de televisão do Serra escureceu a humanidade. Foi tão ruim, que todo mundo se desorientou", lembrou Sérgio Guerra. "O candidato estava feio, o programa estava triste e a mensagem era desastrosa, com o Serra falando coisas que o povo não queria ouvir e não entendia." Já no segundo turno, todos estavam de acordo que o marqueteiro Luiz Gonzalez finalmente "acertara a mão".

Esperanças renovadas, a expectativa do tucanato era de que estava de volta o Serra dos acertos. Serra assumiu a segunda candidatura despido do perfil de desagregador e com uma imagem renovada de candidato que soma e agrega aliados. Ainda assim, o eleitor preferiu a "continuidade" e não viu em Serra razões para trocar de governo, repetindo o panorama político de 2006. Como hoje, o eleitor não viu na reeleição daquela época motivos para trocar Lula por Alckmin.

AS RAZÕES DA DERROTA

A avaliação que os líderes fazem da campanha de Serra

Falta de combatividade

Serra chegou a dizer que "Candidato a presidente não é líder da oposição" e "Lula está acima do bem e do mal"

Campanha atrasada

Entrou tarde na campanha e "queimou parte do recall" de ex-candidato, que girava em torno de 35%

Discussão política falha

Não convocou Aécio Neves para definir estratégias da campanha. Os encontros iniciais com FHC e Tasso Jereissati, em São Paulo, acabaram suspensos porque ele dizia que eram "reuniões da agenda negativa"

Má coordenação com MG

Aécio queixou-se de que Serra só queria apoio eleitoral, e não apoio político

Escolha equivocada do vice

Criou falsa expectativa em relação à possibilidade de Aécio aceitar o posto de vice, transformando a definição em derrota. Esticou a corda até comprar briga com o DEM. O escolhido, Índio da Costa, não agregou votos nem apoios

Rejeição do rótulo de oposicionista

Não assumiu o legado da oposição e adotou um discurso pós-Lula, vestindo um figurino que na realidade não era dele

Aposta exagerada no horário da TV

Apostou tudo no programa de TV e errou no marketing da campanha

Campanha improvisada nos Estados

Não montou um time nos Estados para tocar a campanha e ignorou os coordenadores regionais. Surpreendidos com visitas não programadas do candidato, aliados se irritavam e reclamavam

Desmobilização na internet

Serra também mandou desmontar o núcleo de internet do partido, que começara a atuar em 2009. O grupo estava mobilizado com um mailing de 100 mil pessoas, das quais 10 % foram filtradas como simpatizantes que multiplicavam as notícias do partido. Toda esta estrutura foi desativada.

Apenas surfando na onda

Os erros foram tantos, que, diante da perspectiva de 2º turno, a recomendação do comando da campanha a Serra foi uma só: "Não faça nada. Deixe que a tendência atual se encarregue de levá-lo ao 2º turno." A orientação era para apenas "surfar" na onda da candidata Marina Silva

Aécio e Marina lideram apostas para 2014

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Assim como os dois, há outras lideranças mais jovens que aproveitaram a eleição deste ano para se consolidar

Marcelo de Moraes

Com a eleição presidencial polarizada pela petista Dilma Rousseff e pelo tucano José Serra, uma corrida política paralela foi deflagrada para garantir posições vantajosas na disputa de 2014. Assim, projetos nacionais de poder já foram incubados em várias disputas regionais.

Alguns desses movimentos foram bem claros. É o caso do ex-governador mineiro Aécio Neves (PSDB) e da senadora Marina Silva (PV-AC). Mas há outros nomes desde já de olho na disputa de 2014: os governadores eleitos de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e do Paraná, Beto Richa (PSDB), além dos governadores reeleitos de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB).

Assim como Marina e Aécio, todos representam lideranças mais jovens que aproveitaram a eleição para se consolidar e ocupar papel de destaque no cenário político nacional.

Aécio, de 50 anos, ganhou tudo em Minas. Foi eleito senador com votação expressiva, emplacou o sucessor Antônio Anastasia (PSDB) no governo e garantiu a vaga de senador para o ex-presidente Itamar Franco (PPS), derrotando na mesma eleição o ex-ministro Hélio Costa (PMDB), e o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (PT). O resultado credencia o tucano como melhor aposta do PSDB para a sucessão presidencial daqui a quatro anos.

Marina Silva, de 52 anos, é nome consolidado para 2014. Credenciada por quase 20 milhões de votos no primeiro turno, mesmo contando com uma estrutura mínima de campanha e quase nenhum tempo de propaganda na televisão, ela se tornou a maior surpresa da corrida presidencial deste ano. Sua campanha bem sucedida formou uma base bastante sólida para a próxima eleição.

Geração. Eduardo Campos, de 44 anos, lidera o projeto nacional do PSB, que ampliou bastante sua representação no País. Cabral, de 47 anos, também se consolidou como maior liderança do Rio, deixando para trás grupos importantes representados pelo ex-prefeito Cesar Maia (DEM) e pelo ex-governador Anthony Garotinho (PR). Passa a ser mais importante ainda se o PMDB decidir bancar um projeto de candidatura presidencial descolado da parceria com o PT.

Entre os tucanos, Alckmin, de 57 anos, dá a volta por cima na sua trajetória política com a eleição para o governo de São Paulo.

Comandando o Estado mais populoso do País, passa a ter importância política para planejar uma nova campanha para o Palácio do Planalto, depois de ter sido batido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006.

Beto Richa, de 44 anos, saiu da Prefeitura de Curitiba para o comando do governo do Paraná, derrotando o senador Osmar Dias (PDT), que tinha o apoio de Lula e do governador Roberto Requião (PMDB). Os dois tucanos, no entanto, precisariam antes superar o bom momento de Aécio dentro do partido.

Na prática, a transição entre as disputas de 2010 e 2014 representa uma espécie de troca de gerações na política brasileira. Depois de dois mandatos, Lula deixará o governo com 65 anos. Pode até tentar um novo mandato em 2014, mas já estará perto dos 70 anos. Os dois principais candidatos à sua sucessão também passaram dos 60 anos. José Serra tem 68 anos e Dilma está com 62 anos. Eleita, é candidata quase certa à reeleição.

Há ainda o caso do deputado Ciro Gomes, de 52 anos, que sonhava com sua terceira campanha presidencial, mas viu o plano ser barrado pela direção do PSB e pelo próprio Lula e não disputou nenhum cargo este ano.

Projetos regionais. Um bom resultado nas eleições, entretanto, não garante o sucesso dessas incubadoras políticas. O principal problema é que, tradicionalmente, a maioria dos partidos não desenvolve projetos de poder em nível nacional. Preferem concentrar suas atenções nas disputas regionais onde possuem lideranças expressivas.

Ciro Gomes experimentou na pele a situação este ano. O PSB preferiu investir na parceria nacional com o PT em torno da candidatura de Dilma e ganhar o apoio petista em campanhas estaduais consideradas estratégicas pelo partido. Em troca, o PT decidiu abrir mão de candidaturas em locais importantes, como Ceará, Pernambuco e Espírito Santo, por exemplo. A estratégia garantiu a vitória do PSB nesses três Estados já no primeiro turno.

Essa falta de interesse dos maiores partidos em ter candidatos na eleição para o Palácio do Planalto fica clara na atual disputa. Entre os partidos com representação expressiva dentro do Congresso, apenas PT, PSDB, PV e PSOL bancaram candidaturas majoritárias - outras cinco legendas pequenas também participaram da disputa.

O PMDB é o principal exemplo desse tipo de comportamento. Apesar de ser líder em número de parlamentares dentro do Congresso e sempre ter número expressivo de governadores, não lança um candidato à Presidência desde 1994, quando Orestes Quércia terminou em quarto lugar. Depois disso, passou a se concentrar com sucesso nas disputas estaduais e, agora, chega à Vice-Presidência da República.

NOVA GERAÇÃO

Aécio Neves (PSDB-MG)

O ex-governador mineiro é considerado nome certo para disputar a eleição presidencial daqui a quatro anos. Sai fortalecido ao se eleger senador, emplacar Antônio Anastasia (PSDB) como sucessor no governo de seu Estado e garantir a vitória de Itamar Franco (PPS) para a segunda vaga no Senado por Minas

Beto Richa (PSDB-PR)

Depois de ganhar duas eleições seguidas para a Prefeitura de Curitiba, chegou ao governo do Paraná e ganha relevância dentro do PSDB

Eduardo Campos (PSB-PE)

Novamente vitorioso, o governador de Pernambuco deve deflagrar em 2014 o projeto de candidatura própria do PSB ao governo federal

Geraldo Alckmin (PSDB-SP)

Chegou a disputar o segundo turno presidencial contra Lula em 2006, mas perdeu espaço. Com a nova eleição para o governo de São Paulo, recupera terreno político e pode ser opção para o Planalto, mas numa escala abaixo de Aécio

Marina Silva (PV-AC)

Participante da disputa pela Presidência, Marina foi a sensação da reta final do primeiro turno eleitoral. Com quase 20 milhões de votos, aproveitou a atual campanha para construir bases sólidas para uma candidatura competitiva daqui a quatro anos

Sérgio Cabral (PMDB-RJ)

Reeleito, será o governador dos preparativos para a Copa de 2014 (a final será disputada no Rio) e da Olimpíada de 2016. Pode entrar no jogo nacional de 2014 se o PMDB resolver investir em candidatura própria

Palavras – VI :: Graziela Melo

Palavras,
apenas
levemente
sussurradas

em ouvidos
ávidos
de paixão...

doce
melodia
desejada

por uma
apaixonada
alma

e um
enternecido
coração...

Suaves
carícias
proferidas

em sílabas
verbos
e vogais...

só hoje
é que
escuto
em tua boca!!!

Depois

Adeus!!!

E não
te vejo
nunca mais!!!


Rio, 27/10/2010