Valor Econômico
Banco Master contou com a conivência e a
leniência de empresas de auditoria, órgãos fiscalizadores e plataformas de
investimento para promover a maior fraude da história
Na base de cadastro de pessoas jurídicas da
Receita Federal, Daniel Bueno Vorcaro aparece como sócio de 14 empresas, além
do Banco Master S/A. Seu pai, Henrique Moura Vorcaro, está ligado a 54
empreendimentos, a maioria imobiliários e de participações - muitos, porém, com
capital social nulo ou muito baixo (coisa de R$ 1.000,00).
Mas a campeã é a irmã, Natália Bueno Vorcaro Zettel, que é sócia de 59 empresas. Seu marido, Fabiano Campos Zettel, responde por outros 19 CNPJs, da Moriah Asset (“o primeiro veículo de investimentos em Wellness do Brasil”) à Igreja Batista da Lagoinha Belvedere - é bom lembrar que instituições religiosas têm imunidade tributária no Brasil. Outro integrante da família, também investigado, o primo Felipe Cançado Vorcaro é sócio de outras 17 pessoas jurídicas.
Além disso, os cinco integrantes da família
são representantes legais de outras 42 empresas, de cemitérios a restaurantes.
Esse conjunto de pessoas jurídicas, porém, aparece como sócio de mais 153
empresas. E, certamente, novas rodadas de pesquisas na base da Receita vão
gerar novas relações, pois criar várias camadas de participação de empresas era
uma das estratégias do grupo para desviar recursos e ocultar os beneficiários
finais.
Isso é o que revela uma pesquisa simples,
feita em menos de duas horas por um cidadão comum (no caso, eu mesmo), com um
mínimo de conhecimento em bases de dados públicas e um pouco de paciência para
o ChatGPT gerar os scripts corretos que extraem essas informações.
Analistas da Comissão de Valores Mobiliários
(CVM) e do Banco Central, auditores de gigantes como Ernst & Young
(E&Y) e Pricewaterhouse Coopers (PwC), além de gestores de investimentos de
plataformas como XP e BTG, têm condições de descobrir muito mais. Afinal,
possuem formação técnica, prática profissional e acesso a informações sobre os
fluxos financeiros dessas empresas.
Muita atenção tem sido dada para a blindagem
que os ministros Dias Toffoli e Alexandre Moraes vêm promovendo para evitar que
o escândalo do Banco Master chegue na classe política brasileira.
Porém, precisamos falar também de uma cadeia
de irresponsabilidade de empresas, órgãos fiscalizadores e profissionais
qualificados que silenciaram ou foram no mínimo coniventes para o Master chegar
aonde chegou.
Na edição de sábado (17) da Folha de S.Paulo,
os repórteres André Borges, Adriana Fernandes e Lucas Marchesini fizeram um
cruzamento de dados entre duas empresas investidas pelo grupo Master - Golden
Green e Global Carbon - com informações do Incra e mostraram que os supostos R$
45,5 bilhões em créditos de carbono do ativo dessas empresas vinham, na
verdade, de terras da União no meio da Amazônia. Aliás, o alerta já havia sido
dado por Izabel Gimenez e Camila Souza Ramos em matéria da Globo Rural em
dezembro de 2024.
Ainda assim, o inventário bilionário dos
créditos de carbono das empresas do Master contou com verificação da
metodologia de cálculo pela E&Y e por avaliação de demonstrações
financeiras pela PwC e ainda laudo de valorização dos ativos pelo economista
Marco Aurélio Hardt, da Horbia Partners.
É impressionante como nenhum desses
profissionais e empresas de auditoria procurou verificar se aquilo que eles atestaram
existia de fato. Um cruzamento mínimo de dados, como feito pelos repórteres, já
seria o bastante.
Em outra matéria, Diego Felix mostra que nos
relatórios disponíveis no site da CVM há ressalvas importantes feitas por
outras firmas de auditoria (Taticca, YPC, Next e Conatus) em seis fundos
ligados ao Master e custodiados ou geridos pela Reag.
Nesse caso, o que chama a atenção é a inação
da CVM: será que não existe naquele órgão um sistema de alerta que leva os
analistas a se debruçarem sobre fundos cujos balanços não foram aprovados por
auditorias independentes? Ou será que essas apurações não foram para frente por
ordens superiores da diretoria do órgão?
É preciso destacar ainda a irresponsabilidade
de plataformas como XP e BTG na promoção dos CDBs do Master. Parece claro que
essas instituições, que contratam a nata dos analistas da Faria Lima, deveriam
ter se debruçado sobre a qualidade dos ativos que supostamente lastreavam um
banco que oferecia papéis com rentabilidade tão elevada antes de recomendá-los
ostensivamente a seus clientes.
Quais providências tomarão Cofecon, CFC e
Anbima em relação aos profissionais por eles habilitados que falharam ao
atestar demonstrações fake?
Que reformas do sistema financeiro e do Fundo
Garantidor de Créditos serão necessárias para evitar a repetição do
comportamento irresponsável das plataformas na promoção dos CDBs do Master?
Quais melhorias institucionais precisam ser
feitas para que os órgãos de fiscalização (CVM, Banco Central, Receita Federal)
trabalhem em conjunto e atuem preventivamente, e não a reboque dos
acontecimentos?
Todo esse escândalo do Banco Master revela,
até o momento, que apenas a imprensa tem exercido o papel mínimo de cruzar os
dados e conectar os pontos para apontar as falhas que levaram à maior fraude da
história do Brasil.

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