domingo, 1 de fevereiro de 2026

As boquinhas do Master. Por Elio Gaspari

O Globo

Mantega e Lewandowski, estrategistas de Vorcaro

O Planalto tem feito o possível para se afastar do escândalo do Banco Master. Como bem lembra o ministro Fernando Haddad, em 2024, quando Lula recebeu o banqueiro Daniel Vorcaro (fora da agenda) as malfeitorias eram apenas murmuradas.

Vorcaro foi levado a Lula pelo ex-ministro Guido Mantega. Até aí, o doutor é amigo do banqueiro e levou-o ao chefe. Lula acautelou-se, chamando Gabriel Galípolo, então diretor do Banco Central, e mais duas testemunhas.

Fora do governo, Mantega borboleteia por Brasília. Lula tentou colocá-lo numa diretoria da Vale, mas ambos contentaram-se com uma vaga no conselho da Eletrobras (R$ 12,6 mil mensais). No banco Master, Mantega exercia a função de “consultor estratégico”. Seu salário teria chegado a R$ 1 milhão por mês, durante 18 meses. A última gestão pública de Mantega foi a tentativa fracassada de detonar a candidatura de Ilan Goldfajn à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Outro estrategista de Vorcaro foi o ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski. Ele ligou-se ao banqueiro em agosto de 2023 e seu contrato rendeu R$ 6,5 milhões por 12 meses de consultoria. Quando o contrato de Lewandowski foi para a luz do Sol, esse precioso detergente, a charanga palaciana apressou-se a esclarecer: ministro aposentado do STF, Lewandowski afastou-se da consultoria de Vorcaro ao assumir o Ministério da Justiça. Beleza, e quem ficou com o contrato? O filho e a mulher de Lewandowski, cuidando de assuntos tributários.

A repórter Malu Gaspar estimou o valor da hora cobrada a Vorcaro. Depois da saída do ministro da Justiça, sua parentela cobrou R$ 5 milhões a Vorcaro. Os tributaristas de renome cobram pelo tempo dedicado ao cliente, cerca de R$ 2.500/hora. Sua conclusão: “O contrato do Master com o filho do ministro pagaria o equivalente a 100 horas/homem por mês — ou 4,5 horas de trabalho por dia, em todos os dias úteis do mês”.

Com estrategistas desse calibre, Vorcaro não precisava de inimigos.

A sinuca de Vorcaro

Ninguém pode prever se Daniel Vorcaro colaborará com as investigações, mas uma coisa é certa, do jeito que vão as coisas, a culpa sobrará para ele, e só para ele.

Lula e Roosevelt

Lula não tem sorte quando faz paralelos históricos. Outro dia ele foi ao Panamá e disse o seguinte:

“O presidente Franklin Roosevelt implementou uma política de boa vizinhança que tinha como objetivo substituir a intervenção militar pela diplomacia em sua política externa para a América Latina e Caribe”.

Roosevelt preferia as gestões diplomáticas. Mas quando elas não bastavam sabia usar a força.

No caso da entrada do Brasil na Segunda Guerra, ele levou a diplomacia ao seu limite e bastou, mas em 1941 os Estados Unidos estavam preparados para ocupar o Saliente Nordestino. Afinal, o caminho mais curto e seguro para que os aviões americanos atravessassem o Atlântico, precisavam de uma pista que ligasse o Rio Grande do Norte à África.

Em março de 1945, com a guerra já decidida, Roosevelt “esperava que o general Vargas fosse reeleito presidente, mas que não ia procurar dar uma mão, por medo de prejudicar mais do que ajudar”.

À época, os admiradores de Vargas (que nunca foi general) criaram o mito segundo o qual o ditador foi derrubado pelo embaixador americano. O economista Adolfo Berle.

Segundo turno

Flávio Bolsonaro está convencido de que irá para o segundo turno com Lula.

Depois do carnaval ele começará a calibrar os faróis.

Lula e suas surpresas

Em 2022, Lula surpreendeu a política nacional colocando Geraldo Alckmin na sua chapa. Afinal, em 2006 ele havia disputado a Presidência contra Lula.

Os sinais de fumaça vindos da taba de Lula sugerem que ele prepara uma nova surpresa. A vice continuará com Alckmin, mas a surpresa virá antes do segundo turno.

Desta vez, a novidade passará pelo cacique Gilberto Kassab.

A China e Trump

Enquanto Donald Trump aterroriza os estrangeiros, a China anunciou que não pedirá vistos para visitantes por um período máximo de 30 dias.

A China deixou de ser a nação mais fechada do mundo, e os Estados Unidos deixaram de ser o país mais aberto do mundo.

Erro

No domingo passado, tratando da quebra do banco Nacional, em 1995, mencionou-se “um de seus diretores, José Luiz de Magalhães Lins (1929-2023), foi um arquivo vivo do poder em Pindorama”.

José Luiz havia sido a alma da fase de esplendor do Nacional, mas deixou o banco em 1972. Ele nada teve a ver com a quebra do Nacional, muito menos com as malfeitorias lá praticadas.

Zé Luiz, como era conhecido, inovou as práticas do mercado, emprestando dinheiro para artistas com muitas ideias e pouco crédito, de Grande Otelo a Glauber Rocha. Se Deus é brasileiro, alguém escreverá sua biografia.

Agia na sombra e era mais conhecido por suas manias.

Crise do capitalismo

Num sinal de que algo está acontecendo com o capitalismo, a Saks Global, controladora das lojas de departamento Saks Fifth Avenue, Bergdorf Goodman e Neiman Marcus, foi à garra.

As três atendiam uma clientela que cobria aquela parte da humanidade que vai às compras disposta a torrar mil dólares numa tarde.

A Bergdorf é chique e a Saks é um templo do consumo. As causas do declínio podem ter várias explicações, mas um sinal é indiscutível: uma holding controlando empresas tão diferentes é uma aposta no fracasso.

A Saks encantou o mundo colocando aquecedores debaixo de suas calçadas.

Nenhuma das três teve o charme da Tiffany nem Audrey Hepburn contemplando sua vitrine. Ela hoje é parte do conglomerado Louis Vuitton. No século XIX, quando os vidros de Charles Tiffany eram o sonho do consumo dos ricaços, Louis Vuitton era um talentoso maleiro francês, encarregado de arrumar as roupas da mulher de Napoleão III nas bagagens imperiais.

Hoje, a marca Louis Vuitton é controlada por outro conglomerado.

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