O Globo
Há os que conseguem festejar a queda do
ditador Nicolás Maduro e condenar a ação absurda do protoditador Donald Trump
Reelaborando a sabedoria popular, Machado de
Assis escreveu que não é a ocasião que faz o ladrão:
— A ocasião faz o furto; o ladrão já nasce
feito.
As tias do zap seriam golpistas latentes, à espera de uma oportunidade para atacar as instituições, os edifícios públicos e os fatos. Sem um catalisador, passariam a menopausa e a “melhor idade” entretidas com hidroginástica e receitas de remédios caseiros — que provocariam, no máximo, ataques de riso na Anvisa.
Idem para os militares saudosos de regimes de
exceção. Na ausência de algum aventureiro que lhes abrisse caminho, chegariam à
reserva entediados com a missão de pintar de verde aquilo que anda (tanque,
jipe) e de branco o que fica parado (tronco de árvore, meio-fio). Seu maior
desafio na ativa teria sido a dúvida bizantina sobre que cor usar nos velhos
tanques estacionados, como monumentos, na entrada dos quartéis.
Há outro ditado que corrobora a reflexão
machadiana:
— É na tempestade que se conhece o
marinheiro.
Defender o protagonismo e o empoderamento de
mulheres, afrodescendentes, LGBTQIAP+ e pessoas em situação de vulnerabilidade
social é fácil quando se compartilha a mesma ideologia. Caso contrário, estes
serão alvo de desprezo similar ao que lhes dedicam os assumidamente misóginos,
racistas, homotransfóbicos e aporofóbicos. A empatia e a opção preferencial
pelos desprivilegiados não sobrevivem ao menor sintoma de pluralidade de
opinião. A tolerância naufraga na primeira onda.
O ditado sobre o marinheiro e a procela vale
também para o episódio da invasão da Venezuela. Ali se evidenciou ainda mais
quem preza democracia, direitos humanos e Direito Internacional e quem topa
tudo por um déspota para chamar de seu. Há os que conseguem comemorar a queda
do ditador Nicolás Maduro e, ao mesmo tempo, condenar a absurda ação do
protoditador Donald Trump. E os que condenam em Trump o que relevam em Putin (e
vice-versa), ou só veem em Maduro uma vítima do imperialismo ianque, não o
algoz de uma nação inteira. A tiranoafetividade é um vírus oportunista. Basta
uma baixa imunológica, e ela mostra do que é capaz.
Um último ditado diz que quem mata a galinha
dos ovos de ouro fica sem ouro, sem ovo e sem galinha. E o exemplo rematado
disso é... Porto de Galinhas, onde o turista é quem paga o pato da
incompetência nacional em explorar o turismo.
A ganância e a truculência observadas ali se
repetem país afora, impunemente. Não espanta que algumas cidades (como
Istambul, Londres, Dubai e Bangkok) recebam, sozinhas, mais visitantes que o
Brasil inteiro. E nem precisamos ir tão longe. Somos quase 50 vezes maiores que
o Uruguai e temos apenas o triplo de turistas que preferem o país vizinho, mais
civilizado.
Uma Justiça eficiente, que coibisse a
corrupção e punisse os corruptos, talvez evitasse que tanta gente ansiasse por
um regime de força, à direita ou à esquerda, com a desculpa de moralizar o
país. Uma organização supranacional que se encarregasse de prevenir conflitos,
garantir a paz e não se deixasse manipular ideologicamente nem se tornasse
refém das grandes potências talvez conseguisse evitar certos arroubos
belicistas. E quem sabe algum órgão, comandado por quem entendesse do assunto,
nos permitisse explorar a riqueza natural e cultural do país sem achacar o
turista.
Sonhar não custa.

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