terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Bolsonaro usa Lula como exemplo. Por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Ex-presidente repete o sucessor ao buscar se manter relevante no processo eleitoral mesmo de dentro da prisão

O presidente também imita o antecessor ao levantar a bandeira antissistema com sinal trocado

Quando Jair Bolsonaro (PL) pede à Justiça autorização para receber políticos de destaque em sua morada prisional está na clara intenção de se manter influente no processo eleitoral.

Nisso imita o oponente Luiz Inácio da Silva (PT), que em 2018 foi o artífice da candidatura do correligionário Fernando Haddad de dentro da prisão, assim como agora o ex-presidente impõe apoios à empreitada do filho Flávio. Há, contudo, diferenças nesse jogo da imitação. Lula manteve acesa até setembro daquele ano a falsa chama de que poderia se candidatar. Quanto a Bolsonaro, as circunstâncias o obrigaram a não insistir na mística da candidatura impossível.

Além disso, Haddad não se compara a Flávio. Um foi prefeito de São Paulo, postulante ao governo do estado, concorrente à Presidência da República e ministro da Fazenda.

O outro, senador, foi acusado da prática de desvio dos salários dos funcionários no gabinete de deputado estadual no Rio de Janeiro. Quanto à experiência administrativa, ao que se sabe resume-se à sociedade numa loja de chocolates.

Vivemos tempos em que esse tipo de cotejo não conta. O controle de qualidade dos aspirantes ao comando do país tem sido o de menos. A julgar pelos movimentos dos polos dominantes na política, assim será nesta eleição.

Os dois pretendem levantar a bandeira de combate ao que chamam de "sistema". Nenhum deles diz exatamente o que isso significa, embora se depreenda que, a grosso modo, a esquerda queira se contrapor à elite econômica, e a direita à elite cultural.

Nada disso responde a demandas objetivas da sociedade por economia estável, estímulo à produtividade, condições razoáveis de segurança no ir e vir do cotidiano, serviços públicos de qualidade, incremento da confiabilidade nas instituições e reformas em áreas ainda presas a conceitos do passado.

O embate entre "fascistas" e "comunistas" atende a fantasias ideológicas, mas mantém o debate político longe das questões substantivas indispensáveis ao desenvolvimento do país.

 

Nenhum comentário: