Valor Econômico
O que o centenário Edgar Morin ensina sobre as lições da História e as múltiplas crises contemporâneas
”A ignorância é a mãe de todos os vícios”,
afirmou Machado de Assis, em uma crônica de 1889. É incomum citarmos
“sabedoria” entre os votos para o ano novo, junto com “saúde, amor e
prosperidade”. Em se tratando de 2026, quando teremos palpitantes eleições no
Brasil, deveríamos acrescentar “serenidade e tolerância”.
Mas, raramente, mencionamos mais “conhecimento” ou “saber”. Uma falha a se repensar em tempos velozes, de comunicação instantânea, progressos tecnológicos e científico, proliferação de guerras, quando sabedoria, muitas vezes, implica desacelerar e refletir.
A lição de um dos mais respeitados filósofos
contemporâneos é de que em uma realidade de inteligência artificial,
células-tronco, trans-humanismo, o mais urgente seria resgatar valores. “Fica
claro que o verdadeiro progresso de que a humanidade necessita seria o da
compreensão humana, da benevolência, da solidariedade, da amizade, sendo que
nesse campo só houve avanços parciais e provisórios, num contexto de retrocesso
generalizado”.
A receita é do intelectual francês Edgar
Morin, que em 2025, na plenitude de seus 104 anos, lançou mais um livro:
“Lições da História”, publicado no Brasil pela L&PM. Ele enumera 16 lições
que os fatos históricos deixam para a humanidade, como a força do improvável, o
papel dos mitos, heróis e santos, a contradição entre progresso e moralidade, o
poder devastador das guerras. Centenário, ele afirma que vida é metamorfose: [a
História] “nos lembra que a humanidade sempre esteve e sempre estará em
transformação”.
A história de Morin é inspiradora. Graduou-se
em direito, história e geografia, mas sempre se declarou autodidata.
Visionário, já na década de 70 escrevia sobre os riscos para o planeta e para o
ser humano da degradação ambiental. Doutor Honoris Causa de mais de 40 universidades, é
reconhecido pelo ambicioso “O Método”, publicado entre 1977 e 2004, obra de
seis volumes sobre transdisciplinaridade e o pensamento complexo.
Em “Lições da História”, ele adverte que, em
2025, a humanidade estava “sendo arrastada para um grande retrocesso por um
conjunto de crises ecológicas, políticas, econômicas; deixando-se de lado a
afetividade, a felicidade, a infelicidade, a alegria, a tristeza, ou seja,
realidades humanas essenciais”.
Ele enxerga o retrocesso ao lado do
progresso. “É incontestável que avanços científicos e tecnológicos não param,
como mostram as manipulações do DNA e de células-tronco na biologia ou os
desenvolvimentos exponenciais das ciências do digital”, reconhece. “Enquanto o
planeta está entregue a processos regressivos que parecem implacáveis, com a
hegemonia do lucro, as degradações ecológicas, as guerras e as múltiplas crises
interligadas numa policrise”, lamentou.
Morin reflete que essa ideologia promete “a
imortalidade, uma sociedade perfeita regulada por inteligência artificial e a
continuação da aventura humana em planetas colonizados, a começar pela Lua e
por Marte: o trans-humanismo torna-se pós-humanismo”. Contudo, critica a
“ausência de qualquer progresso moral no progresso
científico-técnico-econômico”, e retrocessos morais nas crises e guerras,
insistindo que o verdadeiro progresso seria a “compreensão humana”.
O debate que envolve avanços científicos,
longevidade e imortalidade está no radar dos líderes mundiais. Em outubro, o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em evento com empresários na
Malásia, que tem “compromisso com Deus para viver até 120 anos de idade”, o que
não seria muito “no mundo de hoje”.
O repórter Assis Moreira, do Valor, lembrou que,
recentemente, uma transmissão ao vivo capturou os líderes da Rússia, Vladimir
Putin, e da China, Xi Jinping, tratando do tema. “Órgãos humanos podem ser
transplantados continuamente. Quanto mais você vive, mais jovem se torna - e
pode até mesmo alcançar a imortalidade”, disse Putin. “Alguns preveem que,
neste século, os humanos poderão viver até 150 anos”, completou Xi.
Para além da empreitada de viver 100 anos, e
mais um pouco, o verdadeiro debate deveria ser em que condições chegar nesse
estágio, e o que fazer com essa vivência. É onde entra a sabedoria. Lúcido,
Morin caminha para os 105 anos estudando e publicando livros.
Nesta semana, a revista The Economist argumentou que
Lula não deveria disputar a reeleição aos 80 anos - embora não mencionasse o
americano Donald Trump, que tem a mesma idade e o mesmo desejo do brasileiro.
Como tem afirmado, se estiver saudável e lúcido, Lula tem o direito de
concorrer. O que ele precisará deixar claro é o que mais terá a oferecer ao
país e aos brasileiros em eventual quarto governo.
Segundo Morin, outra lição da História é
“fazer entender que o poder revela a natureza humana e permite a realização das
piores e das melhores potencialidades”. Que venha um 2026 com saúde,
prosperidade e sabedoria para todos nós.

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