sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Carnaval a finitude do que éramos, por José de Souza Martins

Valor Econômico

Entre nós, o Carnaval foi destituído das referências mediadoras da Quaresma, do tempo da espera. Virou coisa em si mesma

Mesmo não o sendo, de fato, o Carnaval se tornou uma espécie de referência identitária do imaginário do que o brasileiro julga que é. Na verdade, a imensíssima maioria do povo sempre esteve e está cada vez mais distante dessa festividade, que, aliás, não é apenas uma, mas várias escondidas sob um único nome.

O declínio do Carnaval brasileiro pode ser analisado como documento e indício sociológico de mudanças profundas no que reiteradamente tem-nos sido dito que somos. O Carnaval é o outro lado, é o nosso nunca fomos.

O crescimento estatístico do número de evangélicos poderia ser tomado como fator de comprometimento da adesão ao que muitos, evangélicos ou não, consideram uma festa de Satanás. Tampouco o é. É notório que Satanás está muito atarefado com outras solicitações, sobretudo com a maligna tarefa de monitorar seus auxiliares em estado de rebeldia nos poderes, na economia e mesmo nas religiões.

Os indícios do último meio século são de que o Carnaval está no fim. Monitoro essa decadência desde quando começou claramente a deixar de ser uma festa popular de rua, o tríduo da licença pecaminosa, do cotidiano invertido, para deixarmos de ser o oculto que somos.

Desde que foi aqui difundido nos finais do século XIX, o Carnaval não tem sido e nunca foi expressão da nossa suposta alegria. Alegria de quê? Qual a proporção de brasileiros que tem tido algum motivo de alegria para celebrar?

Eu sempre soube que o Carnaval era um momento de fuga, de fingimento, de nele estar para não estar de fato. Mas isso também tem um pouco de simplificação. Talvez o Carnaval melhor diga que não somos um povo alegre, mas reclamamos o direito de ter alguns momentos de alegria, nem que seja fingida.

O extraordinário Paulo da Silva Prado, de uma das famílias mais ricas do Brasil, patrono da Semana de Arte Moderna de 1922, publicou, em 1928, “Retrato do Brasil: Ensaio sobre a tristeza brasileira”, um livro referencial. Do modernista Mário de Andrade, também de 1928, é Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.

O da identidade inconcreta dos desencontros do modo de ser, o diverso e múltiplo que não é nenhum.

O Carnaval está no fim por ter perdido as referências sociais de sua gênese, daquilo que socialmente é, por ter perdido a possibilidade de ser socialmente compreendido e decifrado.

O Carnaval é popularmente interpretado como festa mundana, suspeitamente, porém, impregnada de atributos e concepções que remetem a um sistema de significados que é o da religião. Sua cultura de inversões, simulações e fingimentos narra a representação social do anticotidiano, do que somos não querendo ser, ou querendo mas não podendo.

Em tempos idos, nos começos, Carnaval era homem se fingir de mulher, mulher, de homem, usar máscara do que não se era para interagir como avesso. Sentir-se liberado para agredir o outro, o desconhecido, o diferente, o socialmente distante, com laranjinhas de cera cheias de água perfumada ou mais tarde o lança-perfume.

O momento significativo do nascimento do Carnaval entre nós foi aquele em que se sobrepôs ao Entrudo e o modificou e substituiu, no século XIX. O Entrudo era o marco divisório entre o sagrado e o profano, situado no próprio calendário religioso.

Do latim “introitus”, dizem, inaugurava a Quaresma, o período de restrições religiosas que penalizam o corpo. O Entrudo, e o Carnaval o imitou, representava uma burla dessas restrições, viabilizada pela inversão da realidade ao contrário do que cotidianamente é. A realidade como representação e teatro do avesso.

A máscara e o mascarado como figurações do não ser dos dias da incerteza da aproximação da crucificação e morte de Cristo. O tempo do vazio da espera e do perigo do advento do Anticristo.

Mas algo aconteceu. Entre nós, o Carnaval se tornou o espetáculo desse vazio, foi destituído das referências mediadoras da Quaresma, do tempo da espera. Virou coisa em si mesma. Mero produto para consumo do imaginário. A rua tornou-se residual.

O Carnaval virou imóvel nos monumentos de concreto que são os sambódromos, em que se paga para participar, tornou-se seletivo, instrumento de exibição da classe média e de consumo do espetáculo. Como todo produto que é mercadoria, disseminou-se. A antiquaresma antecipou-se e estendeu-se pelo próprio tempo sagrado da espera sacrificial.

A Quarta-Feira de Cinzas foi violada. Todos os dias se tornaram dias de Carnaval. Já não é preciso fingir. A vida perdeu a autenticidade porque já não existe o íntimo nem o segredo. Íntimo e segredo agora são espetáculo. A banalidade do cotidiano transformou-se em espetáculo. O Carnaval, por sê-lo, já não o é. O Carnaval tornou-se desnecessário e inútil.

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