O Globo
Apesar da judicialização na UE, Brasil mantém
otimismo e amplia negociação do Mercosul com outros países como Canadá, Índia e
Emirados Árabes
O Brasil decidiu manter a tramitação do
acordo União
Europeia–Mercosul o mais acelerada possível. O texto deve ser enviado ao
Congresso em questão de dias. Isso apesar de o Parlamento Europeu ter decidido,
ontem, levar o texto ao Tribunal de Justiça. Segundo o embaixador Philip Fox,
da Secretaria de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, a Corte
normalmente demora 18 meses para dar seu veredito, mas a Comissão terá ainda
que se posicionar quanto à decisão de enviar o acordo para a análise do
Tribunal.
Em entrevista que me concedeu ontem na GloboNews, o embaixador disse que, apesar dessa judicialização, continua muito otimista em relação ao caminho escolhido pelo Brasil de negociar, em parceria com o Mercosul, acordos comerciais com países e blocos. Estão sendo negociados tratados com o Canadá, a Índia, os Emirados Árabes Unidos, o Vietnã e possivelmente o Japão.
— Esse acordo com a União Europeia é parte de
um conjunto de negociações que estamos fazendo. Com o Canadá é a retomada de
uma negociação que já vinha ocorrendo anos atrás e foi interrompida em 2021. Já
tivemos seis ou sete rodadas amplas, em que foram discutidos diversos pontos. É
um acordo complexo como é o da União Europeia. Vamos ter uma grande rodada
negociadora agora, no fim de fevereiro, em Brasília, para retomar todos os
grupos de trabalho. A nossa expectativa é que, no caso do Canadá, a gente
possa, inclusive, tentar concluir este ano ainda, apesar da complexidade. O
Canadá é uma grande prioridade que nós temos.
Essa conversa mostra o caminho pelo qual o
Brasil quer ir. O de adensar suas relações e integração com outros países e
regiões, num momento em que os Estados Unidos escalam
a aposta unilateralista e de confronto. Ontem foi um dia de retrocesso, com a
decisão do Parlamento Europeu de, com a diferença de apenas dez votos, levar o
Acordo ao TJ para avaliar se algumas de suas cláusulas conflitam com normas da
União Europeia. O fato, contudo, não surpreendeu o embaixador.
— Havia a possibilidade, havia um rumor
forte. Na verdade, essa não foi a primeira tentativa de mandar o assunto para a
Corte Europeia de Justiça, eles tentaram em outros momentos e não conseguiram.
Agora, a questão principal de colocar em vigência é justamente passar no
próprio parlamento. Então há a opinião legal da Corte, mas o principal é a
votação no próprio parlamento. Os sinais que estão sendo emitidos são de que
será uma votação apertada também, assim como foi apertado esse resultado de
hoje. O parlamento está bastante dividido. Esse pode ser um complicador.
Logo depois desse claro recuo na vitória tão
comemorada da assinatura no sábado, o mundo viu perplexo o show de disparates
do presidente Donald Trump em
Davos. Ele escancarou sua estratégia de ameaçar os parceiros que se oponham à
sua proposta de ampliação territorial. Mentiu, fez afirmações sem nexo ou apoio
na realidade, exibiu uma arrogância desmedida e em certos momentos pareceu
delirar. Mais tarde, após reunião com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte,
disse que haviam chegado a uma estrutura de acordo sobre a Groenlândia e
retirou as tarifas que havia imposto como pressão.
De todo esse tormento mental, há dois pontos
a destacar: primeiro, que Trump continua exigindo “aquele pedaço de gelo”.
Mesmo que tenha afirmado que não usará a força para anexar a Groenlândia, ele
exibiu, em tom de ameaça, o seu poderio bélico. Segundo, o que ele falou sobre
o Canadá, com o projeto de construir um domo dourado, ao dizer que “o Canadá só
existe por nossa causa”.
A realidade com Trump supera as piores
distopias. É neste contexto que cada país precisa se perguntar o que fazer. O
primeiro-ministro do Canadá propôs que as potências médias negociem entre si.
“Ou estarão à mesa ou serão o cardápio.” Para não ser engolido pelo poder
imperial de Trump, o Brasil tem estado em várias mesas de negociação. Inclusive
com o Canadá.
Dos acordos que estão sendo negociados pelo
Mercosul, alguns são de preferências tarifárias. Outros, como o da União
Europeia, são mais amplos, com cláusulas de direitos humanos, de defesa da
democracia, de cooperação e de desenvolvimento sustentável. O Brasil se prepara
também para a reunião em março, em Camarões, sobre a reforma da Organização
Mundial do Comércio. O país continuará apostando em cooperação e
multilateralismo, principalmente agora que o mundo vive o seu pior pesadelo
desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

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