segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Ricardo José de Azevedo Marinho*: No coração da Jangada de Pedra

A institucionalização da democracia na Espanha com os Pactos de Moncloa não só importou a criação de novos direitos e de novos procedimentos destinados a lhes conceder eficácia, como também ensejou um ambiente propício para que antigas instituições renovem sua forma de atuar e se atualizem na complexa cena contemporânea. Esta é bem a discussão que envolve o Trabalho, do qual é testemunha a legitimação do chamado salário-mínimo interprofissional (SMI) com o concurso das organizações sindicais e as associações empresariais, inovando o sistema dos deveres e direitos do trabalho. Importa reter que isso não nada tem a ver com as medidas urgentes com vistas à reforma trabalhista e esse equívoco e confusão acabou por colocar o Governo diante de uma saia justa.

Mas como é uma prerrogativa legal concertada e ofertada a partir de iniciativa do Governo (isto sim passível de se fazer benchmarking governamental), ele apresentou a proposta para fazer o SMI chegar aos 1000 euros mensais. Para, além disso, tal mudança teria vigência retroativos para 1 de janeiro de 2022. É um aumento de 35 euros em relação ao vencimento mínimo atual, de 965 euros mensais.

Depois de se reunir com as organizações sindicais e as associações empresariais, o Governo confirmou que pretende chegar o SMI para aquele patamar de 1000 euros com 14 contraprestações.

Fernando Gabeira: O Brasil precisa de ar

O Globo

‘Não consigo respirar.’ Essa frase de George Floyd ecoou pelos Estados Unidos, e sua morte, por asfixia, inspirou o movimento Black Lives Matter e foi decisiva no ano das eleições.

O massacre de um jovem congolês no Rio e o assassinato de um homem negro que voltava do trabalho, assim como centenas de prisões injustificadas, também revelam uma asfixia angustiante e podem influenciar as eleições de 2022 no Brasil.

Como assim? Há gente com dificuldade de respirar porque a pandemia ainda está aí, com dificuldade de comer porque a fome aumentou. Como transformar todo esse drama em algo produtivo numa campanha eleitoral?

É uma pergunta que transcende o simples ato de votar. Quem tem consciência do buraco em que nos metemos — crise social, devastação dos recursos naturais, imagem internacional no chão — pode, pelo menos, pedir dos candidatos que se comportem à altura do desafio.

Isso significa também empurrar a política para novos horizontes. O caso do racismo é típico. Se observamos o comportamento de algumas empresas, da própria publicidade, constata-se uma tentativa de adaptação aos novos tempos.

Marcus André Melo*: Mentiras públicas

Folha de S. Paulo

Como explicar mudanças bruscas na opinião pública?

Em 6/10/1989, Erich Honecker, o secretário geral do PC da República Democrática Alemã (RDA), presidiu a celebração de 40 anos do regime, em uma enorme e pomposa cerimônia, simbolizando a força do regime e sua estabilidade. Doze dias depois, demitiu-se. Decorridos 20 dias, o muro de Berlim seria derrubado. Menos de um ano depois, a RDA não existiria mais, dando lugar ao surgimento da nova Alemanha unificada.

Processos semelhantes ocorreram na transição de regimes autoritários para democracias (ex. Primavera Árabe, 2011). Seu traço distintivo é a rapidez. Nenhum analista os havia antecipado malgrado sua enorme importância histórica: havia poucos sinais de mobilização ativa na população ou na opinião pública que pudessem sugerir o que estava para vir.

Celso Rocha de Barros: Moro vai desistir?

Folha de S. Paulo

Direita não bolsonarista preserva ex-juiz como opção, mas ninguém grande aderiu à sua candidatura até agora

Na semana passada o site O Antagonista publicou um texto do jornalista Cláudio Dantas especulando sobre a possibilidade de Sergio Moro desistir de sua candidatura presidencial para se candidatar a deputado federal.

O Antagonista sempre funcionou como porta-voz de Moro, o que criou a sensação de que o próprio ex-juiz quis que a ideia circulasse.

Se era para desistir tão cedo, por que Moro se lançou candidato?

Se esperava uma grande onda nacional que o levasse à liderança das pesquisas, leu muito errado a situação política. A onda da Lava Jato foi em 2018. Moro apoiou Bolsonaro. Deu nisso aí. Como diria a voz da consciência do apresentador Monark, "achou que ia acontecer o quê?".

O mais provável é que Moro esperasse um número maior de apoios políticos. A chamada "terceira via" é a centro-direita brigando para tomar de Bolsonaro a liderança do campo conservador.

Denis Lerrer Rosenfield*: Liberais e conservadores

O Estado de S. Paulo

Se não há uma verdadeira política liberal no atual governo, é porque não há nenhuma vontade de que isso aconteça

O ambiente político está cada vez mais bisonho. Fala-se de um suposto embate entre conservadores e liberais no atual governo, como se lá existissem no sentido estrito do termo. Segundo esta versátil narrativa, adaptável segundo as circunstâncias, o presidente e os seus ministros se eximem de qualquer responsabilidade, como se nada fosse de culpa deles, tudo sendo sempre atribuído a outros. Podem ser o “sistema”, o “establishment”, o “comunismo” ou qualquer outra bobagem do mesmo tipo. Na verdade, se não há uma verdadeira política liberal no atual governo, é porque não há nenhuma vontade de que isso aconteça. Não corresponde à ideologia e aos interesses que o presidem.

Ana Cristina Rosa: O país dos sem-sem

Folha de S. Paulo

Há mais de 11,5 milhões de jovens nessa condição no Brasil, e a maioria é negra

Na porta de um supermercado do Plano Piloto, área nobre de Brasília, uma adolescente e um menino pedem itens da cesta básica a quem ingressa no local. "Pode comprar um litro de óleo para me dar, tia?", pergunta ela ao me ver passar. Apressada e constrangida, entro no comércio. Na saída, entrego o mantimento e pergunto a idade da dupla. Ela tem 15, ele, 9 anos. São irmãos. Ambos deixaram de frequentar a escola durante a pandemia e têm se dedicado a ajudar a levar comida para dentro de casa.

Irapuã Santana: RIP, Moïse e Durval

O Globo

Um rapaz de apenas 24 anos trabalhou num local por algum tempo. Como era de esperar, desejava receber pelos seus serviços. O valor? R$ 200. Não recebeu e resolveu pedir o que era de direito, no dia 24 de janeiro. Entretanto foi recebido com violência, derrubado por vários homens, virou alvo de socos, pontapés e pauladas até não resistir e morrer.

O jovem era congolês e tinha nome Moïse Mugenyi Kabagambe.

Na semana seguinte, no dia 2 de fevereiro, um homem voltava do trabalho para casa, quando, ao tentar abrir o portão de sua garagem manualmente —o que poderia acontecer com qualquer um —, foi vítima de três disparos feitos pelo vizinho, que alegou tê-lo confundido com um ladrão. Era brasileiro e também tinha nome —Durval Teófilo Filho.

Esses dois fatos extremamente lamentáveis, que devem ser considerados crimes bárbaros, guardam uma característica em comum: a cor da pele das vítimas.

Mirtes Cordeiro*: A crise do Ensino Básico no Brasil não é culpa da pandemia

O Brasil não vive uma crise educacional, como muitos pensam. Na verdade, o país não conseguiu estruturar o seu sistema de ensino, como fizeram outras nações desenvolvidas há muito tempo, só executando essa tarefa após a promulgação da Constituição Cidadã de 1988.

A Constituição Brasileira de 1988 e a Lei de Diretrizes e Base da Educação de 1996 (LDB) apontaram os caminhos. Ensino Básico, direito de todos e dever do Estado, obrigatório e gratuito nas escolas públicas.

Através de muitos estudos já realizados podemos observar que são longos os prazos para se cumprir as leis e implantar programas ou planos determinados. Os dirigentes políticos não se empenharam o suficiente pela educação brasileira, nem a sociedade se sente capaz para reivindicar o direito de todos, quando se refere à educação que é o ensino básico com qualidade em escolas públicas, gratuitas e com boa qualidade.

Antônio Gois: Prioridades de Bolsonaro

O Globo

Na semana passada, o governo Bolsonaro enviou sua lista de projetos prioritários para votações no Legislativo neste ano. Além do homeschooling, que já aparecera em 2021, foi incluído na educação um projeto da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) que estabelece o fim do sistema de ciclos, popularizado por seus críticos como “aprovação automática”. A justificativa que consta do projeto é uma peça exemplar do bolsonarismo raiz: um conjunto de achismos sem base em qualquer evidência científica. 

A repetência é dos poucos temas na literatura acadêmica em que a conclusão é inequívoca: trata-se de péssima estratégia, pois o principal efeito é aumentar a probabilidade de evasão sem elevar a aprendizagem, como mostra a revisão de meta-análises (estudos mais robustos por agregar o resultado de um conjunto de pesquisas) feita por John Hattie no livro “Visible Learning”.

Miguel de Almeida: Chico, devolva o meu Chico Buarque

O Globo

Ao velar por sua canção “Com açúcar, com afeto”, sob o peso da guerra identitária, Chico Buarque acende a fogueira para o Touro de Bronze.

Soa como lenda, mas é comum no Brasil tão afeito a realizar copy/paste de qualquer desatino da esquerda norte-americana.

Ali pelo século VI (a.C), o artesão Perilo de Atenas presenteou o tirano Faláris, de Agrigento, com o Touro de Bronze.

Radiante e pérfido, Faláris pediu a Perilo que entrasse no interior oco de sua criação, logo colocada sobre uma fogueira. Para respirar, o escultor buscou ar pela boca do touro —e passou a “mugir” de dor enquanto era assado.

É uma das mais dramáticas máquinas de tortura inventadas pelo homem e pode ser vista ainda agora como uma metáfora para as boas intenções.

Constrange Chico Buarque, poeta a quem se deve reverência, executar em praça pública sua canção “Com açúcar, com afeto” por entender que a letra exalta um cotidiano feminino subjugado, retrato em preto e branco a ser retirado da memória. A canção é universal justamente por não ser arte engajada, como desejam os arautos da guerra identitária.

Entrevista: ‘PT tem que botar a sandalinha da humildade', diz Jaques Wagner

Senador afirma que o nome do ex-governador Geraldo Alckmin como vice na chapa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não está pacificado dentro do partido

Julia Lindner e Bruno Góes / O Globo

BRASÍLIA — Pré-candidato ao governo da Bahia e integrante da ala moderada do PT, o senador Jaques Wagner diz que o nome do ex-governador Geraldo Alckmin como vice na chapa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não está pacificado dentro do partido, mas defende que o antigo adversário cumpre um requisito essencial ao posto: “ser complementar ao presidente”.

Em meio ao favoritismo indicado pelas pesquisas, o parlamentar afirma que os integrantes do PT devem “botar a sandalinha da humildade” e evitar um clima antecipado de vitória. Para ele, que considera Sergio Moro um adversário mais fácil a ser batido do que o presidente Jair Bolsonaro, em caso de segundo turno, o Centrão, inevitavelmente, será atraído para a base em um eventual governo do PT.

O senhor concorda com a análise de que o centro ficou deslocado nesta eleição?

Acho que se faz uma análise da polarização, ou anseio da terceira via, muito pela característica do atual presidente. Todas as eleições, à exceção de 1989, que tinha 15 candidatos, foram polarizadas. A diferença entre 2018 e as demais é que, antes, a polarização era entre dois conjuntos que tinham um projeto para o Brasil (PT e PSDB). Gosto de dizer que as duas boas novidades após o regime militar foram PT e PSDB. Essa ânsia de terceira via ocorre pelo deslocamento de um dos projetos políticos e a chegada ao poder de alguém que não tem projeto nenhum, só fanatismo e truculência. É uma anomalia que está nos custando caro.

Lula e Alckmin reiteram aliança e evitam ‘salto alto’

Ex-presidente e ex-governador, que se reuniram na casa de Fernando Haddad, pediram a aliados que evitem clima de ‘já ganhou’

Por Marcelo Ribeiro / Valor Econômico 

BRASÍLIA - Em seu terceiro encontro desde o ano passado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-governador Geraldo Alckmin demonstraram sintonia e disposição para caminharem juntos na corrida presidencial deste ano. A eventual dobradinha na disputa pelo Palácio do Planalto está “99% concretizada”, segundo relatos de participantes de um jantar em que eles se reuniram na sexta-feira na casa do ex-prefeito Fernando Haddad.

Líder nas pesquisas de intenção de voto à Presidência da República, Lula reforçou que a composição com o ex-tucano tem potencial para atrair uma parcela do eleitorado de centro e de centro-direita, que resistiriam a embarcar em uma chapa composta apenas por políticos associados a partidos de esquerda.

Ainda que as conversas estejam praticamente finalizadas, a expectativa é que a confirmação da dobradinha ocorra apenas em março, quando o ex-governador de São Paulo também decidirá sobre o seu futuro político.

Bruno Carazza*:Política e videogames

Valor Econômico

Como num jogo, eleição depende das skills e avatares dos candidatos

Eliot Nelson cobriu por muitos anos a política em Washington, D.C. Entre 2010 e 2017, editou a newsletter “HuffPost Hill”, que analisava diariamente, com profundidade e bom humor, os bastidores do principal centro de poder mundial. Há três anos, porém, o jornalista largou tudo para se dedicar integralmente a um projeto bem diferente: criar um videogame.

Na verdade, nem tão diferente assim. De acordo com o suplemento “On Politics”, do “New York Times”, Nelson está desenvolvendo um jogo que emula as artimanhas, acordos e trapaças da disputa pelo poder. Contando com a colaboração de analistas políticos com experiência em acompanhar a Casa Branca e de ex-assessores de deputados e senadores, o projeto Political Arena (esse será o nome do game) arrecadou mais de US$ 100 mil numa campanha de financiamento coletivo e sua primeira versão deve sair no fim do ano.

O que a mídia pensa: Editoriais /Opiniões

EDITORIAIS

Desprezo pela ciência provoca fuga de cérebros

O Globo

Em novembro, o brasileiro Tulio de Oliveira reportou ao mundo o surgimento de uma nova variante do Sars-CoV-2, sequenciada por ele e sua equipe na Universidade KwaZulu-Natal, na África do Sul. A nova cepa, batizada Ômicron pela OMS, logo se tornaria dominante no planeta. Em pouco mais de dois anos de pandemia, não foi raro ver brasileiros participando de pesquisas, ajudando a desenvolver vacinas contra a Covid-19 ou integrando a linha de frente do combate ao vírus noutros países. Cada um tem seus motivos para o exílio. Eles integram uma legião cada vez maior de brasileiros das mais diversas áreas que brilham longe da terra natal.

Não é uma tendência nova, mas ela se acentuou nos últimos anos. A falta de incentivo, os parcos financiamentos para projetos e pesquisas e os maus-tratos à ciência pelo governo Bolsonaro têm aumentado o êxodo. O mundo acadêmico já se refere à fuga de cérebros como uma diáspora. Como mostrou reportagem do GLOBO, há de 2 mil a 3 mil pesquisadores brasileiros trabalhando no exterior. Trata-se de mão de obra altamente qualificada (resultante de altos investimentos em educação), que parte em busca de melhores oportunidades, condições de trabalho e reconhecimento. O futuro do país está tomando o caminho do aeroporto.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade: Um Homem e o seu Carnaval

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensão.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.
O pandeiro bate
É dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.