sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Uma oportunidade para jovens do país inteiro. Por José de Souza Martins

Valor Econômico

‘Prelúdio’, programa criado por Júlio Medaglia, há 20 anos revela talentos da música clássica

Jô Soares fez um esforço para estabelecer um diálogo com o pequeno Guido Sant’Anna, violinista de 8 anos de idade, finalista do programa “Prelúdio”, da TV Cultura de São Paulo de 2014. Perguntava à criança e recebia respostas de criança, não de adulto genial. Guido gostava de subir em árvore na chácara em que morava em Parelheiros, ia à escola no ônibus escolar que levava e trazia as crianças, gostava de jogar bafo de figurinhas com os amigos e colegas sentado no chão.

Jô perguntava sobre o violino ao músico e recebia resposta de violinista conhecedor competente de música nem por isso menos criança.

Jô teve dificuldade para falar com a criança que se tornara um violinista reconhecidamente de grande talento, que era criança ao mesmo tempo. Era óbvio que Guido Sant’Anna estranhava a necessidade do adulto de desagregar sua infância para compreendê-la, como se não fosse uma criança normal. Coisa que os adultos fazem frequentemente com a crianças

Ser um grande violinista tão cedo não faz de uma criança uma aberração. As sociedades de senso comum pobre, como a nossa, é que são aberrações. Sua professora na escola primária explicava que Guido era resultado da qualidade pedagógica da escola pública.

Em pouco tempo, Guido Sant’Anna seria internacionalmente reconhecido como um dos grandes nomes da música erudita.

Ao seu lado, o maestro Júlio Medaglia confirmava para o Jô a extraordinária revelação ocorrida dias antes em seu programa “Prelúdio”. E predizia, com acerto, o futuro daquela criança.

O maestro criou o programa há 20 anos. Adaptou e transferiu para o campo da música erudita o que foi o padrão de criatividade da música brasileira dos anos 1960 e 1970, que nos revelou nossa reação musical à circunstância adversa do regime autoritário.

Como mostrou Walnice Nogueira Galvão, em artigo recente, momento de talentos como o do paraibano Geraldo Vandré, de “Para Não Dizer que Não Falei de Flores”. Ou de Chico Buarque, carioca, de “A Banda”. Ambos, digo eu, com o duplo dizer do dito e do silenciado como em Guimarães Rosa. As mensagens insurgentes das entrelinhas. Como na música e na poesia de Tom Zé.

O maestro Júlio Medaglia e a TV Cultura criaram um imenso espaço para novos talentos da música erudita, significativamente aberto para os que vêm do longe que está tão perto. Mais de 3 mil candidatos já se inscreveram no programa. Muitos deles têm vindo de outros estados, de pequenas e médias cidades, e frequentemente de bairros e do subúrbio da classe trabalhadora. No mesmo programa final de 2014, além de Guido, apresentaram-se candidatos de Guarulhos, Cubatão e Sorocaba, lugares com tradições musicais próprias.

Outro nome revelado pelo “Prelúdio” é Cristian Budu, que gostava de futebol e de matemática, hoje um pianista internacionalmente consagrado, natural de Diadema (SP). Estudou piano clássico na Escola de Comunicações e Artes da USP. Foi aluno de Claudio Tegg na Fundação das Artes de São Caetano do Sul

Dele disse o grande Nelson Freire que acreditava que ele viria a ser seu sucessor. A Gramophone o incluiu na lista “Top 50 Greatest Chopin Recordings”.

Um dos nomes excepcionais revelados pelo “Prelúdio” do maestro Júlio Medaglia é Bruno de Sá, sopranista, destaque no “Concert de Paris”, em julho de 2025, na comemoração do aniversário da Revolução Francesa. De voz única e rara, cantou a Ária das Bachianas nº 5, de Heitor Villa-Lobos, para a multidão que naquela noite se estendia diante da Torre Eiffel.

Bruno de Sá nasceu em Santo André, de pais frequentadores da Assembleia de Deus, que cantavam no coral da igreja. Ele os acompanhava quando iam para o ensaio. Aos dois anos, pediu para cantar também. Por essa época, seus pais mudaram-se para Ibitinga.

Em 2017, participou do “Prelúdio” e foi classificado. Mas, antes da final, teve paralisia facial, que dele exigiu reeducação da voz. Ficou em segundo lugar, mas era visível a alteração da face, que o afetou em relação ao primeiro desempenho. Não cedeu e hoje é reconhecido como o grande nome na peculiaridade de sua voz. Formou-se em música pela Universidade Federal de São Carlos. Em seguida ingressou no Curso de Canto Lírico da Escola de Comunicações e Artes da USP.

Júlio Medaglia, nos ensaios com os candidatos à apresentação em seu programa, mostra sua peculiar vocação de educador, garimpeiro de talentos para salvá-los em favor do bem comum. Ele não só dá visibilidade profissional aos que se apresentam. Ele motiva jovens do país inteiro para exporem sua competência e desse modo motivarem outros jovens a seguirem o mesmo caminho.

A embaixada da Hungria concede ao primeiro colocado do “Prelúdio” uma bolsa de um ano de estudos na Academia Franz Liszt de Budapest.

 

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