A ideia de uma alternância civilizada entre uma centro-esquerda democrática, com muitas conquistas a seu favor, e uma centro-direita com predominância liberal e adaptada à democracia – que ainda não encontrou sua personificação – parece fazer parte de um panorama político imaginativo que paira na atenção dos eleitores de 2026.
Mas aquele momento foi só o sinal de que
havia ocorrido, nos últimos anos, mudanças muito grandes no país — e não
necessariamente para melhor —, sem que as forças políticas democráticas
compreendessem a profundidade dessas mudanças e como a complexa e difícil
situação econômica seguiu seu curso, sem falar na débil circunstância da
segurança cidadã e no funcionamento das instituições, que chegou a ocasionar o
inesquecível junho de 2013.
Nossa jornada lado a lado com uma fase
histórica da situação mundial, que se deteriorou, fez surgir um mal-estar com a
globalização e os rápidos avanços científicos e tecnológicos, que foram se
tornando cada vez menos compatíveis com os termos progresso social, respeito
pelas regras de convivência e o avanço da democracia como um projeto
civilizatório aperfeiçoável.
Quando isso aconteceu, sabíamos que as vozes
se tornariam ásperas, as desigualdades se aprofundariam, as dificuldades da
democracia se tornariam evidentes, e as ideias autoritárias emergiriam como
algo possível e aceitável.
No voto, a era dos impérios predadores havia
começado, com o poder desenfreado e a dominação como primeiro objetivo
declarado, sem qualquer pudor, e a ameaça aos mais fracos como algo legítimo.
Eles se expressam no mundo através do
surgimento de chefes de Estado, eleitos, com ideologias, por vezes opostas, que
reavivam os nacionalismos e aspirações territoriais, que praticam o
autoritarismo e a contrademocracia iliberal, onde a linguagem diplomática é
substituída por uma linguagem vulgar e ameaçadora, e invasões, guerras locais e
genocídios são considerados comportamentos aceitáveis diante de um protesto
silencioso do restante dos países.
O Ocidente e seus valores lutam para sobreviver,
o que reflete o seu enfraquecimento.
Parecia que a parte justa da história havia
morrido. Pensávamos que a realidade histórica não nos afetaria, mas isso é
apenas mais uma ilusão.
No Brasil, tudo começou com o abandono da
política vitoriosa da frente democrática de 2022 (que nada tem de excepcional e
circunstancial) pela esquerda e suas críticas ferozes à centro-esquerda. A
reforma ministerial, em curso por conta do calendário eleitoral, indica que
teremos um governo minoritário com um candidato respeitável para sua reeleição,
porém fadado a maiores dificuldades.
O governo tem razão ao dizer que o Brasil não
está se desintegrando e que algumas das coisas feitas são positivas, mas isso é
apenas metade da verdade, porque algumas das coisas mais importantes são
aquelas que prometeram e não fizeram.
Assim, a pergunta que não quer calar é: como
não entender que é necessário reconstruir a centro-esquerda que tão bem
compreendeu o Brasil em 2022 e que possibilitou recuperar uma visão de futuro
com propostas de crescimento e maior igualdade que respondam aos interesses das
brasileiras e brasileiros hoje em um mundo tão hostil?
Ninguém fala disso. Na verdade, imaginam ser
possível seguir com essa coalizão artificial com posições muito diversas.
Abandonar essas visões distantes da realidade
e priorizar o Brasil real será a única maneira de reconquistar a confiança das
pessoas na centro-esquerda; para isso, é necessário abandonar a confusão e a
ignorância.
Somente essa prática poderá gerar o
reconhecimento necessário para que o governo volte a ser uma opção viável
É bom que o governo e a sua oposição tenham
em mente que, numa democracia, não existe “é tudo nosso e nada deles”, o
vencedor não ganha tudo e o perdedor não perde para sempre.
*Ricardo Marinho é Presidente do Conselho Deliberativo da CEDAE Saúde e professor da Faculdade Unyleya, da UniverCEDAE e da Teia de Saberes.

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