sábado, 10 de setembro de 2016

Opinião do dia – Bolívar Lamounier

Reformar a estrutura institucional é realmente um imperativo, mas não creio que seja suficiente. Penso que precisamos também nos entender quanto ao próprio conceito de política, quanto à política que gostaríamos de ter e quanto ao que realisticamente podemos esperar que aconteça nessa área.

No Brasil atual, como em muitos outros países, o cidadão médio parece acreditar que o grande problema é o excesso de política e políticos. Creio que se equivoca redondamente; não vejo excesso, e sim falta. O que temos em excesso são picaretas, populistas e arengueiros ideológicos; políticos, temos muito poucos.

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Cientista político, é sócio-diretor da Augurium Consultoria e membro da Academia Paulista de Letras. ‘Populistas, picaretas e arengueiros ideológicos’, O Estado de S. Paulo, 10/9/2016

Temer troca comando da AGU e nomeia 1ª ministra

• Fábio Medina Osório acumulou desentendimentos com o Planalto

Pedido de compartilhamento de informações da Lava-Jato desgastou ainda mais a relação

A primeira mulher no Ministério do presidente Michel Temer será Grace Mendonça, que assumirá o lugar de Fábio Medina Osório à frente da Advocacia Geral da União, onde ela fez carreira. Demitido por telefone por Temer, Medina Osório estava desgastado antes do processo de impeachment de Dilma e saiu pela série de desentendimentos que acumulou. Entre os motivos de irritação do Planalto estava a atuação autônoma dele, sem aval do governo, como um pedido de informações à Lava-Jato.

Com receio do ‘fogo amigo’

• Após demitir ministro da AGU, governo teme ser acusado por ele de tentar prejudicar Lava-Jato

Júnia Gama e Eduardo Barretto - O Globo

BRASÍLIA - O governo escolheu ontem uma mulher, a advogada Grace Mendonça, para ocupar o posto de advogada-geral da União depois que uma série de atritos internos levou à demissão de Fábio Medina Osório do cargo. A principal reclamação do Palácio do Planalto era que Medina Osório atuava de forma autônoma, sem autorização do governo, como no episódio em que solicitou ao ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), informações de inquéritos sobre a Operação Lava-Jato, um movimento que foi visto como tentativa de levar a operação para dentro do Planalto.

Osório enviou a Dilma pareceres negando ‘pedaladas’

• Já no governo Temer, AGU assinou protocolo se comprometendo a apoiar defesa da petista

Vinicius Sassine - O Globo

BRASÍLIA - Órgãos do governo do presidente Michel Temer elaboraram relatórios técnicos que defendem a regularidade de práticas listadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) como infrações na gestão de Dilma Rousseff em 2015, entre elas as “pedaladas fiscais”, que foram a base do impeachment da petista. O encaminhamento desses relatórios à defesa de Dilma foi feito pelo então advogado-geral da União de Temer, Fábio Medina Osório, demitido ontem pelo presidente após uma série de atos que desagradaram ao Palácio do Planalto desde o início da interinidade do presidente.

Medina Osório, Dilma e o advogado Ricardo Lodi, que defende a ex-presidente no processo de julgamento das contas de 2015 no TCU, assinaram em 23 de junho um protocolo com a garantia de fornecimento de dados para a petista fazer sua defesa no processo. Naquele momento, Dilma já estava afastada há mais de 40 dias do cargo por conta da aceitação do processo de impeachment no Senado. E o TCU já havia aprovado um prazo de 30 dias para a então presidente afastada explicar 23 indícios de irregularidades nas contas de 2015 do governo.

Declaração sobre jornada causa mal-estar

A declaração do ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, sobre a jornada de até 12 horas foi criticada por centrais sindicais. Temer repreendeu o ministro.

Declaração sobre jornada cria mal-estar

• Após críticas sobre trabalho de até 12 horas por dia, Temer repreende ministro Ronaldo Nogueira

Júnia Gama, Manoel Ventura*, Daiane Costa e Roberta Scrivano - O Globo

BRASÍLIA, RIO E SÃO PAULO- Assustado com a repercussão negativa causada pelas declarações do ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, de que o governo pretende regulamentar a jornada de 12 horas por dia, o presidente Michel Temer repreendeu o ministro e determinou que ele insista na mensagem de que nenhum direito será retirado do trabalhador. A declaração de Nogueira foi dada durante um seminário, na quinta-feira, em Brasília — e criticada ontem por especialistas e centrais sindicais. Também causou mal-estar entre congressistas da base aliada. No Palácio do Planalto, a sensação é que o ministro se atrapalhou ao falar sobre um tema tão delicado como a reforma trabalhista.

Preocupado, Planalto incorpora discurso de não minimizar manifestações contra Temer

Painel – Folha de S. Paulo

Bandeira branca. Preocupado com a possibilidade de consolidação dos protestos contra Michel Temer, o Planalto adotou como norma incorporar o discurso de não mais minimizar as manifestações. O tom é o de que tamanho não é documento. “Independentemente da dimensão, temos de respeitar e avaliar”, afirma Eliseu Padilha (Casa Civil) . Para o ministro, a partir de agora, a administração tem de distinguir a luta política das reivindicações e começar a enfrentar as pautas e não as manifestações.

Nós contra eles O Planalto não quer repetir o próprio erro de ter ironizado o público dos protestos iniciais. Há ainda a lembrança da gestão Dilma Rousseff, que, diante das manifestações de março de 2015, apostou na divisão.

Tudo e todos O diagnóstico agora é uníssono entre generais do Planalto: a comunicação geral do governo está ruim e deve mudar. Um ministro execrou o “fora, ladrão”, slogan criado pelo marketing de apoio a Temer. “Isso não é coisa do governo”, disse.

Muito ajuda O ministro Ronaldo Nogueira (Trabalho) não recebeu só um pedido para que esclarecesse a declaração sobre o aumento da jornada diária de trabalho. Tomou foi um “pito” do presidente — algo raro tratando-se de Michel Temer.

Quem não atrapalha O Planalto já se sente desgastado demais lutando em duas frentes: a reforma da Previdência e a PEC do teto de gastos. Na avaliação interna, não havia necessidade de antecipar esse tema impopular.

Rosa Weber nega 4 liminares para suspender Dilma de exercício de funções públicas

• A ministra do STF negou os mandados de segurança que pediam suspensão da habitação da ex-presidente

Rafael Moraes Moura - O Estado de S. Paulo

Brasília - Em mais um capítulo da novela do impeachment, a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Rosa Weber negou nesta sexta-feira (9) quatro pedidos de medida liminar que queriam suspender a habilitação da ex-presidente Dilma Rousseff para o exercício de funções públicas. Os pedidos haviam sido feitos em mandados de segurança ingressados pelo PMDB, PSDB, DEM, PPS e Solidariedade, pelos senadores José Medeiros (PSD-MT) e Álvaro Dias (PV-PR) e pelo PSL.

Os partidos alegam que a votação fatiada ocorrida no plenário do Senado, que livrou Dilma Rousseff da inabilitação para assumir cargos públicos por oito anos, contraria o texto expresso na Constituição. A realização de duas votações criou um racha na base aliada do presidente Michel Temer, apesar da participação do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), na costura da estratégia que suavizou a pena de Dilma.

Sob o signo do mundo de fora

- Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

• Para Ricupero, o Brasil nunca conseguiu "construir um sistema político que seja ao mesmo tempo legítimo e estável"

Por Monica Gugliano

SÃO PAULO - Enquanto o Brasil atravessava uma de suas mais graves crises político-econômicas, culminando no segundo impeachment de um presidente da República em menos de 25 anos, o ex-ministro da Fazenda e embaixador Rubens Ricupero, 79 anos, mergulhava na história do país. Sua extensa pesquisa partiu do Primeiro Império e chegou até o governo de Dilma Rousseff. O resultado estará no livro "Diplomacia na Construção do Brasil" (título ainda provisório), que Ricupero, também diretor da Faculdade de Economia da Faap, finaliza e deve lançar ainda neste ano pela Editora Versal.

"Se considerarmos os períodos de crises e os de bonança da nossa história, concluímos que o Brasil viveu muito pouco em situações de tranquilidade", diz Ricupero.

No extenso período pesquisado, ele constatou que a política externa andou sem sofrer grandes inversões, diferentemente da interna, abalada por mudanças e descontinuidades. "Alguma coisa está errada com o presidencialismo e o sistema político brasileiro", afirma o ex-ministro da Fazenda de Itamar Franco, que cita o afastamento de dois presidentes "pelo remédio excepcional e traumático do impeachment" em menos de 25 anos.

O contraste entre a política interna e a externa estará presente no livro de Ricupero. "Não só o Brasil, mas os países da América Latina nunca conseguiram, em 200 anos de vida independente, edificar um sistema político que fosse, ao mesmo tempo, estável do ponto de vista das instituições e democrático politicamente que pudesse assegurar o crescimento da economia com a promoção e inclusão dos mais pobres", diz o ex-ministro, um nome próximo do chanceler José Serra.

A seguir os principais trechos da entrevista:

Criminosos na política do Rio deixam TSE em alerta

• Gilmar Mendes aponta para ‘sistema paramilitar’ no processo eleitoral

- O Globo

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, disse que está preocupado com a influência de milícias no processo eleitoral no estado do Rio. Ele acompanhou os desdobramentos da megaoperação, deflagrada ontem, com o objetivo de apreender armas e objetos usados nas execuções de candidatos e pessoas envolvidas em campanhas eleitorais na Baixada Fluminense. Ao todo, a Justiça expediu 14 mandados de busca e apreensão em casas, terrenos e galpões usados por suspeitos de participarem dos crimes em municípios da região, além de 12 pedidos de prisão temporária.

— Acabo de receber informação sobre esse fato. Já tinha manifestado essa preocupação e temos notícia de que, no Rio de Janeiro, um sistema paralegal ou paramilitar, vamos dizer assim, tem tido atuação e participação efetiva no processo eleitoral. Temos preocupação que o crime organizado participe do financiamento das eleições e que se organize politicamente. Isso precisa ser objeto de preocupação de todas as autoridades — disse Gilmar Mendes, ao comentar a operação.

TSE analisa 21 mil doações suspeitas

• Doadores sem capacidade econômica teriam entregue R$ 18 milhões para campanhas de candidatos a prefeito

- O Globo

BRASÍLIA - O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) analisa os indícios de irregularidades constatados pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que revela a existência de 21.072 doadores com provável falta de capacidade econômica. Eles entregaram R$ 18 milhões para as campanhas dos candidatos a prefeito e vereador nestas eleições.

O TSE informou que compartilhou o material com o Ministério Público Eleitoral (MPE). Os indícios de irregularidades serão disponibilizados aos juízes eleitorais para que sejam apurados prioritariamente, em até cinco dias a partir do conhecimento das informações.
As suspeitas em torno de beneficiários do Programa Bolsa Família também foram repassadas ao Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário. Foram identificados R$ 4 milhões doados por 4.630 beneficiários do programa.

Vantagem de Russomanno despenca; Marta e Doria sobem, diz Datafolha

Thais Bilenky – Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - A vantagem do candidato a prefeito de São Paulo Celso Russomanno (PRB) despencou, enquanto Marta Suplicy (PMDB) e João Doria (PSDB) cresceram, embolando a disputa, mostra a primeira pesquisa do instituto Datafolha desde o início do horário eleitoral gratuito.

Com maior tempo de televisão, o tucano cresceu de 5% para 16% das intenções de voto, empatando tecnicamente com Marta, que cresceu de 16% para 21%.

A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos.

A senadora, por sua vez, está empatada tecnicamente com Celso Russomanno (PRB), que registrou queda de 31% para os atuais 26%.

Nas simulações de segundo turno, Russomanno vence em todos os cenários, embora com menos folga.

O levantamento, contratado pela Folha e a TV Globo, ouviu 1.092 pessoas, na quinta-feira (8).

Os demais candidatos oscilaram desde a última pesquisa, realizada em 23 e 24 de agosto. O prefeito Fernando Haddad (PT) passou de 8% para 9%, mantendo o empate técnico com Luiza Erundina (PSOL), que tinha 10% e está com 7%.

Datafolha: Crivella mantém liderança com 29%

• Pesquisa mostra empate técnico de cinco candidatos em 2º lugar: Freixo, Jandira, Pedro Paulo, Indio e Bolsonaro

Bruno Góes e Renato Grandelle - O Globo

Pesquisa divulgada ontem pelo Instituto Datafolha revelou poucas mudanças na preferência do eleitor no Rio. O candidato do PRB à prefeitura, Marcelo Crivella, continua na liderança da disputa. Ele tem 29% das intenções de voto (um ponto a mais do que em pesquisa anterior). Em segundo lugar, há um empate técnico, considerando a margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos, entre cinco candidatos: Marcelo Freixo (PSOL) está no mesmo patamar de 11% da pesquisa anterior; Jandira Feghali (PCdoB) tem 8% (antes tinha 7%); Pedro Paulo (PMDB), 8% (antes tinha 5%); Indio da Costa (PSD), 6% (antes tinha 4%); e Flávio Bolsonaro (PSC), 6% (antes tinha 9%). Pedro Paulo foi o que registrou o maior crescimento, mesmo que tenha oscilado dentro da margem de erro.

Segundo a pesquisa, o candidato tucano Carlos Osorio oscilou de 3% para 4% das intenções de voto. Alessandro Molon, da Rede, tinha 2% e agora está com 1% da preferência. Brancos e nulos somam 19%; não sabem ou não responderam 7%. Cyro Garcia (PSTU), Carmen Migueles (Novo) e Thelma Bastos (PCO) não pontuaram.

João Leite mantém liderança em BH, aponta Datafolha

- Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Faltando menos de um mês para a eleição municipal, o candidato do PSDB, João Leite, mantém a liderança na disputa eleitoral em Belo Horizonte, de acordo com pesquisa feita pelo Datafolha na quinta-feira (8).

Leite tem 30% das intenções de voto, ante 19% de seu principal adversário, Alexandre Kalil, do PHS. Na pesquisa anterior, feita em 23 e 24 de agosto, o cenário era parecido: Leite tinha 26% e Kalil, 14%.

Nesta semana, o Datafolha ouviu 812 eleitores. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

Candidatos do PSB e PT consolidam

João Pedro Pitombo – Folha de S. Paulo

SALVADOR - O prefeito Geraldo Júlio (PSB) e o ex-prefeito João Paulo Lima (PT) cresceram em intenções de voto e se consolidaram na liderança da corrida eleitoral no Recife, aponta pesquisa do Datafolha.

No primeiro levantamento após o início da campanha eleitoral no rádio e na televisão, Geraldo Júlio cresceu oito pontos e subiu de 28% para 36%, em comparação com a pesquisa realizada nos dias 23 e 24 de agosto.

O petista João Paulo avançou de 32% para 34%. Foi superado numericamente em relação à última pesquisa, mas segue na liderança em situação de empate técnico.

Em terceiro lugar aparece Daniel Coelho (PSDB), que oscilou de 10% para 11%. Priscila Krause (DEM), que estava em quarto, registrou queda de 6% para 2%, mesmo número de Edilson Silva (PSOL), que caiu de 3% para 2%.

Carlos Augusto (PV) manteve o 1% registrado no levantamento anterior. Simone Fontana (PSTU) e Pantaleão (PCO) não pontuaram.

O número de eleitores que pretendem votar branco ou nulo caiu de 13% para 10%. Também houve queda no número de indecisos, de 7% para 4%.

Na pesquisa espontânea, em que não são mostrados os nomes dos candidatos, Geraldo Júlio aparece em primeiro com 28% seguido de João Paulo com 23%.

Daniel Coelho tem 6%, seguido de Edilson Silva com 2% e Priscila Krause com 1%. Os outros candidatos não pontuaram.

O número de eleitores indecisos na espontânea caiu de 49% para 26%. Brancos e nulos somam 11%, enquanto 1% deram outras respostas.

Segundo turno
O Datafolha também fez simulação de segundo turno entre os candidatos Geraldo Júlio e João Paulo. O prefeito do PSB aparece na liderança com 49% das intenções de voto contra 39% do petista.

O levantamento foi realizado no dia 8 de setembro com 816 entrevistas no Recife. A margem de erro é de três pontos para mais ou para menos.

Só 30% devem ser reeleitos nas capitais

Valor Econômico /Eu & Fim de Semana

• A projeção é do cientista político Antonio Lavareda

Por Monica Gugliano

SÃO PAULO - A menos de um mês das eleições municipais, é difícil responder com o mínimo de segurança quais candidatos e partidos serão mais atingidos pelos sobressaltos da política e da economia. No entanto, a desconfiança e o cansaço dos eleitores com as promessas de campanha que não foram cumpridas devem afetar todas as siglas, sem distinção. E devem bater em cheio nos prefeitos que disputam mais um mandato. A previsão do cientista político Antonio Lavareda, de 65 anos, é que 2016 tenha o menor percentual de reeleição, na comparação com as duas últimas eleições municipais.

"Se 2008 foi o ano celestial da reeleição, 2016 poderá ser um ano infernal", diz Lavareda, presidente do Conselho Científico do Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas), no livro "A Lógica das Eleições Municipais" (FGV Editora).

Organizado em parceria com a cientista política Helcimara Telles, o livro, que acaba de ser lançado, traz 13 artigos escritos por pesquisadores acadêmicos. "Acreditamos que apenas 30% dos prefeitos devem ser reeleitos. Em 2008 foram 95% e, em 2012, 50%", afirma Lavareda nesta entrevista ao Valor.

Nas capitais e nos grandes centros, a taxa de reeleição deverá atingir o menor patamar. Nas pequenas e médias cidades, os prefeitos têm mais chance de permanecer por outros quatro anos no cargo, observa Lavareda. Nesse cálculo, aponta o cientista político, entra o uso da máquina, mais fácil nos municípios menores.

"Com poucos recursos financeiros, menos tempo para as campanhas, a crise econômica e política, os prefeitos nas capitais e nas cidades maiores terão muita dificuldade para convencer o eleitor de que merecem mais um mandato. A reeleição será varrida dos grandes centros", afirma o cientista político.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Valor:

Subsídios agrícolas provocam rombo

• Desde janeiro de 2015, Tesouro já gastou R$ 14 bilhões para cobrir déficit

Rachel Gamarski, Gustavo Porto - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA e RIBEIRÃO PRETO - Apesar do discurso de que a competitividade da agropecuária brasileira justificaria cortes de subsídios, na prática o governo tenta, com a diminuição desses benefícios, reduzir o rombo do setor nas contas públicas, no processo de ajuste fiscal.

Relatório do Tesouro obtido pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, aponta que, entre janeiro de 2015 e julho de 2016, o Tesouro gastou R$ 14,302 bilhões somente para cobrir o déficit configurado pela postergação de repasses a bancos financiadores de operações do crédito rural – os chamados “restos a pagar” na rubrica orçamentária.

Isenções na produção agropecuária consomem R$ 28 bilhões ao ano

Rachel Gamarski, Gustavo Porto - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA e RIBEIRÃO PRETO - Além dos subsídios e subvenções que dão suporte ao financiamento da produção agropecuária, o governo federal abre mão de R$ 28 bilhões por ano só com desonerações tributárias a esses produtos já processados e consumidos no mercado interno e para a exportação, de acordo com dados da Receita Federal. A desoneração da cesta básica, por exemplo, custa ao governo R$ 18,6 bilhões por ano. A renúncia com a exportação de produtos agrícolas e pecuários também impacta fortemente a arrecadação federal e custará R$ 6,5 bilhões para os cofres públicos em 2016.

Em junho, o governo indicou a possibilidade de taxar essas exportações e reverter os recursos para cobrir parte do déficit fiscal da Previdência. A reação do ministro da Agricultura, Blairo Maggi, foi imediata. Ele classificou a ideia como uma “loucura” e um “abraço de afogado”.

O economista e sócio da MB Associados, José Roberto Mendonça de Barros cita estudo da OCDE) que aponta o Brasil como um dos países com menor nível de subsídios em relação à renda nas lavouras, para mostrar que “a agricultura brasileira roda com muito pouco apoio”. Mas ele defende uma revisão na distribuição desse suporte ao produtor rural e ao pecuarista.

Reforma trabalhista terá trâmite difícil

• Para especialistas, mudança teria de ser feita por PEC e regulamentação seria complexa

Álvaro Campos - O Estado de S. Paulo

As diretrizes de uma reforma trabalhista levantadas pelo ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira, exigiriam mudanças na Constituição e teriam tramitação muito difícil no Congresso, dizem analistas ouvidos pelo ‘Broadcast’, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. Mesmo que essas propostas fossem aprovadas, a regulamentação também seria bastante complexa, até para não haver brecha para a precarização das condições de trabalho temida pelos sindicatos.

Nogueira comentou, em evento da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), que a reforma trabalhista que o governo de Michel Temer pretende apresentar ainda este ano prevê uma flexibilização da jornada diária para até 12 horas, ante o limite atual de 8 horas, desde que mantido o teto da jornada semanal, que é de 48 horas (44 horas mais 4 horas extras). Além disso, seriam criadas duas modalidades de contrato, com remuneração por hora trabalhada e por produtividade.

Populistas, picaretas e arengueiros ideológicos - *Bolívar Lamounier

- O Estado de S. Paulo

• Nem todo detentor de mandato eletivo merece ser visto como político

Os áugures da Antiguidade romana tentavam adivinhar o futuro observando o voo de certas aves ou examinando as entranhas de determinados animais. Tenho tentado aprender com eles, observo o voo dos tucanos e de outras espécies que vez por outra sobrevoam o Planalto Central. Graças a tais exercícios, inclino-me a crer que cedo ou tarde a ansiada reforma política será incluída na lista de prioridades.

Reformar a estrutura institucional é realmente um imperativo, mas não creio que seja suficiente. Penso que precisamos também nos entender quanto ao próprio conceito de política, quanto à política que gostaríamos de ter e quanto ao que realisticamente podemos esperar que aconteça nessa área.

Um estranho no ninho – Merval Pereira

- O Globo

Ex-ministro esbarrou em interesses políticos. A demissão do advogado-geral da União (AGU) Fábio Medina Osório pode ser explicada pela disputa de poder — num governo que começa a se estruturar com base num núcleo político de líderes do PMDB — e, por outro lado, pela necessidade de trabalhar em equipe sem perder a autonomia.

Não há dúvida de que o estilo impetuoso de Medina Osório e sua ambição política deixaram espaço para intrigas e mal-entendidos, mas o fato de não ter ligações políticas sólidas dentro do partido que assumiu o governo deixou-o isolado na sua posição firme de combate à corrupção fora do, digamos assim, modelo concebido pelo núcleo duro do Palácio do Planalto, especialmente o ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, quem lhe deu o aval para a nomeação.

Procela agourenta - Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

Os dados do Ideb referentes à educação se juntam aos indicadores econômicos e demográficos para formar uma tempestade perfeita. E é uma borrasca que traz maus presságios, pois os números sugerem que estamos desperdiçando nossas melhores chances de entrar para o clube dos países ricos.

A razão principal é que nosso bônus demográfico está se esgotando. Vivemos hoje no melhor dos mundos populacionais, que é aquele em que o contingente de pessoas em idade de trabalhar é maior que o de dependentes (crianças e idosos). É nessa fase que países reúnem as condições mais propícias ao crescimento e à elevação da renda "per capita". O quadro mais favorável vai mais ou menos até 2030. Depois disso, a proporção de idosos deverá ficar igual à de jovens e por fim superá-la, impondo custos crescentes aos sistemas previdenciário e de saúde.

Do céu ao inferno - João Domingos

- O Estado de S. Paulo

Diz-se nas rodas políticas de Brasília que a cassação do mandato do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha é apenas uma questão de dias. Três ou quatro, a depender da velocidade da sessão marcada para segunda-feira.

O placar apurado pelo Estado mostra que os votos pela cassação podem superar todas as expectativas. A surpresa – exceto liminar numa eventual ação judicial ou manobra regimental de última hora –, se ocorrer, será quanto ao minguado número de votos favoráveis a Cunha, dizem parlamentares que trabalham pela cassação.

O que impressiona nessa história toda é a rapidez com que Cunha subiu aos céus e desceu aos infernos.

A lei, na república das bananas, dobra-se aos imperativos da velha ordem - Demétrio Magnoli

- Folha de S. Paulo

"O Senado era quem tinha a palavra final sobre esse julgamento quanto ao mérito e o mérito envolvia também essa questão do fatiamento; portanto, entendo que isso não deve mais ser revisto". Fábio Medina Osório, o advogado-geral da União, não precisava emitir opinião sobre o tema, mas escolheu fazê-lo –e de modo incisivo. "O impeachment é página virada e não deve ser remexido pelo STF", declarou à Folha, enviando uma mensagem do governo a quem servia até a demissão, que se deu por outros motivos. Você ainda acredita que Temer não sabia da tramoia articulada entre o PT e o PMDB de Renan Calheiros e aplicada pelo operador Lewandowski?

A lei, na república das bananas e das caxirolas, dobra-se aos imperativos da ordem –ou melhor, da velha ordem ameaçada. Medina Osório repetiu orações patéticas, mas cunhadas para funcionarem como teses jurídicas respeitáveis: "Se violou ou não a Constituição, é uma matéria interna corporis. O Senado tem o direito, em tese, de errar por último." Tradução: o Planalto enuncia o paradigma de que a Constituição é "matéria interna corporis" da elite política. Os destinatários do recado são os ministros do STF. Senhores juízes, não subvertam a ordem em nome da lei!

A bolsa e a vida real - Míriam Leitão

- O Globo

A bolsa ontem despencou 3,7% em um movimento de realização. De fato, a alta acumulada nos últimos meses impressiona. Foi de 59% desde o pior momento do ano, em janeiro, e chegou na semana a romper os 60 mil pontos. A valorização reflete a aposta dos investidores de que o pior período da recessão ficou para trás. Mas existem problemas reais na economia, como desemprego, inflação e incerteza sobre os juros.

A forte queda do índice Ibovespa foi também provocada pelo risco de alta nos juros nos Estados Unidos. Mas, para se ter uma ideia da dimensão da alta, as ações PN da Petrobras triplicaram de valor, saindo da casa de R$ 4,2, em janeiro, para R$ 13,5, agora.

Uma coisa de cada vez - Adriana Fernandes

- O Estado de S. Paulo

• A reforma da Previdência precisa ser mais esclarecida para a sociedade

O presidente Michel Temer tem de escolher logo as suas prioridades. É muito difícil colocar na rua três grandes reformas (fiscal, previdenciária e trabalhista) e achar que o Congresso vai votá-las antes de 2018, quando os parlamentares estarão todos voltados para os seus projetos eleitorais particulares.

Uma coisa de cada vez é o que bom senso recomendaria. Ainda assim, há conselheiros influentes do presidente que defendem a tática do rolo compressor para tentar aprová-las o quanto antes, o que concentraria o desgaste político de medidas impopulares num período mais curto, enquanto a economia ganha tração e volta a crescer.

Governo Temer se equilibra nas declarações e nos gestos – Leandro Colon

- Folha de S. Paulo

Demorou, mas enfim saiu a nomeação de uma mulher para o primeiro escalão do governo Temer. Funcionária de carreira, Grace Mendonça será a advogada-geral da União no lugar de Fábio Medina Osório, que sai sem nunca ter tido respaldo do Planalto.

A demissão de Medina foi selada depois de um bate-boca com Eliseu Padilha (Casa Civil) na noite de quinta-feira (8). Padilha e o presidente Michel Temer sempre acharam que o ministro da AGU voava demais, perigosamente e sozinho na Esplanada.

Sua saída estava decidida havia semanas, mas necessitou-se de um quiproquó para Temer trocá-lo.

Uma prioridade nefasta – Editorial / O Estado de S. Paulo

A frequência com que, no noticiário político, surgem manifestações de parlamentares governistas advertindo que o Palácio do Planalto deve agir com a máxima cautela para evitar que suas ações interfiram negativamente nas eleições municipais mostra o distanciamento desses políticos da grave realidade nacional. Essa atitude confirma, mais uma vez, que boa parte dos congressistas está muito mais preocupada com sua própria sorte do que com a da sociedade que representa. Para parte significativa da base aliada do governo, a prioridade absoluta é garantir seus interesses eleitorais no pleito municipal. O resto pode esperar. Isso significa deixar para depois, para um momento em que for de sua conveniência política, o exame das medidas indispensáveis para combater a crise, que, por isso, continuará a se agravar. É um comportamento irresponsável.

Soma zero – Editorial / Folha de S. Paulo

Resultados desalentadores ou deprimentes das provas nacionais de avaliação dos estudantes, como o recuo no aprendizado de matemática detectado nos exames do Saeb, provocam debate vívido, mas vazio, sobre descumprimento de metas oficiais de desempenho.

Não há dúvida de que as notas dos exames são ruins, ainda que exista controvérsia sobre a qualidade dos indicadores. Qual o sentido, porém, de haver metas sem que se defina um roteiro preciso de providências para atingi-las?

Tal roteiro nacional inexiste. Nem mesmo está definido um plano de solução para os problemas sobre os quais há mais consenso entre especialistas.

Tempo é dinheiro no atraso do ajuste fiscal – Editorial / O Globo

• Governo não deve subestimar a gravidade da crise e faz bem ao não deixar para remeter a reforma da Previdência ao Congresso depois das eleições

É provável que o relaxamento das tensões com a aprovação do impeachment de Dilma Rousseff tenha feito o governo Temer perder em certa medida o sentido de urgência da crise econômica. Alguns poucos sinais positivos na economia — ilusórios, porque não se sustentam — podem ter ajudado este clima, agravado pela posição de alguns dos novos inquilinos do Planalto de que é preferível deixar passarem as eleições de outubro para enviar ao Congresso temas mais sensíveis, como a reforma da Previdência.

Erro crasso, causado pela falsa sensação de que se “bateu no fundo do poço”. Ora, a economia não se recuperará de forma sustentada por qualquer efeito mágico de uma lei da gravidade às avessas. Ainda bem que o presidente foi sensível aos alertas e determinou o envio da reforma independentemente do calendário eleitoral.

Pardos dias – Graziela Melo

Pardos dias
que se vão
ao longo
do meu viver

O entra
e sai
da agonia,

olhando
a casa
vazia

desde
a noite
ao sol nascer!

Os sons
longínquos
da alma,

exíguos
e já
rarefeitos,

se assemelham
aos tristes
sinos

que badalam
na solidão,

quando o sol
já vai fugindo,

e o céu
se avermelha
antes da
escuridão